O Desporto como Caminho para o Bem-Estar Infantojuvenil
Por Katia Bonfanti
Psicóloga Sistêmica
Um espaço para transformar experiências em reflexões que inspiram leveza, propósito e novos modos de viver.
Por Katia Bonfanti
Psicóloga Sistêmica
Por Katia Bonfanti
O que é uma liderança invisível?
Quando pensamos em liderança, é comum imaginarmos alguém no
comando — uma figura central que orienta, toma decisões, organiza o caos. Mas,
e se a liderança mais potente fosse justamente aquela que se dissolve, que
aparece apenas quando precisa, e some quando o grupo já pode andar com as
próprias pernas?
As metáforas e padrões na natureza nos surpreendem por
trazer modos de funcionar tão fascinantes que nos ajudam a pensar sobre os
sistemas humanos. E um dos exemplos mais fascinantes vem dos cupins.
Sim, os cupins.
Por trás de estruturas impressionantes como os cupinzeiros —
com câmaras climatizadas, canais de ventilação e cultivo de fungos — não há um
líder visível. As “ordens” estão implícitas no funcionamento. Isso acontece
porque eles operam em sintonia com o ambiente, guiados por sinais sutis, como
feromônios. Eles não comandam — percebem.
Nas equipes humanas de alta performance, há algo semelhante.
Quando cada pessoa sabe o que precisa ser feito, sente confiança para agir, e
reconhece o momento certo de intervir, a engrenagem coletiva gira com leveza.
Não há movimento ligada a um cérebro apenas, portanto não há paralisia por
dependência. O grupo avança como se respirasse junto.
Mas isso não surge por mágica. A autonomia precisa ser
arquitetada e cultivada. Ela nasce num ambiente onde há espaço para errar,
aprender e testar. Onde há clareza de propósito, segurança psicológica e
relações baseadas na confiança. E é justamente aí que entra o papel do líder:
criar esse tipo de ambiente.
Líderes que compreendem isso não têm medo de desaparecer.
Eles sabem que o verdadeiro impacto da liderança está em torná-la dispensável
para o que já foi construído. E essa é, talvez, a liderança mais forte que
existe: aquela que forma pessoas capazes de liderar a si mesmas.
Mihaly Csikszentmihalyi chama isso de flow — o estado de
presença plena, em que as pessoas estão tão imersas em suas tarefas que o
desempenho atinge níveis extraordinários. Equipes em flow não esperam ordens:
elas se movem como um corpo só.
Cupins não falam. Não fazem reuniões. Não precisam se
alinhar por e-mail. Ainda assim, a cooperação é impecável. Que sabedoria
extraordinária. Como conseguem?
Bem, eles respondem a sinais. Sentem o que o ambiente pede.
E ajustam suas ações a cada nova exigência.
Isso também se vê em times maduros. A comunicação se torna
quase invisível. Um gesto, um olhar, uma pausa já dizem muito. Há uma
inteligência sutil em ação, que não depende do discurso, mas da percepção.
Essa é a verdadeira inteligência coletiva: quando o saber não está concentrado em uma pessoa só, mas distribuído pelo grupo, vivo nas relações, nas entrelinhas, nos silêncios. Difícil? Em parte, sim. Mas, se os cupins conseguem, para quem tem linguagem, como nós, torna-se desafio possível.
E o preparo do líder será fundamental
Um bom líder não está interessado em centralizar. Está
interessado em libertar. Em formar pessoas tão boas no que fazem que, em algum
momento, não precisem mais dele. E isso não é perder espaço — é expandir
presença.
Liderar, nesse nível, é preparar o terreno e depois sair do
caminho. Não para abandonar, mas para confiar. Para permitir que o grupo ganhe
seu próprio ritmo, sua própria bússola.
E agora me diz: sua equipe pratica a liderança compartilhada?
Mas, e o medo de o líder desaparecer — e o apego ao
controle?
Claro, nem todo líder está pronto para isso. Existe, muitas
vezes de forma inconsciente, um medo de deixar de ser necessário. Um receio de
que, ao incentivar a autonomia, ele perca sua posição, seu prestígio, seu
"lugar no sistema".
