Do “É Minha!” ao Amortaque: Como Jovens Atletas Criam Life Skills em Cada Jogo




Do “É Minha!” ao Amortaque: Como Jovens Atletas Criam Life Skills em Cada Jogo

Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica

Em categorias de base, os campeonatos de vôlei representam muito mais do que a busca por resultados. São contextos legítimos de desenvolvimento socioemocional, onde competências como comunicação, motivação e regulação emocional se manifestam de forma intensa — especialmente durante os ralis longos, aqueles momentos em que o tempo parece desacelerar e cada ação exige leitura rápida, precisão e coragem.

A arquibancada como força emocional — seja ela a favor ou contra

Em contextos juvenis, a torcida exerce influência direta no clima emocional do jogo. Quando é favorável, fortalece a autoconfiança e oferece sensação de respaldo social. Quando é contrária, porém, pode desestabilizar atletas ainda em formação, amplificando dúvidas internas e interferindo na execução. O objetivo no desenvolvimento das competências socioemocionais não é depender da torcida, mas aprender a jogar usando qualquer torcida a favor.

Criar mecanismos internos de ressignificação é uma habilidade psicológica valiosa: transformar barulho em estímulo, provocações em foco e a vibração do adversário em energia própria. O cérebro aprende tudo — inclusive fantasiar positivamente. Assim, até aquele “virou!” da torcida adversária no momento do saque pode ser reinterpretado como “virou ponto pra nós”, convertendo pressão em potência.

Trata-se de treinar o sistema atencional e emocional para que, independentemente da fonte externa, a atleta encontre dentro de si o recurso que sustenta confiança, estabilidade e tomada de decisão.

A comunicação que sustenta o jogo

O trabalho em equipe e a comunicação são pontos críticos durante os ralis. O vôlei é um jogo de segundos, e a sustentação da comunicação ocorre em três leituras: percepção da bola, percepção das colegas e percepção da quadra adversária. É essa tríade que mantém a bola viva e cria as condições para a oportunidade ideal de finalizar o ponto.

Durante esse processo, as atletas precisam selecionar ações corretas sob estresse: levantar uma bola difícil, decidir se atacam, amortecem, passam ou apenas sustentam a jogada. A precisão dessa escolha depende de foco atencional, leitura de jogo e sincronização coletiva. Quando essa comunicação falha, a equipe não apenas perde informações: perde também tempo, espaço e, muitas vezes, o domínio emocional do ponto.

Quando a emoção atropela a técnica: o “fenômeno amortaque”

Nas fases decisivas, surgem episódios quase indecifráveis — aqueles movimentos híbridos que nem as próprias jogadoras sabem explicar. O famoso “amortaque”, uma mistura improvável de amorti com ataque, é um retrato fiel de como a emoção pode atravessar a técnica.
Assusta quem executa, surpreende quem assiste e intriga quem orienta.

Esse fenômeno revela a chamada interferência cognitivo-emocional: quando o excesso de ativação e ansiedade reduz a clareza da intenção e compromete a precisão motora. É parte natural do caminho de maturação esportiva: o corpo reage antes que a consciência acompanhe.

Os erros que também fazem parte do jogo

Nos campeonatos juvenis, é comum ver atletas:

  • acreditarem ter dito “Eu!” quando apenas pensaram;
  • não ouvirem quem gritou “É minha!”;
  • correrem para uma bola que não era sua;
  • impedirem, sem querer, a jogada da colega;
  • sentirem as pernas tremerem;
  • terem os olhos recobertos por uma fina “lâmina d’água”;
  • e, ainda assim, retomarem o foco para seguir na disputa.

Esses episódios não sinalizam falhas de caráter ou falta de preparo: são evidências de desenvolvimento. Eles consolidam tolerância à frustração, comunicação assertiva, percepção coletiva e autoconfiança operacional — aquela confiança que nasce da experiência e não apenas do discurso.

O estado de fluxo nos ralis longos

Há ainda momentos especiais — raros, silenciosos e profundamente potentes — em que a atleta entra no chamado estado de fluxo. É quando ação e atenção parecem se fundir; quando a percepção do tempo se altera e cada gesto acontece com naturalidade quase automática. Os ralis longos criam as condições perfeitas para esse fenômeno, pois exigem engajamento total, ausência de distrações e uma sintonia fina entre corpo, mente e ambiente.

Para muitas jovens atletas, experimentar esse estado é uma das formas mais significativas de autoconhecimento esportivo: elas descobrem do que são capazes quando estão plenamente presentes.

Ganhar é importante. Crescer é fundamental.

Se a maior parte das escolhas foi adequada, se a comunicação sustentou o jogo e se a motivação permaneceu estável, o placar provavelmente será favorável. Ganhar importa, claro. É parte do campeonato.

