Cartografia de um Mundo de Cegonhas

 


Cartografia de um Mundo de Cegonhas
Katia Bonfanti

Há lugares que não cabem apenas na memória — ficam no olhar, como se se recusassem a sair dele. O Algarve é um desses lugares. Não apenas pela luz que parece sempre ligeiramente mais dourada, nem pelo mar turquesa a ponto de estremecer a vista, mas por uma presença que é parte viva e concreta da paisagem: as cegonhas.

A cegonha-branca Ciconia ciconia ergue-se onde não era suposto haver vida. Torres, chaminés antigas, postes e instalações de eletricidade. Estruturas pensadas para o humano, reinventadas pelo voo. Há algo de audacioso nesse gesto: transformar os perigos em casas suspensas.

No Algarve, em alguns pontos, levantar os olhos é quase um reflexo. E surpreender-se ao encontrar ali um ninho — desmedido, feito de ramos, vento e tempo. Uma arquitetura improvisada que se tornou permanente. Pequenas cidades suspensas sobre o nosso quotidiano. Miradouros perfeitos sobre o nosso barulho, a nossa pressa e a nossa falta de contemplação.

Na infância, acreditava-se sem hesitação: a cegonha era explicação suficiente para tudo o que ainda não se compreendia. Eu acreditava que tinha sido trazida no bico até ao colo da minha mãe. E que dois anos depois voltaria, fiel a um calendário invisível, para repetir o gesto e trazer o meu irmão no dia do meu aniversário. Fui agraciada pela cegonha.

Havia nessa crença uma ordem perfeita do mundo. E, na minha vida infantil, a cegonha era um ser que habitava a imaginação e o sonho de um dia flagrar a sua chegada. Escutava a saracura e imaginava que a cegonha pudesse ter um canto assim, para anunciar que a entrega estava a chegar, mas não. Embora olhasse o céu com frequência, nunca as vi naquele Sul do Brasil.

O tempo não destruiu a imagem deste ser extraordinário. Apenas a deslocou.

Hoje, observo-as de outro lugar e com olhos poéticos. Vejo-as não como mito, mas como comunidade. E isso é o mais surpreendente.

Vejo-as aproximarem-se, ocuparem o espaço umas das outras, partilharem o ar sem pressa nem ruído. Há uma forma de convivência ali que transcende os ninhos — uma espécie de comunhão.

Há quem diga que são silenciosas. E talvez sejam. Não cantam como os pássaros que habitam os nossos imaginários de primavera. Mas falam.

Não com voz — mas com o choque seco do bico, um “clac-clac” que atravessa o ar como uma linguagem anterior às palavras. Um som breve, quase duro, e ainda assim cheio de graça e afirmação.

E é estranho como esse mínimo ruído basta para preencher o espaço inteiro onde elas vivem.

No alto, nos ninhos feitos de ramos esfiapados mas densos, o movimento nunca cessa por completo. Um corpo fica, outro parte, outro regressa. E ainda assim, tudo parece suspenso num equilíbrio natural, como se o mundo ali em cima soubesse compor os seus próprios tempos sem que alguém dissesse como.

Não sei se aprendemos com elas, ou se somos nós que lhes emprestamos sentido. Talvez nenhuma das duas coisas. Talvez apenas nos reconheçamos nesse gesto simples de permanecer — de estar, de voltar, de ocupar um lugar no alto do mundo como se ele nos pertencesse desde sempre.

O Algarve não seria o mesmo sem este voo constante sobre o quotidiano. Sem estas figuras que parecem pertencer tanto ao céu como à terra, sem escolher entre um e outro.

E talvez por isso, quando as vejo pousadas nas torres, penso que há coisas que nunca deixam de nos acompanhar. Apenas mudam de lugar dentro de nós.

Como se o nosso mundo continuasse a ser entregue — ainda — no bico de uma cegonha.

 

Cartografia de um Mundo de Cegonhas

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