“Somos uma vila com muito gosto. Mas somos uma vila com uma Cidade.”
— Piteira Lopes, Presidente da Câmara Municipal de Cascais
18 de setembro de 2026

Como uma cidade se torna nossa

Há alguns poucos anos, mas não tão poucos que não possam contar como uma residência de longo prazo, moro em Cascais.

Os meses que antecederam a mudança foram cheios de expectativas recheadas de receio. Quem já deixou a sua terra, mesmo que seja dentro do mesmo país, sabe que, antes de chegarmos a um novo lugar, já inventámos alguma coisa sobre ele.

No meu caso, fui inventando enquanto pesquisava na internet.

Escolhi três lugares para pesquisar. Cascais foi o primeiro. Coloquei o nome na barra de pesquisa e a primeira página que apareceu foi a da Câmara de Cascais.

O que é isso?, pensei.

Quanta coisa tem em Cascais.

Uma vila linda, pintada pelo tempo como uma aquarela que ainda não terminou de secar.

É lá mesmo que quero morar.

Para tirar a dúvida, alugámos, à partida, um mês em Cascais e um mês noutra cidade. Queríamos experimentar, sentir os lugares, ter alguma segurança antes de escolher onde viver.

Ao fim dos dois meses, estava decidido: era mesmo Cascais.

Na segunda semana como residente, fui à Loja do Cidadão e, por acaso, ao sair, li, bem em frente à porta:

Cidade das Profissões.

Achei aquele nome um mundo.

Eu, que acompanho percursos profissionais, entraria numa Cidade das Profissões?

Saí de lá com a sensação de que Cascais guardava pequenas cidades dentro da Vila. E que viver na Vila seria também descobrir, aos poucos, algumas delas.

Foi naquele dia, quando me sentei para saber afinal o que era aquela Cidade, que conheci a Carolina Crispim. Na altura, estava no atendimento e foi ela quem me contou sobre o projeto. Hoje, é chefe da Divisão de Empregabilidade.

Aquela Cidade que eu tinha encontrado quase por acaso tinha uma história que vinha de longe. A ideia das Cités des métiers nasceu em Paris, em 1993, e foi atravessando fronteiras até chegar a diferentes países europeus. Cascais entrou nessa história em 2019.

Eu começava a sentir na pele, naquele momento, que as cidades também se fazem assim: de lugares que encontramos por acaso, de pessoas que nos recebem e de percursos que continuam a fazer-se no tempo.

Eu, entretanto, já tinha entrado pela porta da frente.

Meses depois, estava integrada na Cidade das Profissões como utente de consultorias e formações e como dinamizadora de workshops de escrita e poesia no Atelier do Bem-Estar.

Há qualquer coisa de bonito nisso: as pessoas também fazem percursos dentro da Cidade.

Não apenas com paredes, serviços, salas, agendas e atividades, mas com pessoas que chegam, procuram, perguntam, participam, partilham alguma coisa e, de alguma maneira, deixam também um pouco de si.

O intercâmbio cultural e a energia das pessoas que fazem a Cidade acontecer são, para mim, um dos seus grandes diferenciais.

Por vezes parece-me muito frenética. Talvez pudesse ser mais experienciada com calma. Mas a Cidade tem mesmo pinta de cidade grande: ágil, múltipla, diversa. E tantas outras características eu poderia empregar à Cidade, que é minha também.

De tanto gostar — e é sempre bom pensar no que pedimos aos nossos santos das coisas impossíveis —, acabei por trabalhar na Cidade.

Sortuda fui eu: há menos de quatro anos resido em Cascais e, na sexta-feira, 18 de setembro, estive como colaboradora a comemorar o sétimo aniversário da Cidade das Profissões.

Às vezes penso no acaso dessa história.

Primeiro, procurei uma cidade onde morar.

Depois, encontrei sentido dentro dela.

E, sem perceber muito bem quando aconteceu, passei de alguém que chegava a alguém que fazia parte.

Não apenas porque passamos a morar nela, sabemos os caminhos, reconhecemos as ruas ou já sabemos onde tomar um café. Um lugar torna-se nosso quando encontramos nele um espaço onde alguma coisa de nós pode acontecer.

Um trabalho.

Uma conversa.

Um projeto.

Uma pessoa.

Uma pergunta.

Um poema.

Uma possibilidade.

