A Menina das Bonecas
por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica
Às vezes a infância volta como um fio que não quer se perder.
Faz um tempo que conheci uma menina encantadora — encantada pelas infâncias e pelos objetos que nelas respiram.
Entre eles, aquele que atravessa gerações e se aninha na memória de tantas meninas: a boneca, esse pequeno corpo que acolhe o gesto, o afeto e o silêncio de quem aprende a cuidar.
Cristal é uma dessas meninas.
E talvez eu também seja, de algum modo.
Ainda gosto de bonecas — gosto da ideia de que, nelas, algo do que fomos encontra abrigo.
Algo na ordem do sentir, do emocionar-se com as coisas simples.
Às vezes penso que não a conheci;
Às vezes penso que a vi como um espelho.
A menina que vejo nela é também uma parte de mim que insiste em permanecer, que ainda gosta de bonecas, de crochê, não por nostalgia, mas por necessidade de ternura.
Cristal nasceu no Brasil, mas o tempo, com suas linhas caprichosas, levou-a a viver em Sintra, Portugal.
Não foi coincidência: o fio que os portugueses um dia levaram ao Brasil voltava agora pelas mãos de Cristal, reinventado, cheio de leveza e vida.
"O tempo se dobra nas mãos de quem sabe tecer."
As mulheres guardaram esse saber nas dobras do cotidiano, entre conversas, filhos, silêncios e afetos.
Nos fios se tecia o necessário: o pano que cobre, o enfeite que alegra, o presente que afaga.
E o invisível: o gesto que resiste, a memória das mulheres que nos antecederam, a delicadeza que se faz permanecer.
Nas mãos de Cristal, esse legado se renova.
O crochê volta a ser espaço de criação — uma forma de brincar, de continuar, de pensar com o corpo.
Pequenos mundos tecidos entre o gesto e a paciência. E mais...entre pontos, a boneca leva o que é feminino de uma geração à outra.
Às vezes penso que o fio não vem da linha — vem de dentro da pele.
Como se cada ponto fosse um pensamento que eu não sei dizer.
Conheci-a no Mercado da Vila, entre bancas de outras artesanias, vozes e cheiros apetitosos.
A menina das bonecas permanece em pé atrás da mesa, confiante, como quem traduz o mundo com uma agulha.
Há algo de comovente nisso: ver alguém tecendo presença em meio à distração, à solidão... oferecendo delicadeza onde tudo parece apressado.
Eu a olho e penso: é assim que começa o amor — quando alguém faz o simples com tanto cuidado que o mundo parece caber dentro de um ponto.
O Mercado, parece-me, é também uma espécie de colo.
Um espaço onde o que é feito com as mãos encontra quem sabe olhar com vontade de ter.
Ali, o trabalho de Cristal se inscreve como ato de permanência — uma forma de lembrar que o cuidado ainda existe, que o tempo pode ser tecido, que a criação é também um modo de se manter inteira.
Hoje, Cristal tem vinte anos.
Há quatro, vive das bonecas e sonha em ser designer.
E é fácil acreditar.
Porque quem, com um fio, cria mundos, já descobriu que a beleza também é uma forma de ser.
E eu penso, por um instante, que talvez seja isso que nos salva:
o gesto simples, o fio, o cuidado.
Vamos ao mercado tomar um café e deixar a alma brincar...