Líderes mais autoritários tendem a formar equipes
dependentes. Não por maldade, mas por insegurança. É o que a psicologia chama
de apego inseguro: uma dinâmica em que o vínculo é baseado na necessidade de
controle, na reafirmação constante do valor pessoal através da autoridade.
Nesses casos, o líder precisa estar em tudo, aprovar tudo,
acompanhar tudo, bravejar, ameaçar... manter o centro em si, o tempo todo. E,
sem perceber, enfraquece o próprio time. Porque uma equipe que não pode se
mover sozinha, que não encontra seu próprio centro e ritmo, nunca amadurece.
Por outro lado, líderes com um estilo de apego seguro — mais
bem resolvidos emocionalmente, mais confiantes internamente — não se sentem
ameaçados pela autonomia do grupo. Pelo contrário: eles desejam isso. Eles
querem ver o time fortalecido. Sabem que sua liderança será ainda mais presente
quando não precisar estar visível, pois estará intrínseca nos elementos do
grupo.
Essa é a liderança que permanece, mesmo quando não está.
Porque não se apoia na autoridade, mas na influência. Não se afirmar pelo
poder, mas pela confiança que inspira. Isso vem com o tempo, quando os grupos
amadurecem, quando a hierarquia vai dando lugar à colaboração. As decisões são
compartilhadas e a liderança deixa de ser um cargo e passa a ser uma função que
qualquer um pode exercer, conforme a situação. Aquela premissa de assumir o
lugar de autoria e colaboração.
É um pouco a cultura dos bandos – de pássaros, onde a
liderança se torna algo fluido. Um conduz em um momento, outro conduz depois.
Todos contribuem para puxar o bando e formar uma linha de voo. Se há um líder
intrínseco? Provavelmente há. Mas ele esteve bem envolvido em definir a direção
e a estratégia, permitindo ser o voo uma liderança compartilhada
E isso só é possível porque a liderança original — aquela
que começou o processo — teve coragem de permitir a colaboração de cada um
quando este um se sentiu inteiro para liderar. De confiar. De soltar o controle
para dar lugar à autonomia.
No fim, liderar não é estar no centro. É ser semente. É
deixar algo de si em cada pessoa, de tal forma que sua presença e
direcionamento continue se manifestando e se reelaborando nas decisões do
grupo. Ela se espalha como o cheiro invisível que guia os cupins: não está mais
concentrada, mas distribuída. Não tem voz, mas move. Não tem dono, mas pulsa
viva dentro do sistema.
A liderança que se dilui no grupo, não morre. Ela se
transforma em instinto coletivo. Uma presença que permanece, mesmo quando já
não é notada. Quando isso acontece, o estilo do líder virou a cultura da equipe
— ela multiplica-se.
Palavras & Azeitonas
Katia Bonfanti
psicóloga e escritora
A chuva do 08 de março parecia querer demarcar sua própria história! O céu, coberto por um manto cinza, revelou apenas breves frestas de azul, como se tentasse abrir janelas para a chegada da primavera. Mesmo com o céu fechado e o tempo nublado, não desistimos do Mercado, nem do momento do Palavras & Azeitonas.
Do meio da esplanada, aproveitando a estiada, apareceu Pedro, trazendo uma bandeja repleta de copos vazios – muitos já haviam bebido "um copo". A frase, inesperada, tomou conta do meu pensamento, como um assovio fino, vindo da própria experiência de mudança, de migração, de transição.
Imigrar, pensei, é como aprender uma nova linguagem para aquilo que já conhecemos. A mesma palavra, mas com novos significados. Lembro da primeira vez que ouvi “vamos beber um copo” – naquele momento, imaginei algo amplo, impreciso, como uma promessa feita no ar. O copo poderia ser qualquer coisa – vinho, água, ou até mesmo silêncio – que sacia algo mais profundo.
