🌍 Entre Parreirais e Memórias
Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica
Na vastidão do Planeta, a América,
no extremo do país continental, o Sul,
em seus seios, uma serra trespassada de história,
sobre ela, vinhedos,
e embaixo deles, o domingo inteiro,
entre o Planeta e o vinhedo,
balançando o passado em aroma,
repousa o olhar.
(Habitar, Katia Bonfanti, 2022)
Imagem: Vinhedo da família Giordani – Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, RS.
Dia ensolarado no Vale da Serra, início de tudo. O ambiente é vivo e cartografado pelo verde das matas, onde as falas se interpõem com as mãos. Profusão da linguagem dialetizada. Mistura da italianidade com o sulista brasileiro: uma aposta que deu certo, mas não sem muito trabalho.
A abertura do país aos italianos tinha propósitos: povoar os vazios da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e incrementar a produção de alimentos. Os italianos, que sofriam com guerras, crises econômicas e fome — que assolava até os interstícios da alma — viram no Brasil a chance de preencher também os seus próprios vazios. Vieram ao Sul com a promessa de terras agrícolas. Navegaram em busca da fortuna — sorte.
Compuseram na América as primeiras Colônias Imperiais, por volta dos anos 1870. Trazer à luz essa trajetória é reverenciar a herança cultural que pulsa na alma de tantas cidades do Sul e de outras regiões do país.
A Serra Gaúcha foi o atracadouro de sonhos de famílias recém-desembarcadas. O encontro com a terra íngreme e desconhecida exigiu força, fé e resiliência. Para os solteiros, trouxe também o encontro com o amor.
Milhares de italianos trouxeram suas tradições, povoaram colônias com famílias numerosas sustentadas pela fé. Trabalhadores incansáveis, fizeram do solo de pedregulho la vita fortunata. Há quase um século e meio, os descendentes traduzem esses sonhos em vivências e memórias. Vemos na Serra Gaúcha uma cultura única, fortalecida pela língua criada na interação: o talian.
Ao adentrar as cidades com alma italiana, percebemos a tradição nos sabores, nos gestos, nas orações. Adoramos as festas, especialmente a vindima — a colheita. O trabalho vem na medida da gratidão e do gozo. Os perfumes reconectam à vida no sem-fim entre o planeta e a plantação. Os parreirais, como terraços de esperança, frutificam e adoçam os imaginários. Ao pegar o cesto de vime, dois continentes se ligam. As uvas, em seus inúmeros sabores, pendem sobre olhares perplexos. O ontem se apaga. Só importa o agora.
Minha avó dizia que a vindima suscitava o amor — baseava-se no aumento de nascimentos nove meses depois, mas isso fazia parte do seu anedotário. Pensando bem, faz sentido. A colheita é mesmo a festa do amor.
Os italianos migraram com amor à pátria, embora fossem filhos órfãos. Recriaram seus modos de viver nas colônias: trabalhavam, rezavam, festejavam e amavam. Organizavam os talhões com sabedoria: nas partes altas, os parreirais; nas baixadas, os trigais; entremeados, as ervilhas e o milharal. A polenta era essencial.
Iniciavam no nível do chão. E a partir dele, cresciam.
Sem a coragem dos antepassados, hoje não teríamos a vista dos vinhedos. Apesar das secas, a festa da colheita está garantida. Grupos andam sob o lençol verdejante em pleno fevereiro escaldante. O frescor vai além do clima. É leveza que se sente no encontro com as raízes. Conhecer as origens dá identidade. A cultura se transmite nos gestos, aromas e modos de fazer, mesmo sem instrução formal.
O vinho é mais do que bebida. É ligação cultural. Mesmo quem não o aprecia, reconhece seu valor. Os italianos, ao chegarem, não encontraram ouro nas árvores — mas o fizeram surgir. Engarrafaram o ouro. O vinho ganhou o mundo. Apostaram no espumante — enfrentando França e Itália com o brilho próprio da Serra.
Fortuna aqui não é riqueza, mas fazer a sorte: entrelaçar trabalho com fé e perseverança.
Os ítalo-brasileiros elevaram a produção a escala global. Mas crescer exige rever os planos. Preservar tornou-se urgente. Desenvolvimento não pode custar a finitude da cultura ou da natureza. Sem fachadas históricas, sem produção artesanal, sem festividades — corremos o risco de perder a identidade. Deixar a cultura morrer é negar a ancestralidade. É ter o vazio de volta.
Todas as culturas importam. Aqui, celebro a italiana por estarmos comemorando um século e meio de história. Reafirmar valores culturais é dever de quem descende dessa tradição. Somos produtos perfeitos da nossa cultura. A italianidade que vive em mim me torna quem sou. Visitantes das cidades colonizadas por essa alma “estrangeira” são, por instantes, acolhidos por vinhedos, sonhos e ancestralidades. Trocas culturais revelam: quem é o outro? Quem sou para ele? Quem somos todos?
Viva as trocas culturais. Viva a italianidade que habita em nós — falante, barulhenta, incansável, rezadeira e amorosa.
Na sequência... uma história que iniciou com a chegada do imigrante Roberto Bonfanti, meu bisavô, à Serra Gaúcha em outubro de 1912. Permaneceu até 1931, desenvolvendo atividades na queijaria que inaugurou em Bento Gonçalves. Depois, interessado em produzir farinha e energia elétrica, migrou para outras águas no Norte do RS.
Algumas fotos abaixo incluem a primeira represa da Serra Gaúcha, em Guaporé (1920), retrato de Roberto Bonfanti e Maria Letícia Chini Bonfanti. Casarões de Bento Gonçalves e Garibaldi. O moinho e a igrejinha construídos entre 1931 e 1937, no interior de Constantina, RS. A mudança teve o objetivo de encontrar, no Rio Lajeado Grande, água capaz de gerar energia elétrica para o casarão e movimentar o moinho. Sonho que deu certo e iluminou, em 1938, o pequeno Vale Bonfanti.
Reliquias do baú da nona Maria Letícia... livro de 1911, presente trazido da Itália pelo nono Roberto
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