Gentileza – In Memoriam
Entra como se fosse luz líquida.
Alisa os vincos das cortinas,
desata nós invisíveis no ar.
Seu toque não pesa: é vento que organiza a poeira,
mãos que redesenham o caos sem quebrar nada.
Ensina que a pedra se curva diante da água,
que o grito se dissolve quando encontra o colo,
que o cuidado é raiz subterrânea,
capaz de sustentar até os dias que desabam.
Vestida de gentileza, Ju
dava seu sorriso largo,
daqueles de espantar tristeza...
e perguntava por todos,
como quem desejava, de verdade,
que a vida estivesse em paz em cada coração.
Ju passava rápida, como quem carregava pressa nos passos,
mas nos olhos havia sempre repouso,
um brilho de mar, sereno e profundo.
Era assim: movimento e sossego no mesmo instante,
como vento que corre a balançar as margaridas do canteiro.
Parte de repente, mas não parte do todo:
Fica nos gestos, na palavra de carinho, no ligeiro piscar dos olhos-mar.
Desde que ela se foi, penso no
“habitar o coração” –
a casa onde memórias, cuidado e ternura encontram abrigo.
Alegrava-se em pensar que — em qualquer lugar — habitamos um
lar dentro de nós
um espaço sagrado onde a gentileza e o amor
permanecerão eternamente vivos.
É lá agora sua morada:
não há paredes, nem riscos, nem distâncias.
Apenas recordações.
Katia Bonfanti
Para Juliane Zimmermann Tamanini, querida, sempre em nossos corações, onde quer que esteja.
