O Set Invisível — Episódio 1
Por: Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica
Histórias de atletas, treinadores, equipas e famílias que aprendem a co-regular-se e crescer juntos dentro e fora do desporto.
Isa e a travessia do Tejo
No comboio entre Lisboa e Cascais, encontrei a Isa. Uma aprendiz de Voleibol, que viaja quase todos os dias para treinar.
16 anos, mochila grande, sorriso luminoso — daqueles que iluminam o corredor do vagão. Sentou-se ao meu lado e com alegria narrou suas travessias.
Todos os dias ela "transpõe" o Tejo:
autocarro → barco → comboio → autocarro.
Duas horas até chegar ao treino.
Jogou quatro anos em um clube na suas região, onde aprendeu muito do que sabe.
Isa tem convicção de que novos desafios impõem crescimento, decidiu buscar um novo clube. Poderia ter escolhido um clube mais perto.
Mas não.
Escolheu o Estoril Praia Voleibol. Horas de distância da sua casa.
Escolheu sair da zona de conforto porque algo lhe diz que isso a fará crescer.
Estudante, Isa traz consigo os manuais e TPCs para fazer enquanto se desloca — Acostumei-me. Disse sorrindo.
Valorizar todas as horas, saber se organizar no tempo e nas tarefas, mesmo quando está nos transportes a faz crescer. Gestão de tempo e desenvolvimento de atitude frente a vida também é uma competência desenvolvida pelo desporto. Isa já percebeu que não basta jogar bem, precisa dedicar-se às demais dimensões da vida com empenho. Nenhum sucesso vem por acaso.
Viajar é seu plano, mas ter êxito na vida escolar também faz parte do plano. Ajudar nas tarefas da casa e dar atenção a família também fazem parte da sua carreira. Uma carreira tem muitas fazes e Isa está atenta. É ao mesmo tempo analista e trabalhadora nos pilares do seu futuro. Não que seja fácil, nem que isso não lhe custe horas de sono, momentos em família, diversões que talvez gostasse de ir...mas o desporto é caminho, e é a partir dele que se organiza.
No início da época, fez um acordo consigo mesma:
“Se eu for, vou inteira.”
O treino dela começa antes de tocar na bola
Quando ela pega a mochila, fecha a porta de casa, e confirma, de novo, a decisão — mesmo cansada, mesmo quando o dia pesa. Sim. Há dias que tudo fica mais difícil e se chover "canivetes", Isa fica em apuros. Tem vontade de sair mas receio de nào conseguir chegar à tempo.
Há dias em que o corpo não acompanha a vontade.
O serviço não entra.
O ataque sai torto.
O silêncio entre um erro e o próximo parece enorme.
E é ali — entre o erro e a próxima tentativa — que Isa entende quem está a formar-se. Porque o aprendizado com excelência, muitas vezes, vem sustentado por uma lista de tentativas que não deram certo.
Ela sabe que melhorar depende de tentar. Então, respira. Ajusta o olhar.
Pergunta a si mesma: “O que posso fazer diferente agora?”
E tenta outra vez. Isso não é só persistência. É autorregulação.
O desporto nào é sobre nunca errar, pelo contrário. Evoluir passa por observar-se, ajustar-se, receber feedbacks e continuar.
Isa tem sonhos grandes à realizar e tem juventude para realiza-los. E o interessante de ter feito um dos percursos com a Isa foi perceber que ela entendeu algo maior — que muitos adultos ainda estão em busca de entender — que o esforço em fazer bem feito só pode ser dela, mas a coragem é construída com o outro. Está aberta a fazer parcerias a receber apoio de seus treinadores, de suas colegas de Clube e da vizinhança que estiver por perto. Um apoio encoraja e é sempre bem-vindo.
Claro que nada disso reduz o tempo nem a distância para chegar em no pavilhão. A força e a determinaçao precisam ser dela.
E em troca Isa ganha:
Clareza.
Coragem.
Consciência de quem está a tornar-se.
Então, todos os dias de treino, quando chega à estação de Cascais, Isa está prestes a iniciar um set que não aparece na ficha de jogo — o set do empenho e do compromisso.
Um set que não aparece no marcador.
É o Set Invisível — aquele que ela vence por dentro.
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