Mostrando postagens com marcador Desporto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Desporto. Mostrar todas as postagens

  

O Desporto como Caminho para o Bem-Estar Infantojuvenil

Por Katia Bonfanti

Psicóloga Sistêmica

Certa tarde, ao repousar o olhar na Alameda, observei minha filha e meu filho brincando de futebol. Sob o sol dourado que tingia os sorrisos, eles corriam com um grupo de amigos, dez crescidinhos disputando a bola como quem corre atrás de sonhos. Das janelas dos prédios, alguns senhores assistiam, torcendo com os entusiasmos de quem acompanha uma final de campeonato - e quando brincam uniformizados com suas camisas do Pirâmides Futebol Clube, mostrando que a identificação importa. Havia ali uma comunhão de desejos, disposição e estratégias. Um jogo do brincar, que faz crescer. Um momento de alegria e efervescência entre as crianças e os adultos a gesticular nas janelas, como se o desporto fosse um laço invisível a unir gerações e tecer vínculos que fortalecem a convivência.
Aquele instante efêmero me fez refletir sobre a grandiosidade das experiências que o desporto oferece. Não só às crianças, mas a todos nós, em qualquer fase da vida e em qualquer perspectiva, nos relacionamos com o desporto. Para os infantes é ainda mais potente. É nesses espaços que nascem ambientes que acolhem e fazem florescer o desenvolvimento infantil, onde o lúdico e o físico se encontram com o emocional e o social. Onde a técnica se mescla com a composição física definindo lugares e desenvolvendo um refinamento das habilidades. Alguns no centro, outros no ataque, outros na defesa... todos pelo grupo. Cada um encontra ali um papel, um lugar possível de pertencimento.
Sou mãe de duas crianças curiosas e em constante descoberta — um movimento que observo com encantamento e escuto com a escuta atenta que a clínica me ensinou. Após duas décadas estudando os processos de aprendizagem, reconheço no desporto um espaço que integra corpo, mente e vínculos. O desenvolvimento infantil se revela nas relações, nas experiências múltiplas que, mesmo distintas, se complementam e se entrelaçam.
Vivemos um tempo em que o bem-estar infantojuvenil precisa ser colocado no centro das prioridades. As diretrizes da UNICEF destacam a importância de ambientes que favoreçam o desenvolvimento saudável das crianças — e o desporto se apresenta como uma ferramenta valiosa nessa missão. Alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, ODS 10 – Redução das Desigualdades), o esporte carrega o poder de transformar, integrar e formar. Como prática coletiva, ele ultrapassa os limites do campo físico: influencia vínculos, constrói identidades, regula emoções e reverbera nas dinâmicas familiares.
Nós, educadores e pais, temos o dever de observar atentamente o que envolve nossos pequenos. Não apenas seus movimentos físicos, mas também as práticas e estratégias às quais são submetidos. Que o desporto seja um campo fértil, onde o crescimento emocional se mistura à superação de limites. Que o reforço positivo seja um solo propício à autoconfiança e ao reconhecimento do próprio valor. Cada elogio sincero, cada vitória, por menor que seja, enraíza neles a certeza de que são capazes. Como uma planta que se inclina para o sol, eles crescem em direção à sua melhor versão. E fazem isso na relação com os outros — com os treinadores, colegas, cuidadores — porque o reconhecimento não é apenas individual, é construído em rede. Se no futuro o desporto profissional fizer sentido, em todos os aspectos podem, por escolha, seguir caminho. Mas, por hora são crianças crescendo e se reconhecendo sujeitos. Isso já é tudo.
Entretanto, há um alerta: o excesso de competição pode ofuscar essa luz. Gerar sofrimento. A busca desenfreada por troféus muitas vezes oculta o valor dos objetivos do desporto na infância e na adolescência – o processo de desenvolvimento de cada um que se desafia nos treinos, das mãos que encorajam o outro no calor de uma partida, da socialização que se dá nas entrelinhas de uma jogada. Há, sim, uma vitória mais duradoura que qualquer medalha: o companheirismo. Nos olhares cúmplices e nas palavras de incentivo entre as crianças, o desporto se revela um espaço de aprendizado profundo sobre colaboração, respeito e, principalmente, sobre si mesmas. Ali se constroem espelhos relacionais, em que cada criança aprende sobre o outro e, ao mesmo tempo, sobre si.