E encontrei, no meio da Vila, uma Cidade onde também pude trabalhar, criar, escrever, encontrar pessoas e continuar a pensar sobre os percursos profissionais — os dos outros e, inevitavelmente, os meus.

Uma cidade torna-se nossa justamente quando já não conseguimos dizer exatamente em que momento deixámos apenas de passar por ela.

É a cidade que começa a inventar-nos.

Katia Bonfanti
Psicóloga e escritora

 

Luisinha

 



Luisinha

Quando as Festas do Mar vêm fechando o verão, ainda vemos os sinais dele por todo o lado. Mas o que chega mais presente são os aromas da uva.

Cheguei ao Mercado da Vila e fui andando pelas bancas de frutas. É sempre ali que primeiro percebo a mudança.

Os idiomas se cruzam entre as bancas. O calor ainda está presente. Há o movimento de quem pega, paga, leva. Vozes que se sobrepõem, sacos que se enchem, frutas que mudam de mãos.

E eu olho para as cores.

A paleta das bancas começa a mudar. Algumas cores ainda resistem ao verão; outras chegam mais densas, mais terrosas.

Estamos à porta da última vindima no Mosteiro de Santa Maria do Mar. E tudo isso vai nos preparando, devagar, para o que vem depois.

A 25 de Abril já começa a ganhar outros tons. Os plátanos ainda guardam as folhas, mas algumas já apontam, discretamente, para onde caminham os dias.

Os figos surgem primeiro verdes. Depois, bem ao fim, chegam os grandes e avermelhados — e já sabemos que serão os últimos.

Depois, para encontrarmos o pingo de mel, só mesmo no banco do Sr. Joaquim.

No Mercado da Vila pode-se viver um pouco de tudo, até nostalgia. E, para isso, as uvas são especialistas.

Caixas de uvas brancas, verdes, pretas, graúdas, miúdas... uvas, uvas.

Uvas viram passas e nós seguimos a beber o nosso café em diferentes temperaturas. Hoje, ainda encalorados; logo estaremos envolvidos em cashmere e capas de chuva, e o café vai ganhando o sabor dos tempos. O de hoje só tem sabor a agora.

Observo: a infância não quer saber disso.

A Luisinha, aos dois anos e meio, surge na minha mesa tomando seu sumo de frutas da estação, como se o verão não tivesse fim. Comer a empada, nem tanto. Mas os sumos sabem bem.

Consegue mobilizar muitos olhares e muitos braços para o seu pequeno-almoço. Entre goles e “trincadas”, fez sua refeição, enquanto o pai e o tio se revezavam para servi-la.

Sem saber, iam imprimindo nela os sabores daquela estação.

Por fim, entregou-se ao pastel de abóbora e queijo de cabra da Serra da Estrela.

A Barsha voltou ao café depois do nascimento do Miguel. Passou um ciclo longe, floresceu por lá e voltou mãe, com um sorriso ainda maior. Ciclos dentro de ciclos.

E eu, depois de andar por entre frutas, vozes e o tempo, acabo sempre na mesa azul, tomando um café e tecendo palavras.

Somos sempre outros a olhar novas vindimas.

E as uvas nunca me abandonam — às vezes chegam até com as picadas das abelhas.

Kátia Bonfanti



   Imagens: Diamantino Gonçalves, 

   fotógrafo e poeta

   Serra da Gardunha, Fundão, Portugal


Maria da Gardunha

Katia Bonfanti

Dizem-lhe Paixão — mas talvez seja apenas o nome que os homens inventaram para aquilo que não conseguem compreender.

E há quem, nas aldeias mais próximas, a chame Maria.

Como se sempre tivesse sido mulher antes de ser pedra.

Há quem suba a serra não para a ver, mas para lhe falar.

Os andarilhos, os pastores e os que se perdem de propósito devolvem-lhe segredos. Não esperam resposta. Sabem apenas que ali, diante dela, as palavras deixam de pesar.

Dizem-lhe o que não diriam a ninguém.

E quando descem, levam consigo a sensação de que algo ficou — não perdido, mas guardado no ventre da terra, como palha ou grão à espera dos anos.

Ela gosta de ser fotografada.

Não por vaidade, mas porque compreendeu que a fotografia é outra forma do tempo.

Nenhuma imagem a esgota.

A luz recria-a.

A sombra reinventa-a.

