A Grandeza das Coisas Banais

 




Como as pequenas coisas constroem o que somos

Por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

De que, de fato, é feito um escritor?

Foi ao final da manhã, no Mercado da Vila de Cascais.

O ar estava espesso de aromas — pão fresco, frutas, flores. Conversas cruzavam o pátio como linhas de bordado. O Mercado não era apenas um cenário. Era o próprio corpo do dia, abrindo pequenas fendas de tempo e bem-estar.

Uma pausa com sabor de café e pastel de abóbora com queijo da Serra — sabores que fazem a gente estar e viajar.

Estávamos à mesa do Palavras e Azeitonas quando vi Neumar Silva, escritor brasileiro, com uma xícara de café na mão. Tinha aquele olhar de quem busca um lugar — ou reconhece afinidades silenciosas.

Por um instante, seus olhos se demoraram nas rendas de crochê sobre a mesa, como quem lê uma história antiga, ponto a ponto. Antes que seu olhar se perdesse, acenei.

Ele disse “sim” quando disse “não”. Murmurou algo como “a mesa está arranjada” — e, antes mesmo do fim da frase, já estava à mesa.

Sentou-se junto a mim e a Ana, que saboreávamos mais um dos nosso cafés de aniversário, descompromissadamente, a celebrar o simples. É assim quando se está em festa: os encontros se tornam inevitáveis.

Neumar é desses que caminham guiados por memórias sensoriais. Contou-me que, em suas caminhadas diárias, há uma flor específica cujo perfume o atravessa — e, por instantes, ele volta a ser menino. Costuma levar um pequeno ramo para casa e deixa que o aroma preencha o lar. Não é saudade. É presença.

Uma memória inteira que se acende com um simples cheiro. Essa flor, real e recorrente, lhe serve de bússola — a chave do seu lume de escritor.

Falamos disso, e de livros, e de escrever. Então que perguntei:

— O que você escreve?

Ele sorriu, com a pausa de quem não tem pressa:

— Entre tantas coisas, banalidades.

Banalidades às quais sou fiel...

Falou de suas viagens e da prática de escrever notas.

 

— O diário de memórias — continuou — foi meu guia neste último livro: Entre livros e viagens.

Enquanto falava, mencionou Carolina Maria de Jesus e o impacto de Quarto de Despejo.

A voz brevemente embargada. A lágrima contida. Havia ali o reconhecimento: Carolina escrevia com a fome e a lucidez de quem observa tudo — e ele, com a delicadeza de quem escuta o mundo. Ambos, à sua maneira, revelam o que está escondido nas margens da vida.

E é dessas mesmas margens — feitas de silêncio, resistência e afeto — que nascem os verdadeiros transbordamentos criativos.

Foi ali que compreendi: talvez sejam justamente essas coisas — as que chamamos de banais — que sustentam tudo o que somos. São as delicadezas do dia comum que nos oferecem pertencimento.

Há um heroísmo manso nas insignificâncias.

Manoel de Barros dizia que é preciso “desimportar-se” para alcançar o que é fundo. Que há grandeza nas miudezas, nos gestos quase invisíveis. Talvez escrever — e viver — seja isso: dar valor ao que parece inútil, mas toca a alma. Oferecer um alimento ao andarilho, escutar o que tem a dizer...

Uma mesa posta com rendas. Um café sem urgência. O perfume que, no meio do caminho, devolve a infância.

Essas coisas não constroem o mundo — mas o sustentam por dentro.

Penso agora: um escritor é feito disso. De afetos bem guardados. De sentimentos que sobrevivem ao tempo. De cenas comuns, vividas com inteireza.

E Neumar, ali à mesa, era isso: "um apanhador de desperdícios" — presença inteira.

Palavra limpa. Emoção que não se exibe — apenas escorre, natural.

Quando se levantou, levou consigo a flor que o trouxera — invisível para nós, mas nítida para ele.