Vejo que quando meu filho, ao se preparar para ir ao treino de futebol no clube, canta, assovia, arruma cuidadosamente a mochila e sempre diz alguma coisa relacionada a sua expectativa ou uma pequena resenha do treino anterior com entusiasmo. Este envolvimento leve e alegre diz muito do que ele está vivendo e construindo nestes encontros onde ele e os amigos correm com uma bola com o objetivo de balançar a rede da equipe oponente, quando venceram todos os obstáculos. E nem sempre é possível.
Ao lidar com as emoções – seja a frustração de uma derrota ou a euforia de uma vitória – as crianças aprendem a arte da regulação emocional. Ambientes que abraçam, que entendem o erro como parte do processo, cultivam resiliência. E isso vai além do jogo. Elas tornam-se mestres de si mesmas, capazes de lidar com desafios não só no esporte, mas na vida. Quando um sistema reconhece o valor do erro como etapa de aprendizagem, ele se torna um espaço de crescimento afetivo.
Por outro lado, ambientes punitivos sufocam o crescimento emocional. A crítica destrutiva, a palavra agressiva, o olhar repressor de um treinador, pode apagar aos poucos a chama que há dentro do aprendiz. Marca indelével na autoestima de um infante. Infelizmente, isso ainda é comum, como uma sombra que ronda muitos espaços desportivos. Ao ferir a autoestima, cria-se cicatrizes invisíveis que podem acompanhar a pessoa por toda a vida. A saúde mental fragilizada, a ansiedade, o medo do fracasso – tudo isso nasce a partir de um ambiente hostil. E esse sofrimento não é isolado — reverbera no sistema familiar, escolar, emocional da criança.
É imperativo que o desporto seja, antes de tudo, um espaço de acolhimento. Que ele seja gerador de afetos, de integração, de resiliência e sim, de respeito com o aprendiz. Um lugar onde a criança, ao se relacionar, sente-se segura para explorar suas potencialidades. Porque crescer é também ser visto, validado e acolhido nos vínculos que se estabelecem com o outro. Porque quando o medo é deixado à porta, o desejo de participar nasce naturalmente, e o desporto se torna um encontro producente, fértil em aprendizado e desenvolvimento.
Cascais, adota o programa da UNICEF, "Cidade Amiga da Criança", entendendo que as políticas públicas podem criar ambientes onde as crianças florescem. Não apenas no desporto, mas em todas as áreas que envolvem o desenvolvimento saudável – educação, cultura, saúde, participação cívica. Porque não há futuro saudável e sustentável se nossas crianças forem submetidas a ambientes adoecidos. A sustentabilidade da vida, está em promover saúde e bem-estar, cuidando das pessoas e do ambiente onde coabitam, para que no futuro possam disfrutar de harmonia e equilíbrio. Quando a cidade olha para a criança como parte central do sistema que deseja transformar, ela planta sementes duradouras. Somos todos Cascais e temos o dever de intervir para assegurar o bem-estar das crianças.
Tal como aquele dia na Alameda, em que as gargalhadas das crianças brincando reverberavam nos corações dos adultos, o desporto nos ensina que ele vai muito além do campo de jogo. Ele constrói laços, ensina valores, promove a saúde mental. E nós, como educadores e cuidadores, temos o compromisso de garantir que esses espaços sejam refúgios seguros e acolhedores, onde cada criança possa não apenas correr, saltar e jogar, mas também crescer emocionalmente, desenvolver sua autoestima e, acima de tudo, ser feliz.
Que o desporto, assim, seja mais do que uma competição. Que seja, acima de tudo, um caminho para a vida. E que neste caminho, cada criança seja reconhecida não como parte isolada, mas como ser em relação — porque é nos vínculos que se fortalecem as possibilidades de existir.
 

