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| Tum Tum |
O Jardim Feltrado da Tum Tum
Katia Bonfanti,
psicóloga e escritora
É sempre extraordinário conhecer pessoas. Cada ida ao mercado
é um aprendizado; surpreendo-me ao perceber que o universo move retas, curvas e
pequenas sinuosidades invisíveis para que eu encontre — e me encontre — nas
histórias alheias.
Foi num desses domingos, no Mercado da Vila, para onde vou
animada em busca de um café no Salgados, que reencontrei Tum Tum, artista de mão cheia,
cheia de lã e de geometrias íntimas que se dobram e desdobram entre os dedos.
Conhecera-a no último Natal, quando comprei minha flor vermelha: resistente,
vital, renascida — uma flor que, para mim, encarna o espírito natalino.
Naquele dia, depois do café, deixei-me levar pelo movimento
delicado de folhas de outono presas a um biombo no centro da praça. Um outono
talhado à mão, mas tão verdadeiro quanto o sopro que o anima. Só a artesania
paciente — friccionada em água e sabão, esfregada até cantar — faz brotar um
jardim capaz de ser macio aos olhos e quente ao coração.
Tum Tum falava das andanças juvenis: o Leme, os encantos
cariocas, os sonhos vividos no Brasil por uma portuguesa inquieta. Escutava-a
com atenção devota, porque ali havia mais do que uma história de vida. Havia
uma ligação com o simples, o sagrado, o sustentável — uma conversa que parecia
germinar de dentro da própria terra.
Então ela citou um voz de sabedoria que lhe falava na multiplicação das sementes, numa frase que ecoou também a voz dos
meus que falavam sobre a vida na semente:
“Contempla o jardim... não te apresses.”
É curioso como, em diferentes continentes, crescemos sob o
mesmo chamado. Eu, no sul do Brasil; ela, no sul de Portugal. Ambas
atravessadas por um sonar ancestral, por uma sabedoria repetida no tempo. Uma
voz que nos puxa para o chão, para ouvir o universo vibrando, a terra
respirando, as folhas encerrando seu ciclo, os ramos despertando após o
orvalho.
As tessituras de Tum Tum carregam esse rumor atemporal. Uma sensação de encontro com algo terno e delicado. Carrega o propósito da circularidade. O conteúdo que precisa ser aparado para que a leveza se revele.
Nascem do alívio da pele das ovelhas — porque também na lã, como nos cabelos, é
preciso retirar excessos para que a beleza respire.
Ela recolhe os bolos de lã e se põe a lavar, desembaraçar, pentear, desfiar, afofar. Entre espumas que sobem e descem, repete gestos quase litúrgicos. Ali, entre as águas, ela costura o sustento.
Dos chumaços recém-tosados faz brotar um quintal inteiro — e é esse quintal
portátil que carrega consigo aos domingos. Tum Tum planta flores que primeiro
germinam em suas retinas; e elas, viçosas, insistem em nascer.
Depois de perambular entre rotas e raízes, ela retornou ao
jardim — e nele encontrou destino. Vive atenta às mudanças de estação, aos
tons que se insinuam, ao gesto sutil dos ciclos naturais. Escolheu — e isso
exige coragem — contemplar.
Porque é preciso maturidade para extrair flores de dentro de
uma lã crua. É preciso fé para reconhecer que o belo pode ser apenas a versão
polida do bruto, e que habita qualquer lugar. Flores de lã e seda nascem do
investimento silencioso, do desejo de converter o monocromático em feixes de
luz.
E assim, com água e sabão, fio por fio, Tum Tum compõe sua
coleção de jardins possíveis — jardins que lhe nascem das palmas, atravessam a
pele e se instalam na visão como quem vê detalhes de um mundo que ainda pode
ser inventado. Tum Tum entrega-se à criação
de amor.
Basta passar pelo Mercado da Vila de Cascais, aos domingos, para testemunhar o
instante exato em que um jardim decide nascer.
Viva o Natal!





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