O que significa “beber um copo”? E o que é “uma mão cheia de nada”, uma expressão que ouço muitas vezes, e que, de alguma forma, surgiu no meu pensamento enquanto eu olhava para os copos na bandeja. Os líquidos haviam sido bebidos, mas a mensagem permanecia inscrita em cada um deles, sob a forma de uma fina espuma, prestes a se desfazer ...
Minha filha costuma pedir o seu suco, laranja com cenoura. Para ela, o gesto é quase instintivo – apenas dizer "um sumo" e esperar que a mágica se realize. Ao receber o suco, embora não perceba, tem uma mão cheia de tudo. O sabor não é só uma mistura de frutas; é uma conversa íntima com suas emoções e expectativas. Ela bebe com a leveza de quem ainda está descobrindo a si mesma, sem pressa de crescer, sabendo que o único compromisso de amanhã é o jogo de vôlei. Naquele copo, há uma alegria açucarada, um vigor que reflete a juventude que, como o suco, flui sem reservas. Um gozo espontâneo que transita entre o prazer imediato e a promessa do futuro – como um delicado rito de passagem que começa com o sabor e segue pelas sensações a incrementar as memórias daquele momento. Satisfação e prazer que pareciam emergir da relação com o líquido do copo.
Em contraste, outra bandeja de copos vazios. O dia cinzento parecia chamar mais atenção para aqueles pequenos rituais, como se o próprio ato de consumir se tornasse uma forma de nutrir algo mais profundo: uma necessidade de cor, de vitalidade, de repouso. Talvez o clima tivesse amplificado a busca por calor, ou talvez fosse a psique humana, que encontra consolo na doçura e no frescor, mesmo nos momentos mais opacos. Pedro, atento, comentou que os pedidos de suco estavam em alta – e de fato, a entrega de mais uma caixa de laranjas só fazia confirmar a tendência.
Gosto de pensar nas emoções que orbitam nossos contatos com as coisas e o mundo: as sensações, as memórias e as emoções que os alimentos carregam. Gosto dessa viagem sensorial, especialmente quando envolve sabores recém-colhidos da terra. Quanta informação nos chega às veias a partir deles! Quanto podemos conhecer de nós e de nossa ancestralidade ao observarmos nossas escolhas gastronômicas. Somos agentes históricos, percorrendo trilhas de sabores e texturas e, quando nos damos conta, estamos revisitando nossas experiências.
Eu aprecio mercados de hortifrúti. Essa ligação com o que é fruto de colheita familiar está entranhada em minhas memórias. Lembro-me de todos os estágios da flor do morango e do sabor ácido-adocicado da fruta, mas, mais do que isso, é a alegria de encontrar as frutas maduras sob as folhas, ao lado do meu irmão, que me faz sempre voltar ao sabor. Nossos pequenos tesouros. Nossa felicidade clandestina. Assim, eu poderia falar de cada fruta que escolho.
Então, aqueles copos todos foram escolhidos por razões que a própria razão desconhece. O que leva alguém a optar por determinado sabor? Seria apenas um desejo momentâneo ou algo mais profundo? Fiquei imaginando todas aquelas variações de sucos e os possíveis aportes afetivos e emocionais que o sabor trouxe a quem o escolheu.
A expressão "beber um copo" é cheia de significado, e o copo, na verdade, é apenas simbólico – o que importa, de fato, é o líquido. O copo contém, mas também limita. Ele é um recipiente de vontades, uma borda entre o querer e o ter. E, naquela viagem pelas minhas ideias, me deparei com Bauman e sua teoria da modernidade líquida. Ele fala da fluidez das relações, da impermanência dos laços. Assim como o líquido se adapta ao recipiente, também nós tentamos nos moldar às circunstâncias.
Enquanto desenrolava esses pensamentos, chegavam mais pedidos de suco. Um jovem, que parecia ter chegado de uma corrida, pediu suco de cenoura, laranja e gengibre – talvez buscando energia e frescor. A outra pessoa que veio com ele pediu suco de maçã verde – um sabor ácido e leve, quem sabe desejando algo revigorante, mas sutil. Era copo, era líquido, mas, na verdade, era muito mais do que um copo cheio de suco. Era o que cada um precisava para se recompor ou compor seu estado “líquido” subjacente.
