Grãos Sagrados
por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora
Sempre acreditei que café e
chocolate conversam entre si — um aquece, o outro acaricia. No Mercado da Vila,
falava sobre o café das matas de Minas Gerais quando Estella, apreciadora do
café do Pedro tanto quanto eu, se aproximou e disse:
— Vou te apresentar o melhor chocolate do mundo.
E assim, entre o aroma do café e a promessa do cacau, começou a travessia.
No ventre fresco da loja Diogo
Vaz, o aroma da torra do cacau suspira no ar — um convite à experiência
inteira. Entre barras, nibs e grãos torrados, o chocolate se revela como um
rito discreto: não apenas alimento, mas promessa de encontro. Uma pausa na pressa
do dia para ouvir a própria alma.
Mas afinal, do que é feito o
chocolate? Não é só mistura de açúcar e cacau. Cada barra guarda uma genealogia
— uma terra, um clima, um cuidado — que entra pelo paladar e se espalha em
sensações, sinapses, alegria.
Estella abre essa porta com
naturalidade. Com a doçura que só o chocolate sabe ensinar, ela nos leva a
caminhar entre cacaueiros, dedos mergulhados na terra fértil de São Tomé,
deslizando por postais vivos onde o sol equatorial pinta memórias. É a estrela-guia
que conecta o Mercado da Vila à ancestralidade pulsante — guardiã de uma
passagem entre mundos, entre o visível e o invisível.
Entre as criações da casa, há uma
que pede silêncio: a linha Ôrihanga. Preparada para rituais de conexão, ela não
é apenas chocolate — é pausa e presença, convite para atravessar a si mesmo. No
primeiro toque, o amargo testa o paladar; depois, cede espaço à doçura, como
quem abre um caminho interno.
O chocolate Diogo Vaz, vindo
dessa terra viva, traz o pulso do solo vulcânico e a umidade do trópico. É
memória que ecoa o que os povos mesoamericanos chamavam de árvore sagrada
plantada no coração da Terra.
São mais de 420 hectares de
floresta, silenciosos guardiões dessa dádiva. A linha Ôrihanga, cujo nome evoca
rito, não é só sabor: é dobra do tempo. O amargo primeiro testa o paladar para,
depois, revelar sua doçura — uma lição que o corpo entende sem pressa, e a alma
reconhece como reencontro.
No moinho da minha infância, as
pedras moíam grãos e histórias ao mesmo tempo — camadas do passado embalando o
presente. Sempre tive uma ligação silenciosa e profunda com os grãos: trigo,
arroz, milho, uvas, café... Cada um é um pequeno universo, uma narrativa viva
que conta a trajetória humana — dos campos antigos às mãos que colheram, das
celebrações às batalhas, da fome à fartura.
O chocolate mantém viva essa
travessia entre sujeito e mundo — vínculo indissolúvel, gesto que abre diálogo
interno e convida a habitar o instante presente.
O Mercado da Vila acolhe essa
circularidade. Cada loja é um círculo que se abre e se fecha, refletindo o
outro e criando abraços invisíveis — uma dança de aromas, sabores e memórias
que costuram uma tapeçaria coletiva, onde o individual ressoa no corpo do outro
e no tempo compartilhado.
É luxo? Privilégio? Talvez algo
maior: uma chance rara de habitar a presença. A lenda diz que, quando um pedaço
de chocolate se dissolve lentamente na boca, é possível ouvir o sussurro da
serpente emplumada — um eco antigo lembrando que os deuses ainda caminham entre
nós.
E, se esse instante vier
acompanhado do café orgânico dos Salgados, das matas brasileiras, o rito se
completa — sinfonia delicada que desperta corpo, mente e alma.
Esse é o meu momento Mercado. E o
seu?