E quem regressa nunca encontra exatamente a mesma pedra.

A pedra move-se na luz.

Transforma-se no olhar.

Respira através das estações.

Dissolve-se ao vento.

Não nasceu de ventre, nem das mãos de nenhum deus. Foi lentamente escrita pela terra. Veio da paciência do granito e dos xistos da Gardunha, moldados ao longo de eras imensas, quando os continentes ainda se desconheciam entre si.

Carrega sobre a cabeça duas sacas de sementes.

Não se sabe quem lhas entregou.

Talvez as tenha recolhido do próprio tempo.

Talvez as tenha encontrado dispersas antes mesmo de existirem campos.

Ali repousam, silenciosas, como se guardassem todas as colheitas futuras, todas as árvores ainda por nascer e todas as palavras que os homens ainda não disseram.

Houve quem soubesse lê-las.

Sobre as sementes pousa uma borboleta.

A pedra e a borboleta partilham o mesmo silêncio.

Uma conhece a duração dos milénios; a outra, a brevidade dos dias.

A leveza protege a eternidade. A eternidade ampara a leveza.

A pedra sustenta.

Olha os vales, as linhas distantes das serras, a lenta passagem das nuvens, a chegada do inverno e o regresso da luz.

O horizonte tornou-se a sua morada.

Há muito deixou de esperar.

Aprendeu a conter o tempo.

Mas aquilo que a distingue não é apenas a permanência.

É a estranha intimidade que estabelece com quem a encontra.

Uma rocha opaca, cinza-musgo, que ilumina a Gardunha e assegura os próximos milénios.

Uma esfinge.

Maria Paixão Anunciação.

O confessionário da montanha.

Uma rocha.

Há pedras que atravessam os séculos. Outras atravessam as pessoas.

 




 




Homenagem póstuma ao Poeta e fotógrafo Diamantino Gonçalves que viu a Serra da Gardunha como 

"...um palco eterno para uma peça cósmica, onde os atores são as próprias rochas que, em silêncio, declamam versos de uma poesia imortal. Cada amanhecer e anoitecer são capítulos de um conto que se desenrola. 

A poesia da Serra da Gardunha é uma linguagem que trascende as fronteiras do comum. É uma conversa que não se aprisiona nos limites de um diálogo humano, mas que se estende para além do que os olhos podem ver". 

Diamantino Gonçalves, 13 de Dezembro de 2023.

A primavera da Vila






Há flores em Cascais.

Mas não surgem como decoração. Nem parecem acidente de primavera.
Há nelas qualquer coisa de estrutural, como se a Vila tivesse aprendido a respirar assim: entre cores, sal e flores abertas diante do mar.

Estão na baía, nos jardins, nos canteiros alinhados ao longo das ruas. Pendem diante da Câmara, atravessam os muros brancos, avançam sobre as esquinas. Antes mesmo de se ver a paisagem, já elas chegaram ao olhar.

E depois permanecem.

Fixam-se nas retinas de quem passa, nos reflexos das montras, nas fotografias tiradas sem grande intenção. Há flores que parecem acompanhar quem parte, como se Cascais tivesse encontrado uma maneira infalível de continuar dentro das pessoas.

A cidade muda sem parecer que muda.

Os jardins mantêm-se impecáveis. As cores sucedem-se com uma naturalidade quase improvável. Tudo parece ter estado sempre ali. Mas alguém cuida. Alguém replanta. Alguém regressa cedo, poda, limpa, rega, substitui o que o tempo levou.

E esse gesto raramente aparece.

Foi nesse intervalo — entre o que se vê e quem torna possível que se veja — que encontrei a CERCICA.

Não como explicação.
Como presença.

Um lugar onde as flores deixam de ser metáfora.
São mãos na terra. Vasos alinhados ainda húmidos. Tesouras de poda esquecidas sobre uma bancada. Carrinhos atravessando o pátio. Terra acumulada nas unhas. O quotidiano a florir diante dos olhos.

Ali, palavras como inclusão, formação, competência ou autonomia não aparecem como discurso. Aparecem incorporadas nos gestos. Na forma como cada pessoa ocupa o espaço, trabalha a terra, prepara uma muda, transporta um vaso, observa o tempo das plantas.

Só mais tarde percebi: muitas das flores espalhadas pela Vila começavam ali.

