Das delicadezas do Mercado à vida em particular
A tempestade tinha passado durante a noite.
De manhã restava apenas a chuva — fina, persistente, a penetrar o casaco da jovem Mafalda. O Mercado da Vila despertava devagar quando ela chegou. Estava determinada a encontrar um lugar para fazer mais uma experiência de trabalho. E conseguiu.
Por trinta dias Mafalda integrou o Café Salgados do Fundão. Para isso desafiou-se a andar no comboio e, depois, a fazer sozinha o caminho da estação de Cascais até ao Mercado.
Para muita gente é apenas uma rotina. Para Mafalda, é outra coisa: um gesto repetido de vontade. Uma pequena vitória que se mede no corpo, no passo, no olhar. Há dias em que o caminho é mais longo do que parece — e, mesmo assim, ela foi.
Mafalda tem 23 anos.
É pequena de estatura, graciosa no movimento. Caminha com passos curtos e seguros, como quem já aprendeu a medir o mundo à sua maneira. Os olhos — sempre muito vivos — observam com uma atenção tranquila. Quando escuta alguém, deixa as palavras pousarem primeiro dentro de si antes de responder. Tão natural e simples. Levando o tempo que o seu tempo exige, no singular.
O sorriso chega discreto. Mas sempre aparece e ilumina o rosto inteiro. Um rosto de traços redondos e lisos — como se a meninice ainda a acompanhasse pela vida afora.
Atrás do balcão, as mãos miúdas alinham as chávenas, medem o café, ajustam a moagem. Há um pequeno intervalo entre um gesto e outro, como se cada movimento precisasse antes ser revisitado até encontrar o seu lugar exato.
Não é lentidão.
É atenção.
É esforço.
Um dia, quando perguntei sobre o equipamento de fazer sumos, Mafalda disse-me com simplicidade:
— Eu não sei, mas aprendo.
Sim, ela aprende. E gosta de repetir o que aprende. Revela delicadeza, determinação e um envolvimento verdadeiro nas suas tarefas.
Talvez porque Mafalda saiba, desde cedo, que as oportunidades não se distribuem da mesma forma para todas as pessoas. Para ela, os postos de trabalho são poucos. O mundo corre depressa demais para o seu compasso — e Mafalda acaba por pagar o preço dessa diferença.
— Muitos não têm olhos — respondeu-me, quando falávamos sobre o futuro.
Fiquei em silêncio.
Há frases que passam numa conversa e desaparecem. Outras permanecem. Esta ficou.
É um sentimento que atravessa muitas outras vidas. Em Mafalda, parece pousar silenciosamente nos pensamentos mais reservados.
Talvez seja também o reflexo de algo maior do que ela.
Uma engrenagem invisível que fomos construindo como sociedade, que distribui atenção de forma desigual. Seleciona. Classifica. Exclui. Reconhece alguns percursos com facilidade e deixa outros à margem do olhar coletivo.
Quando Mafalda disse aquilo, entendi o que queria dizer. Mas há algo que nunca saberei: o quanto pesa dentro dela essa percepção, e quanto de coragem é preciso reunir para continuar, mesmo quando o mundo parece distraído.
A invisibilidade é uma dor solitária.
E ainda assim, Mafalda continua.
Com sorte, nos Salgados do Fundão encontrou espaço. Os gestos foram ganhando segurança. Primeiro o café. Depois o balcão. Depois o atendimento. Um brilho novo no olhar.
Pedro encoraja-a a ter autonomia:
— Vá lá tirar um café, Mafalda.
Diz isso com tanta confiança e afeto que ela assume a máquina de expresso sem hesitar. Mira, sua colega, observa, espera e, quando Mafalda apresenta a chávena, sorri em aprovação.
São gestos pequenos.
Mas é assim que a aprendizagem e o pertencimento se firmam: alguém explica. Alguém olha nos olhos. Alguém acredita um pouco antes do outro.
Há quem saiba fazer espaço.
E quando alguém faz espaço, o mundo fica um pouco maior.
Às vezes escapam-nos as palavras certas. Isso acontece. Mas não podemos deixar de ver. De sentir a presença. De reconhecer a pessoa que está à frente.
Aprender precisa de tempo.
Precisa de espaço.
Precisa, sobretudo, de alguém que olhe com olhos cheios de vontade de ver.
Talvez seja isso que a inclusão realmente signifique.
Não apenas abrir uma porta.
Mas perceber que cada corpo tem o seu compasso.
Mafalda sabe que o caminho pode ser mais exigente para ela. Talvez por isso carregue essa determinação tranquila — quase teimosa — de quem decidiu não desaparecer.
Na quarta-feira foi o seu último dia de prática no café.
Comemorámos na mesa azul do Palavras e Azeitonas — mesa dos encontros, portal das narrativas, onde tantas histórias se revelam.
Mafalda preparou o meu café com amor.
Um amor que transborda do olhar.
Sabe que estou com ela. E que algumas portas, mesmo quando parecem fechadas, ainda podem ser atravessadas juntas.
Trabalho é, talvez, a palavra mais preciosa que Mafalda conhece.
Logo depois de amor.
Mesmo quando o mundo parece distraído.
Mesmo quando a chuva continua a cair.
Mesmo quando, por vezes, parece que não há olhos.
Porque, no fundo, Mafalda não pede muito.
Apenas aquilo que deveria ser de todos:
um lugar no mundo do trabalho.