Mas campeonatos se repetem ano após ano; já as experiências — essas são únicas.

Cada rali tenso, cada decisão difícil, cada execução hesitante, cada “amortaque” improvisado, cada lágrima e cada vibração compõem um repertório emocional que acompanhará essas jovens atletas muito além da quadra. 

É nesse território de incertezas e descobertas que cada atleta se faz única. Cada uma no seu passo de desenvolvimento e coragem para seguir  — há quem desista...

E quem fica na torcida escuta cada silêncio, entre o plano e o toque, com o coração na mão.


* Amortaque: teoria que brota da quadra. Foi a palavra que a atleta encontrou para nomear o toque na bola.

Créditos de Imágem: Paula

O Jardim Feltrado da Tum Tum


 


Tum Tum 

                               

O Jardim Feltrado da Tum Tum

 Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

É sempre extraordinário conhecer pessoas. Cada ida ao mercado é um aprendizado; surpreendo-me ao perceber que o universo move retas, curvas e pequenas sinuosidades invisíveis para que eu encontre — e me encontre — nas histórias alheias.

Foi num desses domingos, no Mercado da Vila, para onde vou animada em busca de um café no Salgados, que reencontrei Tum Tum, artista de mão cheia, cheia de lã e de geometrias íntimas que se dobram e desdobram entre os dedos. Conhecera-a no último Natal, quando comprei minha flor vermelha: resistente, vital, renascida — uma flor que, para mim, encarna o espírito natalino.

Naquele dia, depois do café, deixei-me levar pelo movimento delicado de folhas de outono presas a um biombo no centro da praça. Um outono talhado à mão, mas tão verdadeiro quanto o sopro que o anima. Só a artesania paciente — friccionada em água e sabão, esfregada até cantar — faz brotar um jardim capaz de ser macio aos olhos e quente ao coração.

Tum Tum falava das andanças juvenis: o Leme, os encantos cariocas, os sonhos vividos no Brasil por uma portuguesa inquieta. Escutava-a com atenção devota, porque ali havia mais do que uma história de vida. Havia uma ligação com o simples, o sagrado, o sustentável — uma conversa que parecia germinar de dentro da própria terra. 

Então ela citou um voz de sabedoria que lhe falava na multiplicação das sementes, numa frase que ecoou também a voz dos meus que falavam sobre a vida na semente:

“Contempla o jardim... não te apresses.”

É curioso como, em diferentes continentes, crescemos sob o mesmo chamado. Eu, no sul do Brasil; ela, no sul de Portugal. Ambas atravessadas por um sonar ancestral, por uma sabedoria repetida no tempo. Uma voz que nos puxa para o chão, para ouvir o universo vibrando, a terra respirando, as folhas encerrando seu ciclo, os ramos despertando após o orvalho.

As tessituras de Tum Tum carregam esse rumor atemporal. Uma sensação de encontro com algo terno e delicado. Carrega o propósito da circularidade. O conteúdo que precisa ser aparado para que a leveza se revele. Nascem do alívio da pele das ovelhas — porque também na lã, como nos cabelos, é preciso retirar excessos para que a beleza respire.

Ela recolhe os bolos de lã e se põe a lavar, desembaraçar, pentear, desfiar, afofar. Entre espumas que sobem e descem, repete gestos quase litúrgicos. Ali, entre as águas, ela costura o sustento.

Dos chumaços recém-tosados faz brotar um quintal inteiro — e é esse quintal portátil que carrega consigo aos domingos. Tum Tum planta flores que primeiro germinam em suas retinas; e elas, viçosas, insistem em nascer.

Depois de perambular entre rotas e raízes, ela retornou ao jardim — e nele encontrou destino. Vive atenta às mudanças de estação, aos tons que se insinuam, ao gesto sutil dos ciclos naturais. Escolheu — e isso exige coragem — contemplar.

Porque é preciso maturidade para extrair flores de dentro de uma lã crua. É preciso fé para reconhecer que o belo pode ser apenas a versão polida do bruto, e que habita qualquer lugar. Flores de lã e seda nascem do investimento silencioso, do desejo de converter o monocromático em feixes de luz.

E assim, com água e sabão, fio por fio, Tum Tum compõe sua coleção de jardins possíveis — jardins que lhe nascem das palmas, atravessam a pele e se instalam na visão como quem vê detalhes de um mundo que ainda pode ser inventado. Tum Tum entrega-se à  criação de amor.

Basta passar pelo Mercado da Vila de Cascais, aos domingos, para testemunhar o instante exato em que um jardim decide nascer. 

Viva o Natal!

 @tumtum_atelier. Créditos - fotos - Alice B. Matos

Dona Flor e seu jardim

                                           
 A folha que me fez parar


       
   
   
       O outono Feltrado da Tum Tum 



Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...