O Rito das Flores










 O Rito das Flores

Katia Bonfanti, psicóloga

Sou dessas pessoas que chegam devagar.
Antes de existir por completo no ambiente, observo. Depois comunico minha chegada.
No resto do tempo, acompanho o mundo com os olhos: esse modo silencioso de estar presente.

Naquele dia, vi um senhor sentado.
Diante dele, uma taça de sangria.
Ao lado, dois buquês de flores: um rosado, outro alaranjado.
O segundo, intenso e vibrante, era exatamente do meu gosto — embora ambos fossem lindos, dispostos com cuidado.
Nada parecia extraordinário, e talvez fosse isso o extraordinário: a naturalidade do gesto, o homem e as flores fazendo parte da cena como se sempre tivessem estado ali.

Ele havia chegado antes de mim ao Fundão — essa casa de café e salgados bem na praça do Mercado.
Estava ali, tranquilo, o copo à frente, como quem observa o movimento da manhã.
Eu apenas passei, cumpri meu ritual: um café rápido, algumas palavras com o Pedro, o dono, o costume de viver o espaço.

Quado me despedia, o homem se levantou.

Aproximou-se e, num inglês estrangeiro — acento de lugar nenhum e de todos — disse apenas:
“You deserve the flowers.”

E me estendeu o buquê alaranjado.
Aceitei.
Não por entender, mas por sentir que devia.

Atravessei a praça e depois a cidade com o buquê nos braços.
Nos olhos dos outros, os parabéns por alguma data qualquer.
Sorrisos, acenos, curiosidade.

Cada olhar inventava um motivo: flores para dizer estou aqui e fico feliz em ver-te.
Mas o verdadeiro motivo — se existia — só o homem sabia.

Ou talvez nem ele.

Imaginei depois que o senhor Cristian tem um ritual delicado, de uma bondade que lhe reduz os olhos.
Senta-se sempre no mesmo lugar, bebe devagar, observa o mundo passar.
Vai ao florista, escolhe uma a uma, monta o arranjo com paciência.
Depois, espera o instante — um olhar, um gesto, um acaso — e oferece.
Sem explicação.
Apenas porque algo, nele, reconhece algo no outro. 

Uma espécie de “Namastê” em forma de gesto.

Acho que foi isso que aconteceu.
Uma daquelas coincidências que o corpo entende antes da razão.
Um breve encontro de presenças — uma respiração de liberdade.
Não há como nomear — apenas sentir que, por um instante, o acaso escolheu dar-me flores.

Caminhei o resto do dia com o perfume me acompanhando.
E, talvez, tenha aprendido ali que alguns gestos — os mais silenciosos — são também uma forma de oração.

 



 

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