  

  





A Liderança In-Visível

Por Katia Bonfanti

 

 O que é uma liderança invisível?

Quando pensamos em liderança, é comum imaginarmos alguém no comando — uma figura central que orienta, toma decisões, organiza o caos. Mas, e se a liderança mais potente fosse justamente aquela que se dissolve, que aparece apenas quando precisa, e some quando o grupo já pode andar com as próprias pernas?

As metáforas e padrões na natureza nos surpreendem por trazer modos de funcionar tão fascinantes que nos ajudam a pensar sobre os sistemas humanos. E um dos exemplos mais fascinantes vem dos cupins.

Sim, os cupins.

Por trás de estruturas impressionantes como os cupinzeiros — com câmaras climatizadas, canais de ventilação e cultivo de fungos — não há um líder visível. As “ordens” estão implícitas no funcionamento. Isso acontece porque eles operam em sintonia com o ambiente, guiados por sinais sutis, como feromônios. Eles não comandam — percebem.

Nas equipes humanas de alta performance, há algo semelhante. Quando cada pessoa sabe o que precisa ser feito, sente confiança para agir, e reconhece o momento certo de intervir, a engrenagem coletiva gira com leveza. Não há movimento ligada a um cérebro apenas, portanto não há paralisia por dependência. O grupo avança como se respirasse junto.

Mas isso não surge por mágica. A autonomia precisa ser arquitetada e cultivada. Ela nasce num ambiente onde há espaço para errar, aprender e testar. Onde há clareza de propósito, segurança psicológica e relações baseadas na confiança. E é justamente aí que entra o papel do líder: criar esse tipo de ambiente.

Líderes que compreendem isso não têm medo de desaparecer. Eles sabem que o verdadeiro impacto da liderança está em torná-la dispensável para o que já foi construído. E essa é, talvez, a liderança mais forte que existe: aquela que forma pessoas capazes de liderar a si mesmas.

Mihaly Csikszentmihalyi chama isso de flow — o estado de presença plena, em que as pessoas estão tão imersas em suas tarefas que o desempenho atinge níveis extraordinários. Equipes em flow não esperam ordens: elas se movem como um corpo só.

Cupins não falam. Não fazem reuniões. Não precisam se alinhar por e-mail. Ainda assim, a cooperação é impecável. Que sabedoria extraordinária. Como conseguem?

Bem, eles respondem a sinais. Sentem o que o ambiente pede. E ajustam suas ações a cada nova exigência.

Isso também se vê em times maduros. A comunicação se torna quase invisível. Um gesto, um olhar, uma pausa já dizem muito. Há uma inteligência sutil em ação, que não depende do discurso, mas da percepção.

Essa é a verdadeira inteligência coletiva: quando o saber não está concentrado em uma pessoa só, mas distribuído pelo grupo, vivo nas relações, nas entrelinhas, nos silêncios. Difícil? Em parte, sim. Mas, se os cupins conseguem, para quem tem linguagem, como nós, torna-se desafio possível.

E o preparo do líder será fundamental

Um bom líder não está interessado em centralizar. Está interessado em libertar. Em formar pessoas tão boas no que fazem que, em algum momento, não precisem mais dele. E isso não é perder espaço — é expandir presença.

Liderar, nesse nível, é preparar o terreno e depois sair do caminho. Não para abandonar, mas para confiar. Para permitir que o grupo ganhe seu próprio ritmo, sua própria bússola.

E agora me diz: sua equipe pratica a liderança compartilhada?

 

 

 

 

 

 

Mas, e o medo de o líder desaparecer — e o apego ao controle?

Claro, nem todo líder está pronto para isso. Existe, muitas vezes de forma inconsciente, um medo de deixar de ser necessário. Um receio de que, ao incentivar a autonomia, ele perca sua posição, seu prestígio, seu "lugar no sistema".

Líderes mais autoritários tendem a formar equipes dependentes. Não por maldade, mas por insegurança. É o que a psicologia chama de apego inseguro: uma dinâmica em que o vínculo é baseado na necessidade de controle, na reafirmação constante do valor pessoal através da autoridade.

Nesses casos, o líder precisa estar em tudo, aprovar tudo, acompanhar tudo, bravejar, ameaçar... manter o centro em si, o tempo todo. E, sem perceber, enfraquece o próprio time. Porque uma equipe que não pode se mover sozinha, que não encontra seu próprio centro e ritmo, nunca amadurece.

Por outro lado, líderes com um estilo de apego seguro — mais bem resolvidos emocionalmente, mais confiantes internamente — não se sentem ameaçados pela autonomia do grupo. Pelo contrário: eles desejam isso. Eles querem ver o time fortalecido. Sabem que sua liderança será ainda mais presente quando não precisar estar visível, pois estará intrínseca nos elementos do grupo.

Essa é a liderança que permanece, mesmo quando não está. Porque não se apoia na autoridade, mas na influência. Não se afirmar pelo poder, mas pela confiança que inspira. Isso vem com o tempo, quando os grupos amadurecem, quando a hierarquia vai dando lugar à colaboração. As decisões são compartilhadas e a liderança deixa de ser um cargo e passa a ser uma função que qualquer um pode exercer, conforme a situação. Aquela premissa de assumir o lugar de autoria e colaboração.

