A primavera da Vila






Há flores em Cascais.

Mas não surgem como decoração. Nem parecem acidente de primavera.
Há nelas qualquer coisa de estrutural, como se a Vila tivesse aprendido a respirar assim: entre cores, sal e flores abertas diante do mar.

Estão na baía, nos jardins, nos canteiros alinhados ao longo das ruas. Pendem diante da Câmara, atravessam os muros brancos, avançam sobre as esquinas. Antes mesmo de se ver a paisagem, já elas chegaram ao olhar.

E depois permanecem.

Fixam-se nas retinas de quem passa, nos reflexos das montras, nas fotografias tiradas sem grande intenção. Há flores que parecem acompanhar quem parte, como se Cascais tivesse encontrado uma maneira infalível de continuar dentro das pessoas.

A cidade muda sem parecer que muda.

Os jardins mantêm-se impecáveis. As cores sucedem-se com uma naturalidade quase improvável. Tudo parece ter estado sempre ali. Mas alguém cuida. Alguém replanta. Alguém regressa cedo, poda, limpa, rega, substitui o que o tempo levou.

E esse gesto raramente aparece.

Foi nesse intervalo — entre o que se vê e quem torna possível que se veja — que encontrei a CERCICA.

Não como explicação.
Como presença.

Um lugar onde as flores deixam de ser metáfora.
São mãos na terra. Vasos alinhados ainda húmidos. Tesouras de poda esquecidas sobre uma bancada. Carrinhos atravessando o pátio. Terra acumulada nas unhas. O quotidiano a florir diante dos olhos.

Ali, palavras como inclusão, formação, competência ou autonomia não aparecem como discurso. Aparecem incorporadas nos gestos. Na forma como cada pessoa ocupa o espaço, trabalha a terra, prepara uma muda, transporta um vaso, observa o tempo das plantas.

Só mais tarde percebi: muitas das flores espalhadas pela Vila começavam ali.

Nos viveiros.

Nas estufas.

Nas mãos de pessoas habituadas a que o mundo lhes perguntasse primeiro pelo limite, antes de reconhecer o feito.

E, no entanto, nada ali pedia contemplação ou piedade.
Havia técnica. Ritmo. Atenção à poda certa, à água necessária, ao replantio paciente das estações.

As flores que sustentam a imagem de Cascais passam primeiro por aquelas mãos.

Talvez por isso permaneçam diferentes.

Não pela espécie.
Pelo cuidado.

Estar ali é uma forma de surgir.

Fui conhecer os bastidores a convite de uma das flores — Rosa. Talvez a mais resistente entre elas, ou apenas aquela que aprendeu a permanecer. Cristina conhecia os caminhos. E, juntas, fomos atravessando o lugar devagar.

As alfazemas respiravam calor.
Os chás aguardavam poda.
Os marmeleiros apareciam reduzidos em formas inesperadas.
E um gato governava o quintal com a serenidade de quem nunca duvidou pertencer ali.

O percurso fez-se lentamente.

Primeiro os corredores. Depois salas abertas para pátios interiores, portas entreabertas, vidraças circulares por onde a luz entrava inteira. Nada parecia terminar completamente. O dentro respirava para o fora.

Os azulejos contavam fragmentos de vidas.
Havia água. Sol. Terra. Gente.

E entre tudo isso, presenças que sustentavam o espaço sem necessidade de anunciar-se: jardineiros, técnicos, parceiros, uma labradora atravessando relações com uma calma capaz de alterar o ritmo das conversas.

Ali, ninguém parecia apenas ocupar espaço.

Cada gesto transformava qualquer coisa: uma muda plantada, uma planta recuperada do excesso de sol, um novo plantio planeado, uma conversa breve junto aos canteiros da horta.

Nada era acessório.

As plantas escapavam aos limites do jardim.

Logo imaginei-as, à noite, descendo até à Vila como pequenos pirilampos terrestres.

As ameixeiras mantinham-se vigilantes. As romãzeiras abriam flores espessas. Havia amoreiras, capins altos, frutos amarelos amadurecendo discretamente entre folhas.

E as magnólias.

Vívidas.
Breves.
Desnecessárias de explicação.

Caíam no chão como quem compreende que beleza também é desaparecer.

Foi então que percebi que aquilo nunca tinha sido apenas sobre flores.

Era sobre a delicadeza invisível que sustenta um lugar.
Sobre o trabalho silencioso que permite à beleza continuar acontecendo sem menção.
Sobre pessoas que fazem existir o que, muitas vezes, a cidade apenas contempla sem perceber.