Aquele que somos em nossa essência. Nossos internos, emocionais, liquefeitos, medos constantes, sonhos... Somos, ao mesmo tempo, navegadores e náufragos, tentando encontrar um equilíbrio entre a necessidade de estabilidade e a inevitável impermanência das coisas. Entre goles e escolhas, somos todos líquidos, tentando conter nossas incertezas em copos frágeis. Navegamos entre o que queremos ser e o que somos, ora correntezas, ora portos, sempre tentando encontrar onde repousar, sendo fluxo.
Bauman nos provoca: como sustentar um propósito em um mundo onde tudo se desfaz antes mesmo de se firmar? Como ancorar o sentido em algo que, por natureza, não se fixa? Talvez a resposta não esteja em resistir à fluidez, mas em aprender a dançar com ela. Em fazer do efêmero um aliado, em valorizar o instante não apesar de sua transitoriedade, mas justamente por causa dela. Criar laços que, ainda que líquidos, tenham a densidade daquilo que importa.
Nada melhor do que um copo de sumo, espesso e vibrante, para desacelerar a urgência que nos atropela. O suco, com sua doçura líquida, escorre pela garganta e impõe um breve silêncio ao tempo. É um intervalo, um respiro no meio do caos, uma proteção em dias sombrios.
Seu sabor terreno reconfortante é um atalho para memórias, uma soma calórica que chega ao espírito. Talvez seja essa doçura imediata, pronta para ser sorvida sem esforço, que remonte às nossas primeiras experiências de conforto: o leite materno, o primeiro contato com o sabor, o primeiro aprendizado de que o mundo pode, sim, ser adocicado, emborao ácido ressalte...
A chuva retornou, fina e persistente. Mas, no entremeio dessa cortina úmida, as mãos se erguiam cheias de tudo: copos repletos de sensações, transbordando momentos, cheios de sabores – pequenos refúgios que o dia exigia. Cada copo, um reflexo de uma necessidade invisível, um prazer, um afeto a ser encontrado, um ato de cuidar de si. Beber um sumo numa manhã chuvosa é se reconectar com o que há de mais simples e genuíno em nós. É um instante de plenitude disfarçada de cotidiano. Um gosto onde conectar-se aos sabores torna-se um copo cheio de memórias e essências!
Sobre levezas profundas, espumantes e a felicidade das ostras

Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora
A poesia é a expressão mais pura do olhar — penso nisso sempre que vejo uma ostra abrindo-se, devagar, como se revelasse um segredo. Rubem Alves mostrou a beleza nascida de um grão de areia; ou melhor, a beleza forjada na dor, ao dizer: “ostra feliz não faz pérola.” O poeta levou-me a deslisar pelos labirintos dos moluscos, a questionar se a beleza esférica a balançar no fio dos meus brincos só poderia germinar no terrível desassossego causado por um grão de areia a esfolar a maciez daquela criaturinha — a ostra.
Mas então, ao olhar mais de perto, uma ideia se forma em minha mente: e se for a felicidade — e não a dor — a origem da beleza? E se descobríssemos que as cascas das ostras são, na verdade, suas verdadeiras pérolas — e que nelas habita a essência de uma vida-ostra?
Talvez a beleza forjada na dor seja, afinal, uma grande cegueira. Será mesmo que toda dor é necessária para criar algo de valor? Não deveríamos, quem sabe, repensar isso?
Essas perguntas me acompanharam numa manhã no Mercado, quando resolvi parar na ostraria para observar — e quiçá saborear — as ostras. A Les Portugaises, no Mercado de Cascais, é uma ostraria logo na entrada do pavilhão; impossível entrar pelo estacionamento e não ver as mesas externas, onde pessoas saboreiam ostras com um bom espumante.
Foi ali que conheci Francisco — e, com ele, uma nova forma de perceber o lado perolado das ostras.
Francisco costuma estar por lá, entre colegas que, poetas das conchas como ele, divertem-se enquanto trabalham. De olhos vivos, não perde a conexão com os clientes enquanto abre, delicadamente, as ostras.
