O Rito das Flores










 O Rito das Flores

Katia Bonfanti, psicóloga

Sou dessas pessoas que chegam devagar.
Antes de existir por completo no ambiente, observo. Depois comunico minha chegada.
No resto do tempo, acompanho o mundo com os olhos: esse modo silencioso de estar presente.

Naquele dia, vi um senhor sentado.
Diante dele, uma taça de sangria.
Ao lado, dois buquês de flores: um rosado, outro alaranjado.
O segundo, intenso e vibrante, era exatamente do meu gosto — embora ambos fossem lindos, dispostos com cuidado.
Nada parecia extraordinário, e talvez fosse isso o extraordinário: a naturalidade do gesto, o homem e as flores fazendo parte da cena como se sempre tivessem estado ali.

Ele havia chegado antes de mim ao Fundão — essa casa de café e salgados bem na praça do Mercado.
Estava ali, tranquilo, o copo à frente, como quem observa o movimento da manhã.
Eu apenas passei, cumpri meu ritual: um café rápido, algumas palavras com o Pedro, o dono, o costume de viver o espaço.

Quado me despedia, o homem se levantou.

Aproximou-se e, num inglês estrangeiro — acento de lugar nenhum e de todos — disse apenas:
“You deserve the flowers.”

E me estendeu o buquê alaranjado.
Aceitei.
Não por entender, mas por sentir que devia.

Atravessei a praça e depois a cidade com o buquê nos braços.
Nos olhos dos outros, os parabéns por alguma data qualquer.
Sorrisos, acenos, curiosidade.

Cada olhar inventava um motivo: flores para dizer estou aqui e fico feliz em ver-te.
Mas o verdadeiro motivo — se existia — só o homem sabia.

Ou talvez nem ele.

Imaginei depois que o senhor Cristian tem um ritual delicado, de uma bondade que lhe reduz os olhos.
Senta-se sempre no mesmo lugar, bebe devagar, observa o mundo passar.
Vai ao florista, escolhe uma a uma, monta o arranjo com paciência.
Depois, espera o instante — um olhar, um gesto, um acaso — e oferece.
Sem explicação.
Apenas porque algo, nele, reconhece algo no outro. 

Uma espécie de “Namastê” em forma de gesto.

Acho que foi isso que aconteceu.
Uma daquelas coincidências que o corpo entende antes da razão.
Um breve encontro de presenças — uma respiração de liberdade.
Não há como nomear — apenas sentir que, por um instante, o acaso escolheu dar-me flores.

Caminhei o resto do dia com o perfume me acompanhando.
E, talvez, tenha aprendido ali que alguns gestos — os mais silenciosos — são também uma forma de oração.

 



 







Pilu

Katia Bonfanti

Pilu aveva undici anni — già una buona età per un cane. Ma nei suoi occhi abitava ancora l’infanzia, e nei suoi gesti la gioia degli inizi. Giocava come se il tempo non avesse potere su di lui. A volte rubava le mie ciabatte: non per portarmele, ma per dirmi, in silenzio, che durante la mia assenza continuava a camminare accanto ai miei passi.

Era di Angelita, di Mário, Nicolò, Martina e Alessio ma, dal momento in cui entrò nelle nostre vite, fu anche nostro. Pilu era generoso di presenza: sapeva dividersi tra tutti, senza mancare mai a nessuno. Dove arrivava, la pace si diffondeva; dove restava, la gioia diventava casa. In lui c’era una tenerezza ferma — e, quando necessario, un’alterezza protettrice. Bastava un ringhio profondo per dichiarare: “Adesso, io mi prendo cura dei bambini.”

Pilu aveva quel dono raro di essere intero. E rimase intero fino all’ultimo istante. Si addormentò su nuvole di cotone, guardandoci ancora attraverso le fessure degli occhi, come chi lotta contro il sonno solo per salutare. Sembrava voler custodire in sé il ritratto della famiglia che tanto aveva amato — e, nello stesso tempo, lasciare nei nostri occhi il ricordo del suo amore.

Poi, serenamente, Pilu partì dentro le nuvole. Ci lasciò il silenzio dell’assenza, ma anche il dono invisibile che solo i cani sanno lasciare: un amore che non pretende nulla, che non si spezza, che resta eterno.

Bravo Pilu!



Pilu o bebè



Pilu rindo....


Pilu

Katia Bonfanti

Pilu tinha 11 anos — já uma boa idade para um cão. Mas em seus olhos ainda brincava a infância, e em seus gestos morava a alegria dos começos. Brincava como se o tempo não tivesse poder sobre ele. Às vezes, roubava meus chinelos: não para me oferecer, mas para me dizer, em silêncio, que na minha ausência ele seguia ao lado dos meus passos.

Era da Angelita e do Mário, mas, desde o instante em que entrou em nossas vidas, foi também nosso. Pilu era generoso de presença: repartia-se entre todos, sem jamais faltar a ninguém. Onde chegava, a paz se espalhava; onde ficava, a alegria se fazia casa. Havia nele uma ternura firme — e, quando necessário, uma altivez protetora. Bastava um rosnado grave para declarar: “Agora, eu cuido das crianças.”

Pilu tinha esse dom raro de ser inteiro. E foi inteiro até o último instante. Adormeceu sobre nuvens de algodão, ainda nos olhando pelas frestinhas dos olhos, como quem luta contra o sono só para se despedir. Parecia querer guardar em si o retrato da família que tanto amou — e, ao mesmo tempo, deixar nos nossos olhos a lembrança do seu amor.