E entendi, sem procurar entender:

a primavera em Cascais não é estação.

É um lugar no Livramento.

Um gesto partilhado entre o que cresce e o que cuida. Entre o que floresce e o que permanece.

Um lugar de flores e gente.

Onde mesmo quem atravessa distraído a Vila leva qualquer coisa consigo.

Um cheiro.
Uma cor.
Uma petúnia excessivamente roxa...

E sem saber,

primavera-se.




   Uma amostra das floradas que permanecem..., pois as que descem à Vila, todos conhecem!

 


















Cartografia de um Mundo de Cegonhas

 


Cartografia de um Mundo de Cegonhas
Katia Bonfanti

Há lugares que não cabem apenas na memória — ficam no olhar, como se se recusassem a sair dele. O Algarve é um desses lugares. Não apenas pela luz que parece sempre ligeiramente mais dourada, nem pelo mar turquesa a ponto de estremecer a vista, mas por uma presença que é parte viva e concreta da paisagem: as cegonhas.

A cegonha-branca Ciconia ciconia ergue-se onde não era suposto haver vida. Torres, chaminés antigas, postes e instalações de eletricidade. Estruturas pensadas para o humano, reinventadas pelo voo. Há algo de audacioso nesse gesto: transformar os perigos em casas suspensas.

No Algarve, em alguns pontos, levantar os olhos é quase um reflexo. E surpreender-se ao encontrar ali um ninho — desmedido, feito de ramos, vento e tempo. Uma arquitetura improvisada que se tornou permanente. Pequenas cidades suspensas sobre o nosso quotidiano. Miradouros perfeitos sobre o nosso barulho, a nossa pressa e a nossa falta de contemplação.

Na infância, acreditava-se sem hesitação: a cegonha era explicação suficiente para tudo o que ainda não se compreendia. Eu acreditava que tinha sido trazida no bico até ao colo da minha mãe. E que dois anos depois voltaria, fiel a um calendário invisível, para repetir o gesto e trazer o meu irmão no dia do meu aniversário. Fui agraciada pela cegonha.

Havia nessa crença uma ordem perfeita do mundo. E, na minha vida infantil, a cegonha era um ser que habitava a imaginação e o sonho de um dia flagrar a sua chegada. Escutava a saracura e imaginava que a cegonha pudesse ter um canto assim, para anunciar que a entrega estava a chegar, mas não. Embora olhasse o céu com frequência, nunca as vi naquele Sul do Brasil.

O tempo não destruiu a imagem deste ser extraordinário. Apenas a deslocou.

Hoje, observo-as de outro lugar e com olhos poéticos. Vejo-as não como mito, mas como comunidade. E isso é o mais surpreendente.

Vejo-as aproximarem-se, ocuparem o espaço umas das outras, partilharem o ar sem pressa nem ruído. Há uma forma de convivência ali que transcende os ninhos — uma espécie de comunhão.

Há quem diga que são silenciosas. E talvez sejam. Não cantam como os pássaros que habitam os nossos imaginários de primavera. Mas falam.

Não com voz — mas com o choque seco do bico, um “clac-clac” que atravessa o ar como uma linguagem anterior às palavras. Um som breve, quase duro, e ainda assim cheio de graça e afirmação.

E é estranho como esse mínimo ruído basta para preencher o espaço inteiro onde elas vivem.

No alto, nos ninhos feitos de ramos esfiapados mas densos, o movimento nunca cessa por completo. Um corpo fica, outro parte, outro regressa. E ainda assim, tudo parece suspenso num equilíbrio natural, como se o mundo ali em cima soubesse compor os seus próprios tempos sem que alguém dissesse como.

Não sei se aprendemos com elas, ou se somos nós que lhes emprestamos sentido. Talvez nenhuma das duas coisas. Talvez apenas nos reconheçamos nesse gesto simples de permanecer — de estar, de voltar, de ocupar um lugar no alto do mundo como se ele nos pertencesse desde sempre.

O Algarve não seria o mesmo sem este voo constante sobre o quotidiano. Sem estas figuras que parecem pertencer tanto ao céu como à terra, sem escolher entre um e outro.

E talvez por isso, quando as vejo pousadas nas torres, penso que há coisas que nunca deixam de nos acompanhar. Apenas mudam de lugar dentro de nós.

Como se o nosso mundo continuasse a ser entregue — ainda — no bico de uma cegonha.

 

    Imagens: Diamantino Gonçalves,     fotógrafo e poeta     Serra da Gardunha, Fundão, Portugal Maria  da Gardunha Katia bonfanti Dize...