Deu-me uma aula. Com toque sutil, mostrou como romper o músculo com a ferramenta, girar a ostra na casca e preservar o caldo mareado entre o molusco e a concha. Deixa-a brilhar ao centro, como uma bela em sua pele de cetim.
Muitas vezes passo por lá apenas para observar — e me surpreender: encontrar dentro daquela carapaça calcária uma criaturazinha que se oferece ao paladar. E torcer para que, a cada rompimento, não surja um grão de tristeza — mas, no instante exato, Francisco, com sua sabedoria imediata e uma leveza que também é profunda, oferece sempre uma resposta bem-humorada.
Na última visita, vi uma família de estrangeiros a degustar ostras na esplanada. Havia uma aura de satisfação que só o prazer verdadeiro é capaz de revelar.
Arrisquei mais uma pergunta a Francisco: que impacto sensorial uma ostra leva para dentro do corpo?
Como será aquele primeiro contato com as ostras recém-abertas, recém-descoladas de sua vida-casca? (Enquanto pensava que viver também seja isso: romper, com delicadeza, nossas próprias cascas — e descobrir que, por dentro, pulsa algo cru, disforme ainda, no entanto profundamente verdadeiro).
— É como tomar o mar... é mar! — disse ele com a suavidade de quem costuma ter mar nas mãos.
Foi tudo tão mais simples nas palavras de Francisco. Mar. Apenas mar... a imensidão do mar a nos tomar a partir de uma ostra.
— E as pérolas, Francisco?
É a pergunta que sempre faço. Quase um jogo, como se quisesse saber se as ostras, ao se descolarem de sua vida-casca, foram felizes ou carregaram um grão de areia pela vida afora. Francisco me garante que, entre as milhares que já abriu, jamais encontrou uma pérola.
— Só vendemos ostras felizes! — responde, com a convicção de quem conhece o mundo das ostras como ninguém.
Por que será que nunca encontramos pérolas por aqui? Talvez porque não sejam ostras incomodadas — ocupam-se do viver. Ouvi dizer que, quando por acaso se encontra algo dentro da concha, é assimétrico e sem "valor". Rimos, um riso de veludo, da ideia de comer ostras felizes — sem pérolas valiosas, sem dramas, apenas quietude.
No interior das cascas das ostras de Francisco, habita o eco do canto das baleias, que elas colecionaram em silêncio.
Francisco contou-me, sorrindo, que o mais curioso não era a ausência de pérolas, mas o fato de que, não importa o tempo, as pessoas sempre consomem ostras com espumante. Pode estar frio, chuvoso, escaldante... ostras sempre combinam com bolhas.
— Ostras descem bem com espumante!
Ri com ele, imaginando a descida da ostra pela garganta. A que se deve essa combinação?
O espumante, com suas borbulhas efervescentes, carrega a leveza do instante, o convite à celebração, ao breve esquecimento do mundo.
Talvez seja isso: o espumante — alegria aérea — encontra nas ostras equilíbrio: leveza que nos eleva, rusticidade que nos ancora. A busca por harmonia no contraste, onde a beleza do momento está não na perfeição da união, mas na ousadia de consumir.
Não há mesmo aquelas pérolas por aqui.
Mas há cantigas de baleia, memória líquida preservada de um mundo oceânico, a mão precisa a pôr as ostras a brilharem em suas conchas, a delícia posta à face ao consumi-las.
Talvez essas experiências — de sabor, encontro e mar — sejam, no fundo, a verdadeira pérola de uma ostra.
E, se mesmo um dia uma ostra desejar fazer uma esfera perolizada, que seja um gesto de amor à simetria — não por defesa, mas por pura arte de polir sua concha. Porque, no fim, não é sobre encontrar pérolas — mas sobre o prazer de consumir o imperfeito.
Crônica poética escrita após uma visita à ostraria Les Portugaises, no Mercado de Cascais. Reflete sobre o valor da leveza, a beleza que nasce do cotidiano e o encanto das ostras felizes — sem pérolas, mas cheias de mar.

Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...