Entre o asfalto e o Mar
Katia Bonfanti, psicóloga e escritora
Na última quarta-feira do ano, reuni pequenos fragmentos de histórias: o quadro com a arte do Palavras & Azeitonas, um enfeite de crochê de mesa carregado de memórias e umas luzes de Natal delicadamente guardadas dentro de uma garrafa. Estava com vontade de compor um pequeno cenário — algo que traduzisse o ano vivido em Portugal e em especial com as pessoas desta terra. Cada peça carrega seu tempo, suas vozes silenciosas. O crochê na mesa, em especial, já entrelaça tantas narrativas que merecem ser contadas, mas essas ficam para outro dia.
No entanto, a escrita do último encontro de 2024 será dedicado ao senhor Palma que acabo de conhecer.
Jornalista de profissão, com um passado encharcado de palavras, impressões e deadlines — como se o tempo, ao invés de escorrer pelos ponteiros do relógio, tivesse deixado marcas na ponta de seus dedos. Foi o que pensei quando vi as ataduras. Depois vim a saber que havia sofrido uma queda enquanto fazia sua corrida habitual. Ao lado de Isabel, sua esposa de gestos gentis e sorriso sereno, viva o Mercado. Foi entre o brilho do sol, filtrado por uma fina cortina de fumaça, e o burburinho das vozes ao redor, que ele começou a me contar sua história. — Uma narrativa que balançava entre o improvável e o profundamente humano, como um barco que navega entre ondas de casualidades e reflexões.
O mar, para o Sr. João, não é um cenário, é uma extensão do próprio corpo. Ele precisa vê-lo, tê-lo ao alcance dos olhos, como quem verifica o pulso de si mesmo. Residiu na Dinamarca antes do 25 de abril, depois retornou para Portugal. Paris, com suas luzes e promessas, nunca lhe acenou com fervor – nem pensar, talvez por não saber o que é ser visitada por ondas ou pelo cheiro persistente de maresia. A cidade-luz carece de um porto, e o Sr. João, mais do que portos, precisa de horizonte salgado, preferencialmente contornado por uma pista onde seus pés possam amassar o asfalto, enquanto seus pensamentos reúnem inspirações para o próximo texto.
Palma fez boa parte da vida a pé e escrevendo sobre carros. Fiquei pensando como é que alguém que não tinha interesse por automóveis, torna-se um expert em escrita sobre eles!? Irônico, destino. “Foi um acontecimento inesperado,” disse ele, com um sorriso meio encabulado, meio divertido.
Compreendi que não por paixão inicial, mas por devir, João Palma adota os carros como um de seus temas de escrita... Tudo começou em um dia ordinário na redação, quando a história de um lançamento de pneus circulava entre os jornalistas. Nenhum deles queria, ou poderia ir. Palma que na ocasião era Copy-desk do jornal o qual trabalhava falou em tom de piada: “Se ninguém quer, eu vou…” E o universo, sempre atento às ironias humanas, decidiu levá-lo a sério. Poucos dias depois, um envelope repousava sobre sua mesa. Dentro dele, credenciais para o evento. Lá foi João Palma que não tinha conexão, aparentemente, nenhuma com o tema do automobilismo, ao evento.
Aquele acontecimento, embora distante de suas paixões, revelou-se menos desastroso do que poderia parecer. Sr. João, maratonista e amante do atletismo, encontrou nos pneus uma conexão que, à primeira vista, parecia tênue, mas carregava um sentido insuspeito. Talvez fosse o aspecto simbólico que o fisgou, algo que ele jamais confessaria, mas que pairava em algum canto silencioso de sua mente: os pneus e os calçados esportivos compartilhavam uma essência quase arquetípica. Ambos eram feitos de uma mesma matéria, para percorrer distâncias, para tocar o chão com firmeza sem se deixar prender por ele. Eram objetos cúmplices do movimento, companheiros de velocidade e resistência.
Havia ali uma lógica instintiva, como se o Sr. João estivesse decifrando um enigma que não sabia ter começado a resolver. A borracha – dos tênis ou dos pneus – deveria ser de boa qualidade, durável, flexível, capaz de absorver o impacto em terrenos traiçoeiros. E ambos, sapatos e pneus, existiam sempre em pares, carregando consigo a promessa de ir além, de transcender limites.
Talvez, por isso, tenha se permitido aquele evento, uma oportunidade que chegou até ele como quem lança um anzol ao acaso. Ele foi, sem grandes expectativas, apenas para preencher a demanda, mas ao cruzar o salão repleto de pneus de máquinas velozes, algo ali se alinhou – não nos motores, mas nos ecos. Era como se, sem perceber, estivesse plantando a primeira semente de uma carreira que, na época, parecia tão estranha quanto inesperada.