Nos viveiros.

Nas estufas.

Nas mãos de pessoas habituadas a que o mundo lhes perguntasse primeiro pelo limite, antes de reconhecer o feito.

E, no entanto, nada ali pedia contemplação ou piedade.
Havia técnica. Ritmo. Atenção à poda certa, à água necessária, ao replantio paciente das estações.

As flores que sustentam a imagem de Cascais passam primeiro por aquelas mãos.

Talvez por isso permaneçam diferentes.

Não pela espécie.
Pelo cuidado.

Estar ali é uma forma de surgir.

Fui conhecer os bastidores a convite de uma das flores — Rosa. Talvez a mais resistente entre elas, ou apenas aquela que aprendeu a permanecer. Cristina conhecia os caminhos. E, juntas, fomos atravessando o lugar devagar.

As alfazemas respiravam calor.
Os chás aguardavam poda.
Os marmeleiros apareciam reduzidos em formas inesperadas.
E um gato governava o quintal com a serenidade de quem nunca duvidou pertencer ali.

O percurso fez-se lentamente.

Primeiro os corredores. Depois salas abertas para pátios interiores, portas entreabertas, vidraças circulares por onde a luz entrava inteira. Nada parecia terminar completamente. O dentro respirava para o fora.

Os azulejos contavam fragmentos de vidas.
Havia água. Sol. Terra. Gente.

E entre tudo isso, presenças que sustentavam o espaço sem necessidade de anunciar-se: jardineiros, técnicos, parceiros, uma labradora atravessando relações com uma calma capaz de alterar o ritmo das conversas.

Ali, ninguém parecia apenas ocupar espaço.

Cada gesto transformava qualquer coisa: uma muda plantada, uma planta recuperada do excesso de sol, um novo plantio planeado, uma conversa breve junto aos canteiros da horta.

Nada era acessório.

As plantas escapavam aos limites do jardim.

Logo imaginei-as, à noite, descendo até à Vila como pequenos pirilampos terrestres.

As ameixeiras mantinham-se vigilantes. As romãzeiras abriam flores espessas. Havia amoreiras, capins altos, frutos amarelos amadurecendo discretamente entre folhas.

E as magnólias.

Vívidas.
Breves.
Desnecessárias de explicação.

Caíam no chão como quem compreende que beleza também é desaparecer.

Foi então que percebi que aquilo nunca tinha sido apenas sobre flores.

Era sobre a delicadeza invisível que sustenta um lugar.
Sobre o trabalho silencioso que permite à beleza continuar acontecendo sem menção.
Sobre pessoas que fazem existir o que, muitas vezes, a cidade apenas contempla sem perceber.

E entendi, sem procurar entender:

a primavera em Cascais não é estação.

É um lugar no Livramento.

Um gesto partilhado entre o que cresce e o que cuida. Entre o que floresce e o que permanece.

Um lugar de flores e gente.

Onde mesmo quem atravessa distraído a Vila leva qualquer coisa consigo.

Um cheiro.
Uma cor.
Uma petúnia excessivamente roxa...

E sem saber,

primavera-se.




   Uma amostra das floradas que permanecem..., pois as que descem à Vila, todos conhecem!

 


















Cartografia de um Mundo de Cegonhas

 


Cartografia de um Mundo de Cegonhas
Katia Bonfanti

Há lugares que não cabem apenas na memória — ficam no olhar, como se se recusassem a sair dele. O Algarve é um desses lugares. Não apenas pela luz que parece sempre ligeiramente mais dourada, nem pelo mar turquesa a ponto de estremecer a vista, mas por uma presença que é parte viva e concreta da paisagem: as cegonhas.

A cegonha-branca Ciconia ciconia ergue-se onde não era suposto haver vida. Torres, chaminés antigas, postes e instalações de eletricidade. Estruturas pensadas para o humano, reinventadas pelo voo. Há algo de audacioso nesse gesto: transformar os perigos em casas suspensas.

No Algarve, em alguns pontos, levantar os olhos é quase um reflexo. E surpreender-se ao encontrar ali um ninho — desmedido, feito de ramos, vento e tempo. Uma arquitetura improvisada que se tornou permanente. Pequenas cidades suspensas sobre o nosso quotidiano. Miradouros perfeitos sobre o nosso barulho, a nossa pressa e a nossa falta de contemplação.

