fotógrafo e poeta
Serra da Gardunha, Fundão, Portugal
Maria da Gardunha
Katia bonfanti
Dizem-lhe Paixão — mas talvez seja apenas o nome que os
homens inventaram para aquilo que não conseguem compreender.
E há quem, nas aldeias mais próximas, a chame Maria.
Como se fosse uma de nós. Como se sempre tivesse pertencido
ao mundo dos vivos e não ao tempo das pedras.
Há quem suba a serra não para a ver, mas para lhe falar.
Os andarilhos, os pastores e os que se perdem de propósito deixam-lhe segredos
como quem os devolve à terra. Não esperam resposta. Sabem apenas que ali,
diante dela, as palavras deixam de pesar.
Dizem-lhe o que não diriam a ninguém.
E quando descem, levam consigo a sensação de que algo ficou — não perdido, mas
guardado no ventre da terra, como palha ou grão à espera dos anos.
Ela gosta de ser fotografada.
Não por vaidade, mas porque compreendeu que a fotografia é outra forma do
tempo. Cada imagem lhe oferece um rosto diferente: camponesa, rainha, santa, jovem virada para o futuro, anciã que conhece todos os nomes da terra...
Nenhuma fotografia a esgota. Nenhuma a possui.
A luz da manhã torna-a leve. O entardecer dá-lhe gravidade.
A névoa dissolve-lhe os contornos. A sombra recria-a. Assim, de imagem em
imagem, continua a surpreender quem regressa para a ver.
A pedra- rocha, ao contrário do que se pensa, não é imóvel.
Move-se na luz.
Transforma-se no olhar.
Respira através das estações. Dissolve-se ao vento.
Não nascida de ventre, nem do gesto de nenhum deus. Nasceu
da pressão lenta do mundo, do movimento discreto das rochas e da transformação
quase cega da crosta terrestre do Fundão. Veio da paciência do granito e dos xistos
destas terras históricas do centro de Portugal, moldadas ao longo de eras
imensas, quando os continentes ainda se desconheciam entre si.
Carrega sobre a cabeça duas sacas de sementes. Não se sabe
quem lhas entregou. Talvez as tenha recolhido do próprio tempo, talvez as tenha
encontrado dispersas antes mesmo de existirem campos. Ali repousam,
silenciosas, como se guardassem todas as colheitas futuras, todas as árvores
ainda por nascer e todas as palavras que os homens ainda não disseram, mas Diamantino as soube ler.
Sobre as sementes pousa uma borboleta.
A pedra e a borboleta partilham o mesmo silêncio. Uma
conhece a duração dos milénios; a outra, a brevidade dos dias. Entre ambas, um
pacto: a leveza protege a eternidade e a eternidade ampara a leveza.
A pedra sustenta.
Olha os vales, as linhas distantes das serras, a lenta passagem das nuvens, a
chegada do inverno e o regresso da luz. O horizonte tornou-se a sua morada. Há
muito deixou de esperar; aprendeu antes a conter tudo.
Mas aquilo que a distingue não é apenas a sua permanência. É
a estranha intimidade que estabelece com quem a encontra.
Uma rocha opaca, cinza-musgo, que ilumina a Gardunha e assegura os próximos milénios.
Uma esfinge, Maria Paixão Anunciação, o “confessionário da montanha” — uma rocha.
E há rochas que são apenas rochas, na Serra da Gardunha.
E há outras que se tornam mulheres para que os milhões de anos deixem memórias.
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