Escrever sobre carros não fazia parte do plano, mas Sr. João começava a desconfiar de que a vida raramente segue mapas. E assim, como o corredor que encontra um ritmo inesperado durante a prova, ele se deixou levar. Afinal, medir passos entre a linha de partida e a de chegada, e entender o que acontece nesse intervalo, era algo que ele sabia fazer. Era isso que a escrita sobre pneus exigiria dele: traduzir em palavras o que não havia dito ou sabido. Desafiador.
Já vimos esta história nas nossas vidas, não é mesmo? Um momento torto tornando-se uma oportunidade de fazermos algo nunca imaginado. Viver com olhos para as ondas do mar e da vida nos permite fazer novos mapas. Foi esta coragem e ressonância oculta com sua essência, que levou João Palma a tornar-se um jornalista especializado na matéria. E sobre isso não foi ele quem me falou. É só dar uma busca na Net que encontramos inúmeros escritos dele. Um olhar sempre atento às ondas das criações e oscilações das montadoras de automóveis...
Brinquei que ele iniciou por baixo dos carros, ou seja, pelos pneus. E, para ser mais impactante sua relação homem-automóvel, cabe lembrar que, até os 41 anos, ele sequer possuía uma carta de condução. “Nunca achei necessário ter carro,” confessou. Contou-me sobre um pôster que seguidamente lhe capturava a atenção: "uma rua tomada por fileiras de carros, um caos ordenado", disse ele, que observava com uma mistura peculiar de fascínio e desconforto.
“Não fazia sentido para mim,” comentou, enquanto os olhos pareciam revisitar a cena do pôster. “Defendia o transporte público, acreditava no coletivo...” Havia algo quase incrédulo, mas genuíno, em suas palavras. Entretanto a vida, com sua fluidez incessante, insiste em contrariar nossos manifestos. Há no devir um pulso que desafia nossas certezas, acontecimentos que rompem as margens e exigem que aprendamos a ler o inesperado.
O destino, com sua insistência em subverter planos, fez João mudar de rota. À medida que os anos passavam e suas matérias conquistavam as páginas principais, ele finalmente tornou-se um condutor. Isabel, sua parceira de vida e viagens, não ficou imune ao fascínio discreto do universo das máquinas. Com uma paciência quase artística, tornou-se uma motorista habilidosa, embora João observasse que, para ela, o ato de dirigir não era fonte de prazer, mas os carros passaram a ser itens de contemplação.
Nossa conversa fluiu naturalmente, refletindo os muitos caminhos percorridos por João: carros, viagens, países, atletismo e, inevitavelmente, o envelhecimento. Este último ele abordou sem lamentos, com a serenidade de quem aprendeu a acolher cada etapa da vida. O envelhecimento tornou-se como um velho companheiro de corrida que, ao invés de disputar, o ensina a cadenciar os passos. Para João, uma simples corrida até a praia do Guincho transformou-se em uma pequena odisseia, plena de significado.
Mas não havia sombra de tristeza em sua voz ao narrar essa mudança. Pelo contrário, ele falava com um brilho tranquilo nos olhos, como quem encontrou um novo prazer na lentidão. Cada passo tem mais significado agora. O que antes era pressa pela chegada, pela meta, pela linha final, transformou-se em uma entrega completa ao caminho. Uma nova carreira da vida.
Por fim, contou-me sobre seu livro. Num gesto de reconhecimento e generosidade, apresentou-o como uma obra, enriquecida pelas belas ilustrações de Rodrigo de Matos. Quando insisti para que falasse do conteúdo, ele sorriu e disse: “Sabes por que usamos a expressão ‘matou a pau’? É brasileira, como muitas que escrevo no livro… tem a ver com a chegada das aves migratórias ao território brasileiro.” A lembrança dessas expressões e suas origens o levaram à obra Nem Rei nem Rock – as origens das expressões populares.
A presença de João no mercado, saboreando seu café e, simbolicamente, degustando suas conquistas, carrega uma dimensão profundamente psicanalítica do estar no mundo. Sentado na esplanada com seu charuto, ele encarna o símbolo de uma pausa ativa, onde prazer e reflexão se encontram em perfeita harmonia. João conduz sua existência como quem dirige um carro simbólico, consciente de que cada parada – como a do mercado – é tão vital quanto o movimento constante. Com isso, percebo a grande responsabilidade que é traçar linhas sobre seu percurso.
Voltei para casa com o seguinte pensamento: O importante não é o destino, mas como o transformamos em novos caminhos. Que venha o novo momento café e as fotos, porque em Palavras & Azeitonas, sempre o melhor está por vir... Viva o Mercado!
Cascais, dezembro de 2024