Na infância, acreditava-se sem hesitação: a cegonha era explicação suficiente para tudo o que ainda não se compreendia. Eu acreditava que tinha sido trazida no bico até ao colo da minha mãe. E que dois anos depois voltaria, fiel a um calendário invisível, para repetir o gesto e trazer o meu irmão no dia do meu aniversário. Fui agraciada pela cegonha.

Havia nessa crença uma ordem perfeita do mundo. E, na minha vida infantil, a cegonha era um ser que habitava a imaginação e o sonho de um dia flagrar a sua chegada. Escutava a saracura e imaginava que a cegonha pudesse ter um canto assim, para anunciar que a entrega estava a chegar, mas não. Embora olhasse o céu com frequência, nunca as vi naquele Sul do Brasil.

O tempo não destruiu a imagem deste ser extraordinário. Apenas a deslocou.

Hoje, observo-as de outro lugar e com olhos poéticos. Vejo-as não como mito, mas como comunidade. E isso é o mais surpreendente.

Vejo-as aproximarem-se, ocuparem o espaço umas das outras, partilharem o ar sem pressa nem ruído. Há uma forma de convivência ali que transcende os ninhos — uma espécie de comunhão.

Há quem diga que são silenciosas. E talvez sejam. Não cantam como os pássaros que habitam os nossos imaginários de primavera. Mas falam.

Não com voz — mas com o choque seco do bico, um “clac-clac” que atravessa o ar como uma linguagem anterior às palavras. Um som breve, quase duro, e ainda assim cheio de graça e afirmação.

E é estranho como esse mínimo ruído basta para preencher o espaço inteiro onde elas vivem.

No alto, nos ninhos feitos de ramos esfiapados mas densos, o movimento nunca cessa por completo. Um corpo fica, outro parte, outro regressa. E ainda assim, tudo parece suspenso num equilíbrio natural, como se o mundo ali em cima soubesse compor os seus próprios tempos sem que alguém dissesse como.

Não sei se aprendemos com elas, ou se somos nós que lhes emprestamos sentido. Talvez nenhuma das duas coisas. Talvez apenas nos reconheçamos nesse gesto simples de permanecer — de estar, de voltar, de ocupar um lugar no alto do mundo como se ele nos pertencesse desde sempre.

O Algarve não seria o mesmo sem este voo constante sobre o quotidiano. Sem estas figuras que parecem pertencer tanto ao céu como à terra, sem escolher entre um e outro.

E talvez por isso, quando as vejo pousadas nas torres, penso que há coisas que nunca deixam de nos acompanhar. Apenas mudam de lugar dentro de nós.

Como se o nosso mundo continuasse a ser entregue — ainda — no bico de uma cegonha.

 




Das delicadezas do Mercado à vida em particular

Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

A tempestade tinha passado durante a noite.

De manhã restava apenas a chuva — fina, persistente, a penetrar o casaco da jovem Mafalda. O Mercado da Vila despertava devagar quando ela chegou. Estava determinada a encontrar um lugar para fazer mais uma experiência de trabalho. E conseguiu.

Por trinta dias Mafalda integrou o Café Salgados do Fundão. Para isso desafiou-se a andar no comboio e, depois, a fazer sozinha o caminho da estação de Cascais até ao Mercado.

Para muita gente é apenas uma rotina. Para Mafalda, é outra coisa: um gesto repetido de vontade. Uma pequena vitória que se mede no corpo, no passo, no olhar. Há dias em que o caminho é mais longo do que parece — e, mesmo assim, ela foi.

Mafalda tem 23 anos.

É pequena de estatura, graciosa no movimento. Caminha com passos curtos e seguros, como quem já aprendeu a medir o mundo à sua maneira. Os olhos — sempre muito vivos — observam com uma atenção tranquila. Quando escuta alguém, deixa as palavras pousarem primeiro dentro de si antes de responder. Tão natural e simples. Levando o tempo que o seu tempo exige, no singular.

O sorriso chega discreto. Mas sempre aparece e ilumina o rosto inteiro. Um rosto de traços redondos e lisos — como se a meninice ainda a acompanhasse pela vida afora.

Atrás do balcão, as mãos miúdas alinham as chávenas, medem o café, ajustam a moagem. Há um pequeno intervalo entre um gesto e outro, como se cada movimento precisasse antes ser revisitado até encontrar o seu lugar exato.