É um pouco a cultura dos bandos – de pássaros, onde a liderança se torna algo fluido. Um conduz em um momento, outro conduz depois. Todos contribuem para puxar o bando e formar uma linha de voo. Se há um líder intrínseco? Provavelmente há. Mas ele esteve bem envolvido em definir a direção e a estratégia, permitindo ser o voo uma liderança compartilhada

E isso só é possível porque a liderança original — aquela que começou o processo — teve coragem de permitir a colaboração de cada um quando este um se sentiu inteiro para liderar. De confiar. De soltar o controle para dar lugar à autonomia.

No fim, liderar não é estar no centro. É ser semente. É deixar algo de si em cada pessoa, de tal forma que sua presença e direcionamento continue se manifestando e se reelaborando nas decisões do grupo. Ela se espalha como o cheiro invisível que guia os cupins: não está mais concentrada, mas distribuída. Não tem voz, mas move. Não tem dono, mas pulsa viva dentro do sistema.

A liderança que se dilui no grupo, não morre. Ela se transforma em instinto coletivo. Uma presença que permanece, mesmo quando já não é notada. Quando isso acontece, o estilo do líder virou a cultura da equipe — ela multiplica-se.

 

 

 

Feedback Sistêmico e a Liderança que Valoriza o Processo

 

Atualizado: 22 de abr.

Feedback Sistêmico e a Liderança que Valoriza o Processo




Katia Bonfanti

psicóloga sistêmica


O atleta de alto desempenho não nasce só no treino físico ou técnico — ele é construído também no ambiente emocional, nas relações e na cultura da equipe.


Recentemente, enquanto acompanhava o Ibercup, pude observar, tanto como mãe quanto como profissional, a forma como a liderança de equipes infantis e juvenis pode impactar diretamente no desenvolvimento emocional e relacional dos atletas.


Uma situação em particular chamou minha atenção: após uma série de resultados desfavoráveis, um líder de equipe infantil não restringiu sua comunicação ao resultado competitivo. Pelo contrário — valorizou com autenticidade os esforços individuais e coletivos, reconhecendo a entrega, a coesão e a resiliência do grupo, acolhendo a derrota como parte natural e necessária do processo de aprendizagem. Depois da eliminação, enviou uma mensagem acolhedora e motivadora a todos os atletas — e isso fez toda a diferença.


Essa postura da liderança revela uma compreensão importante: a performance de uma equipe juvenil, especialmente, não deve ser mensurada apenas pelo número de vitórias, mas também pela capacidade de fortalecer vínculos, lidar com a frustração, construir significados e sustentar a motivação a partir da experiência coletiva. Embora seja difícil, no processo de desenvolvimento humano e esportivo, as derrotas são etapas necessárias que fortalecem, ensinam e preparam para conquistas mais consistentes e conscientes.


Nesse cenário, vale também refletir sobre o papel de pais e familiares, que frequentemente, na intenção de apoiar, podem acabar projetando expectativas e exercendo pressão emocional sobre os jovens atletas. Essa pressão, muitas vezes inconsciente, tende a distorcer a vivência desportiva, colocando o resultado acima do aprendizado e afetando o prazer e a segurança emocional das crianças e adolescentes no ambiente competitivo.


O desporto juvenil precisa ser, antes de tudo, um espaço seguro de crescimento, onde as relações se sustentem no cuidado, no respeito ao tempo de amadurecimento de cada atleta e no fortalecimento das relações familiares como rede de apoio — e não como fonte adicional de cobrança.


Percebo nesse tipo de liderança e nessas situações uma oportunidade rica de reflexão sobre: Como o feedback pode ser estruturado para potencializar competências emocionais e relacionais? Que estratégias podem ser incorporadas para transformar momentos de insucesso em oportunidades de crescimento para o sistema-equipa? De que forma o ambiente desportivo pode funcionar como espaço de construção de resiliência, identidade e consciência coletiva, envolvendo de maneira saudável atletas, técnicos e familiares?


Esse tipo de abordagem revela o potencial do desporto como ferramenta de formação humana, onde as verdadeiras vitórias acontecem nos bastidores do resultado. Como costuma estar estampado nos espaços desportivos: o desporto começa na atitude. Parabéns aos líderes — Tiago, Alex e Vassalo — e aos familiares, que demonstram uma atitude coerente e produtiva para com os jovens atletas. E não nos esqueçamos: os pequenos de hoje serão os grandes de amanhã — no tamanho, no caráter e na performance.


 

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...