As Conexões Ocultas no Mercado


As Conexões Ocultas no Mercado 



 Por Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé”. E quem não gosta de flores? Quem não gosta de flores, sei lá o que é. Dorival Caimmi também nào deixou claro, mas Flores e música têm esse dom único de mexer com a gente, não têm? "Todo mundo bole..." Como se houvesse um alquimista interno pronto para virar nossa emoção do avesso ao primeiro contato.

Na última quarta-feira, lá fui eu cumprir meu ritual: uma visita ao Mercado da Vila. Cheguei mais tarde do que de costume e, ao invés de começar pelo café, decidi ir direto às compras. Entre bancas de frutas frescas e temperos perfumados, o mercado é sempre um convite a desacelerar e viver o momento – mesmo quando a hora parece exigir sono profundo. A dona Luciana, com sua presença tranquila e firme, é quem me lembra disso sempre que trocamos dois dedos de prosa. Ela chega antes mesmo do sol despontar no horizonte, com sua produção impecável, e vende para os revendedores ainda na alta madrugada.

É impossível não pensar que o dia dela tem bem mais horas que o meu. Mais tarde, Dona Luciana, organiza os melhores produtos e dá início a mais um mercado com as mercadorias que reservou para seus clientes habituais, como eu, recém-chegada e outros como a senhora do chapéu de feltro vermelho que vem ao mercado desde que o mercado era apenas uma rica horta.

Dona Luciana é uma mulher extraordinária. Seus traços suaves e seu olhar marítimo, de uma calma quase hipnótica, guardam as histórias de longevas oito décadas que parecem não lhe pesar. Que mulher incrível. Talvez ela nem se lembre dos nossos pequenos diálogos no meio da agitação do mercado, mas para mim, ela é uma figura exemplar, digna de reverência. Dona Luciana, como tantas outras mulheres do mercado, carrega o legado da roça nos ombros e com ele abastece as nossas mesas. O que mais podemos dizer dessas valentes? Mulheres que plantam, colhem e vendem. Oferecem mais do que produtos: reverenciam o cuidado, a dedicação e a vida. Há algo mais profundo nas interações com o espaço e com figuras como a dona Luciana – uma rede invisível de significados, memórias e relações que transcendem o ato simples de comprar.

Por isso, sempre que vou ao mercado, não deixo de dar uma espiadinha na dona Luciana. Para mim, ela é um emblema – uma mulher que carrega a essência do Mercado, da terra e de tudo o que realmente importa: as “conexões ocultas”. Referenciando Fritjof Capra, no sentido de nos envolvermos e nos deixarmos levar por experiências mais holísticas e conectivas, em oposição às menos lineares, reducionistas e desconectadas da nossa humanidade.

Depois das mulheres e seus produtos da terra o que me chama o olhar é o corredor das flores. Ah, que desfile sofisticado! Não há tristeza que resista ali. É como entrar numa festa em que as convidadas já nasceram arrumadas. Rosas de todos os tons, orquídeas com ar elegante, margaridas, girassóis sorrindo para quem passa e os favoritos lisianthus, flores que escolhi para meu casamento... E então, no meio desse samba floral, algo me surpreende.

Imagine só: buchas vegetais! Sim, aquelas esponjas naturais que nascem enroladas nas cercas das hortas, com flores amarelas, primas dos pepinos, frutos que, quando secos, se transformam em acessório de banho – no Brasil, este arranjo certamente renderia uma boa piada. Mas aqui, as esponjas... Lá estavam elas, arrumadas como se fossem as estrelas de um vaso decorativo. Criativo, confesso. Mas meu primeiro pensamento foi outro: “Será que, se eu levar isso para casa, não acabam na banheira?”

Fiquei encarando o buquê com um sorriso espoleta, imaginando a reação das visitas. “Luxo ou loucura?”, pensei. De qualquer forma, era impossível não admirar a ousadia de transformar algo tão simples em arte. No mercado, até buchas ganham outro propósito. Vai dizer que isso não é genial?

A vendedora, percebendo meu interesse, não tardou a explicar a origem dos arranjos de esponja. Holandeses. De cá ou de lá, o que importa é a diversidade de utilidades. Essas flores são de mesa e de banho. Sustentabilidade pura. Pensei. Quando o arranjo desbotar, vira esponja para o banho. E olha, quanto mais usada, mais macia fica. É só deixar a natureza trabalhar.

Nessas conversas tão cheias de simplicidade e criatividade, o tempo passa sem que a gente perceba. Só o estômago, com sua pontualidade rigorosa, consegue lembrar da hora.

Deixei o corredor das flores com a alma aquecida e uma vontade gigante de rir da descoberta sobre os nossos curiosos pepinos de banho. Para encerrar o passeio, passei para pegar o pão de Mafra, cheirando a forno à lenha, e depois ao Salgados para acalmar o estômago. Já era hora do Palavras & Azeitonas com belos acompanhamentos, afinal nem só de escritas eu vivo... Enquanto o aroma do café me envolvia, pensei: o mercado é isso. Um lugar para onde a gente vai por gosto e necessidade e de onde volta carregando histórias, memórias e, às vezes, boas risadas.

Amanhã é quarta-feira. Já separou suas sacolas? Vamos ao mercado, porque, assim como no samba, é impossível resistir às conexões do Mercado. Bora lá!!!






Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...