Não é lentidão.
É atenção.
É esforço.

Um dia, quando perguntei sobre o equipamento de fazer sumos, Mafalda disse-me com simplicidade:

— Eu não sei, mas aprendo.

Sim, ela aprende. E gosta de repetir o que aprende. Revela delicadeza, determinação e um envolvimento verdadeiro nas suas tarefas.

Talvez porque Mafalda saiba, desde cedo, que as oportunidades não se distribuem da mesma forma para todas as pessoas. Para ela, os postos de trabalho são poucos. O mundo corre depressa demais para o seu compasso — e Mafalda acaba por pagar o preço dessa diferença.

— Muitos não têm olhos — respondeu-me, quando falávamos sobre o futuro.

Fiquei em silêncio.

Há frases que passam numa conversa e desaparecem. Outras permanecem. Esta ficou.

É um sentimento que atravessa muitas outras vidas. Em Mafalda, parece pousar silenciosamente nos pensamentos mais reservados.

Talvez seja também o reflexo de algo maior do que ela.

Uma engrenagem invisível que fomos construindo como sociedade, que distribui atenção de forma desigual. Seleciona. Classifica. Exclui. Reconhece alguns percursos com facilidade e deixa outros à margem do olhar coletivo.

Quando Mafalda disse aquilo, entendi o que queria dizer. Mas há algo que nunca saberei: o quanto pesa dentro dela essa percepção, e quanto de coragem é preciso reunir para continuar, mesmo quando o mundo parece distraído.

A invisibilidade é uma dor solitária.

E ainda assim, Mafalda continua.

Com sorte, nos Salgados do Fundão encontrou espaço. Os gestos foram ganhando segurança. Primeiro o café. Depois o balcão. Depois o atendimento. Um brilho novo no olhar.

Pedro encoraja-a a ter autonomia:

— Vá lá tirar um café, Mafalda.

Diz isso com tanta confiança e afeto que ela assume a máquina de expresso sem hesitar. Mira, sua colega, observa, espera e, quando Mafalda apresenta a chávena, sorri em aprovação.

São gestos pequenos.

Mas é assim que a aprendizagem e o pertencimento se firmam: alguém explica. Alguém olha nos olhos. Alguém acredita um pouco antes do outro.

Há quem saiba fazer espaço.
E quando alguém faz espaço, o mundo fica um pouco maior.

Às vezes escapam-nos as palavras certas. Isso acontece. Mas não podemos deixar de ver. De sentir a presença. De reconhecer a pessoa que está à frente.

Aprender precisa de tempo.
Precisa de espaço.
Precisa, sobretudo, de alguém que olhe com olhos cheios de vontade de ver.

Talvez seja isso que a inclusão realmente signifique.

Não apenas abrir uma porta.
Mas perceber que cada corpo tem o seu compasso.

Mafalda sabe que o caminho pode ser mais exigente para ela. Talvez por isso carregue essa determinação tranquila — quase teimosa — de quem decidiu não desaparecer.

Na quarta-feira foi o seu último dia de prática no café.

Comemorámos na mesa azul do Palavras e Azeitonas — mesa dos encontros, portal das narrativas, onde tantas histórias se revelam.

Mafalda preparou o meu café com amor.

Um amor que transborda do olhar.

Sabe que estou com ela. E que algumas portas, mesmo quando parecem fechadas, ainda podem ser atravessadas juntas.

Trabalho é, talvez, a palavra mais preciosa que Mafalda conhece.

Logo depois de amor.

Mesmo quando o mundo parece distraído.
Mesmo quando a chuva continua a cair.
Mesmo quando, por vezes, parece que não há olhos.

Porque, no fundo, Mafalda não pede muito.

Apenas aquilo que deveria ser de todos:

um lugar no mundo do trabalho.



Vencer, às vezes, começa em confiar





  
Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26
Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé
Abi, Maria do Mar, Mia, Gabi e Teresa.


Vencer, às vezes, começa em confiar

O passo seguinte é celebrar

 Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e  escritora

Há uma equipa de meninas adolescentes que, em setembro, vivia um momento de reinício de época. Algumas chegavam com feridas ainda muito vivas de um percurso anterior duro e desqualificador. Reuniram-se em quadra cheias de medo — medo real de que tudo se repetisse, de que o esforço voltasse a doer mais do que ensinar.