E talvez tu também caminhes com uma flor dessas —que não se vê, mas leva de volta ao que importa.

Mesmo sem o saber. Mesmo sem escrever.

Ainda assim, autor: do gesto, do silêncio, da presença.

Porque há luz — sim — nas coisas banais.

Nota: Esta escrita foi inspirada no escritor Neumar Silva, cuja escrita sensível valoriza as pequenas coisas que nos constroem pelo caminho. Seu livro Entre livros e viagens será lançado no dia 24 de maio de 2025, às 15h, na Biblioteca Casa da Horta, Quinta de Santa Clara – Cascais.

Apareça por lá!

Feedback Sistêmico e a Liderança que Valoriza o Processo

 

Atualizado: 22 de abr.

Feedback Sistêmico e a Liderança que Valoriza o Processo




Katia Bonfanti

psicóloga sistêmica


O atleta de alto desempenho não nasce só no treino físico ou técnico — ele é construído também no ambiente emocional, nas relações e na cultura da equipe.


Recentemente, enquanto acompanhava o Ibercup, pude observar, tanto como mãe quanto como profissional, a forma como a liderança de equipes infantis e juvenis pode impactar diretamente no desenvolvimento emocional e relacional dos atletas.


Uma situação em particular chamou minha atenção: após uma série de resultados desfavoráveis, um líder de equipe infantil não restringiu sua comunicação ao resultado competitivo. Pelo contrário — valorizou com autenticidade os esforços individuais e coletivos, reconhecendo a entrega, a coesão e a resiliência do grupo, acolhendo a derrota como parte natural e necessária do processo de aprendizagem. Depois da eliminação, enviou uma mensagem acolhedora e motivadora a todos os atletas — e isso fez toda a diferença.


Essa postura da liderança revela uma compreensão importante: a performance de uma equipe juvenil, especialmente, não deve ser mensurada apenas pelo número de vitórias, mas também pela capacidade de fortalecer vínculos, lidar com a frustração, construir significados e sustentar a motivação a partir da experiência coletiva. Embora seja difícil, no processo de desenvolvimento humano e esportivo, as derrotas são etapas necessárias que fortalecem, ensinam e preparam para conquistas mais consistentes e conscientes.


Nesse cenário, vale também refletir sobre o papel de pais e familiares, que frequentemente, na intenção de apoiar, podem acabar projetando expectativas e exercendo pressão emocional sobre os jovens atletas. Essa pressão, muitas vezes inconsciente, tende a distorcer a vivência desportiva, colocando o resultado acima do aprendizado e afetando o prazer e a segurança emocional das crianças e adolescentes no ambiente competitivo.


O desporto juvenil precisa ser, antes de tudo, um espaço seguro de crescimento, onde as relações se sustentem no cuidado, no respeito ao tempo de amadurecimento de cada atleta e no fortalecimento das relações familiares como rede de apoio — e não como fonte adicional de cobrança.


Percebo nesse tipo de liderança e nessas situações uma oportunidade rica de reflexão sobre: Como o feedback pode ser estruturado para potencializar competências emocionais e relacionais? Que estratégias podem ser incorporadas para transformar momentos de insucesso em oportunidades de crescimento para o sistema-equipa? De que forma o ambiente desportivo pode funcionar como espaço de construção de resiliência, identidade e consciência coletiva, envolvendo de maneira saudável atletas, técnicos e familiares?


Esse tipo de abordagem revela o potencial do desporto como ferramenta de formação humana, onde as verdadeiras vitórias acontecem nos bastidores do resultado. Como costuma estar estampado nos espaços desportivos: o desporto começa na atitude. Parabéns aos líderes — Tiago, Alex e Vassalo — e aos familiares, que demonstram uma atitude coerente e produtiva para com os jovens atletas. E não nos esqueçamos: os pequenos de hoje serão os grandes de amanhã — no tamanho, no caráter e na performance.


 

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...