Sabi(a) - vida
Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica
E sobre o repouso eterno da ave, surge a rosa da cor da plumagem do peito de Adrio.
Eis que a força depositada na terra é mais poderosa do que a genética da flor. Filha de uma roseira cor-de-rosa, ela se rende ao encanto-matiz do sabiá madrugueiro. A rosa expande suas pétalas imitando o peito do cantador. Logo abaixo, na haste da suave alaranjada, balança a pluma de uma ave. Surge leve, porém arrebatadora, como emblema — ou lápide: aqui canta o sabiá. E ainda, faz saber que a partida de Adrio passa a ser meio; o quintal, cheio; e o coração, alegre, por ver que a terra, ao consumir o canto, resplandece em flor.
Adrio faz parte do meu quintal — amor lido nas entrelinhas da vida. Por onde quer que eu ande, meu quintal vai comigo. Não falo apenas de um chão. Refiro-me a um quintal vasto, de tantas vozes, composto por séculos de vivências. Nele residem a infância, a cooperação, a alegria, a curiosidade, o medo, o luto (as perdas que fortalecem e reforçam o amor à vida). Vivem no meu quintal os sonhos, a esperança, tantas manifestações de afeto, pessoas queridas, fantasmas conhecidos, a criação e, também, algum deslustro. Vive ali a história (viva) dos meus antepassados, o legado dos recomeços, o estrangeirismo que me permite pertencer e não pertencer (tanto no aspecto intra quanto intersubjetivo) aos quintais que se apresentam — inclusive àquele que chamo de meu. Porém, eu não sou sem o quintal que me habita.
Desde as primeiras memórias de infância, o “estrangeiro” compõe o meu quintal. Ao refletir sobre minhas vivências, confabulei com o “estrangeiro”, vesti-me de questões históricas e outras míticas. Vivi um tempo ancorado no passado. Cantei do alto do pé de caqui: "...eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar..."
Folheei meus dias em recontos que ocorreram décadas antes do meu nascimento. Isso porque meu processo de subjetivação se deu em uma bolha na qual tudo se assemelhava na mesma medida em que causava estranheza — porém, estruturava o meu vir a ser. Salve o “estranho” que se fez caminho.
O curioso, ao se viver em uma bolha cultural de alta preservação de costumes, é que o presente surge tonalizado pelos antepassados e, embora atual, preserva o pigmento rosa-choque — o mais antigo dos pigmentos. Assim, sentia-me conectada a outros quintais (inclusive os geográficos). Eis o estrangeirismo pulsante: os objetos, as vozes, os lenços de cabeça, as fornadas coletivas, as visitas das quartas-feiras ao cemitério — tudo com o propósito de manter a transmissão.
Rituais que, despretensiosamente, alimentavam o “estrangeiro” também produziam desejos e planos futuros (ainda mais ligados ao passado e ao território de origem da cultura). Os filós e as rezas dos fins de tarde embrulhavam o barulho das pedras do moinho, o cheiro da madeira serrada, os parreirais, o aroma do mosto e o parmigiano (que imitava o reggiano) — parte identitária da cultura, que não subtraía das crianças a identidade máxima: o vinho diluído, bebido como refresco.
E o maior constituinte: o amor à natureza da vida — de todos os tipos de vida.
Essas e tantas outras memórias, somadas à companhia permanente dos “velhos sábios”, compõem os livros da minha biblioteca interna — o tal quintal. Nada, nunca, removeu do presente a vivacidade do passado, pois ambos convivem em interface: movem as mós produtoras de realizações, da criatividade e dos suspiros.
Envolta em similaridade e estranheza, cresço parceira do “estrangeiro” — aquele que, voluntariamente, dedica-se ao processo identificatório e contra-identificatório, que permite que alguma diferença se instaure e escreva um novo traçado.
É sabido que o conceito de “estrangeiro” é amplo, e também pode ser um olhar segregado, que rege sentimentos de amor e ódio diante do não reconhecimento de si no outro.
Mas não é sobre isso que escrevo.
Neste fragmento, falo do “estranho” que faz morada em meu ser. Aquele que me permite conviver com Adri(os) e Ameli(s), com rosas e gentes, com impressões e inventos, com realidades e finais.
Quantos quintais moram em mim? Não sei de fato. Só sinto que são tantos. Ainda bem!
Dessa forma, posso seguir a passos com o “estrangeiro” — aquele que também carrego no olhar, que me permite refazer o traço, avançar ou recuar. Recuar é um treino antigo e sempre se manifesta diante de situações ameaçadoras. Nem sempre é possível fazê-lo a tempo — mas eu tento.
Quando o “estrangeiro” demora a se manifestar, meu risco de envolvimento com algo ainda mais “estrangeiro” é maior — mas nunca aniquilador. Resiliência e generosidade são ativos importantes. Ademais, avanços e retrocessos me interessam. São analisadores eficazes para viver com intensidade e alegria esta “uma vida” somente minha.
Importam ainda mais quando se sabe que a vida é breve, é passagem.
Que a terra transforma em flor aquilo que recebe.
E que tudo recomeça na primavera com um novo canto, em um memorável quintal.
E sobre ter um milhão de amigos?
Eu tenho amigos valiosos, com quintais que transbordam afetos e cantorias.
Sei que, mesmo longe, brindaremos cada palavra solta ao vento, pois a vida é sábia — ensina que:
“O Amor não se Lê” sem um nível de estrangeirismo e dedicação.
Arrivederci!
Katia Bonfanti