As que as receberam estavam de coração aberto, mas também sem certezas. A nova temporada era um território desconhecido para todas. Era preciso reconstruir amizades, reencontrar propósitos e, sobretudo, confiar que haveria uma figura técnica capaz de conduzir o processo com sabedoria, competência e respeito, rumo ao próximo campeonato.

Chegou o dia de iniciar e conhecer o novo treinador: o Nuno Luís.

Os receios não desapareceram de imediato. Tentavam ressurgir dentro de cada atleta, cada uma com as suas histórias e marcas. Houve quem não conseguisse entrar em quadra. O corpo lembrava o que a mente ainda tentava esquecer. Permanecer na bancada, naquele momento, foi a forma possível de participar. Foi também a forma de perceber, aos poucos, que nenhuma experiência é igual e que recomeçar pode não doer da mesma maneira.

Ainda no primeiro treino já se via algo diferente nos rostos: uma certa leveza. Com leitura atenta do que se passava, o guia foi conduzindo a marcha, aproximando-se de cada uma, sem pressa. A tranquilidade instalada em quadra trouxe analgesia à atleta da bancada. O corpo começou a confiar antes mesmo das palavras.

No fim do treino, estavam todas reunidas em volta do treinador. Nos olhos, via-se a expectativa de uma temporada nutrida com o que há de mais sagrado: a alegria de fazer bem aquilo a que se propõem.

Treino após treino, a equipa foi-se entregando à proposta de procedimentos técnicos, éticos e humanos apresentada pelo Nuno. Ele tornou-se um guia como deve ser — não apenas um profissional a cumprir uma função, mas alguém seguro, firme e atento, que sabia exigir sem ferir, corrigir sem desqualificar, orientar sem perder a humanidade. Um verdadeiro propulsor de aprendizagens daquelas que, por serem profundas, seguem para a vida.

Sabemos hoje que o que verdadeiramente transforma não é a quantidade de estímulos, mas a qualidade das relações que se constroem. É nelas que nasce a segurança, a confiança e a disponibilidade para aprender.

A temporada foi curta, mas rendeu muitas vitórias. Especialmente no apaziguamento de feridas antigas. Muitas atletas aprenderam que há formas de vencer campeonatos que não passam por intervenções agressivas ou violentas. Que é possível conduzir uma equipa pelas linhas da educação positiva e sustentável das relações. Que se pode vencer jogos com técnica e estratégia sem ferir a autoestima. Que comunicar de forma clara e eficaz não exige desqualificação.

Aprenderam também que entrega, pontualidade, assiduidade e a coragem de repetir quantas vezes forem necessárias uma técnica fazem parte das ações que constroem competências reais.

Chegámos ao fim da primeira parte da temporada. Com tristeza, despedimo-nos do grande mentor. A interrupção foi inesperada e sentida. Um golpe. Mas, como tudo o que foi vivido até aqui ensinou, o que importa não é apenas o tempo que algo dura, mas o quanto nos transforma. Estabelecer novos vínculos também é preciso para crescer...

Não há dúvida de que este breve percurso permanecerá no coração de cada uma como um ponto de virada — um lugar interno de confiança nos processos e no humano que conduz a técnica.

Assim se formou um grupo cheio de valências e competências. Antes, meninas a reagrupar-se, a conhecer-se, a fortalecer-se na experiência partilhada. Agora, uma equipa competitiva, coesa e cheia de vontade de ser ainda maior.

As Juvenis do Estoril Prai Volei tornaram-se vencedoras não apenas de jogos, mas de um processo. Um processo que ensinou a confiar, a insistir, a aprender sem medo e a crescer num ambiente onde a exigência caminhou lado a lado com o respeito.

E quando se aprende assim, algo muda para sempre.


Não se volta ao ponto de partida.  Vamos celebrar esta etapa bem vivida! 

Parabéns às Campeãs Regionais.

Nossos agradecimentos ao Nuno por toda a sua dedicação e humanidade para com as nossas atletas.

 



Todos os sonhos dentro de um abraço



                                             Comemorar e despedir-se...um misto de emoções 



Créditos: Alice Matos e Ana Guimarães






 

    “Somos uma vila com muito gosto. Mas somos uma vila com uma Cidade.” — Piteira Lopes , Presidente da Câmara Municipal de Cascais 18 ...