Então, serenamente, Pilu partiu para dentro das nuvens. Ficamos com o silêncio da ausência, mas também com o presente invisível que só os cães sabem deixar: um amor que não exige nada, que não se rompe, que permanece eterno.

Pilu agora vive em nós — na memória suave como algodão, na saudade que nos acompanha como sombra, e no laço invisível que nunca, nunca se desfará.

Querido o Pilu!



Pilu o guardador de meias....



Pilu o guardião bem humorado...





Pilu cheio de pose...







Pilu atento....



Pilu no seu sono eterno...



Fotos by Alice, eterna madrinha do Pilu.

Gentileza – In Memoriam



Gentileza – In Memoriam

Entra como se fosse luz líquida.
Alisa os vincos das cortinas,
desata nós invisíveis no ar.
Seu toque não pesa: é vento que organiza a poeira,
mãos que redesenham o caos sem quebrar nada.

Ensina que a pedra se curva diante da água,
que o grito se dissolve quando encontra o colo,
que o cuidado é raiz subterrânea,
capaz de sustentar até os dias que desabam.

Vestida de gentileza, Ju
dava seu sorriso largo,
daqueles de espantar tristeza...
e perguntava por todos,
como quem desejava, de verdade,
que a vida estivesse em paz em cada coração.

Ju passava rápida, como quem carregava pressa nos passos,
mas nos olhos havia sempre repouso,
um brilho de mar, sereno e profundo.
Era assim: movimento e sossego no mesmo instante,
como vento que corre a balançar as margaridas do canteiro.

Parte de repente, mas não parte do todo:
Fica nos gestos, na palavra de carinho, no ligeiro piscar dos olhos-mar.

Desde que ela se foi, penso no
“habitar o coração” –
a casa onde memórias, cuidado e ternura encontram abrigo.

Alegrava-se em pensar que — em qualquer lugar — habitamos um lar dentro de nós

um espaço sagrado onde a gentileza e o amor
permanecerão eternamente vivos.

É lá agora sua morada:
não há paredes, nem riscos, nem distâncias.
Apenas recordações.

 Katia Bonfanti

Para Juliane Zimmermann Tamanini, querida, sempre em nossos corações, onde quer que esteja.

Palavras & azeitonas - Garrincha e Peixoto - Histórias no Mercado

 



Katia Bonfanti

Psicóloga e terapeuta Sistêmica

Havia uma voz, que silenciou há muito tempo. Dizia-me: dormir além de oito horas é encurtar a vida. Essa voz, talvez, soubesse do próprio fim. Morreu aos trinta e nove, e eu me pergunto se ela pressentia. O que me conforta é saber que esteve disposta a viver cada instante como se fosse infinito, numa vida finita e curta.

No último sábado, dormi além das oito horas. Cheguei tarde ao Mercado. Não que isso seja não viver, mas penso que poderia ter sentido mais o calor macio da manhã de outono, os vinte e dois graus abraçando o dia como quem segura algo precioso. As ruas já estavam cheias de gente, mãos carregando ramos de eucalipto, flores que lembram repolhos arroxeados, tulipas que se abrem como promessas sussurradas ao vento.

Tantas coisas escaparam entre os milésimos de segundos. Poderia ter sentido o perfume do pão saindo do forno de barro, ainda quente, seu vapor dançando no ar fresco da manhã. Talvez os dióspiros mais doces estivessem ali, esperando por mim, prontos para explodir em doçura. Mas é só uma questão de perspectiva, talvez de tempo. Porque, no fundo, tudo estava ali, de alguma forma, mesmo que eu tivesse chegado depois.

Quando os ponteiros do relógio tocaram onze horas e um quarto, entrei no Mercado. Encontrei o senhor Carlos despedindo-se de Pedro, o copo de ginjinha vazio sobre a mesa, um vestígio da manhã que lhe aquecia o peito. Seus olhos, esverdeados, embaçados pela idade, carregavam uma saudade velada. Ele comentou, quase casualmente, que a mulher já não conseguia andar sem perder o ar. Pequeno em estatura, mas com uma voz que ocupava os cantos, o senhor Carlos me esperava com expectativa, risonho e acolhedor.

Ele vem sempre ao Salgados do Fundão. É um hábito dele, agora também meu — parte dessa tentativa de ser inteira em Portugal. Não sou só eu. Há muitos de nós, imigrantes espalhados como frutas diversas nas bancas. Cada canto do Mercado da Vila carrega um pouco de quem somos.

Entre os cheiros de chocolate, leitão, pizza italiana e os queijos de cá e de lá, há sempre o Fundão. Na mesa alta improvisada, falamos de tudo e mais um pouco: comida, invernos, falta de ar, passados que nunca somem e futuros que não sabemos se virão.

O senhor Carlos fala muito de Garrincha. Jogou no Sporting, mas tem um amor fervoroso pelo Chelsea. Apesar de uma ligação quase fraterna com a Inglaterra, Portugal é sua casa. Mostra-me, com o entusiasmo de um menino, como gingava no campo. “Outros tempos, outros tempos! Um tempo em que o futebol era menos dinheiro e mais garra”, diz ele, com o brilho nos olhos de quem revive a glória de cada drible.

Inspirado pelo “Anjo das Pernas Tortas”, ele quase me faz ver Garrincha em campo: os movimentos imprevisíveis, o olhar astuto, a alegria de jogar por jogar. No fundo, há algo de Brasil no senhor Carlos — não só no futebol, mas na abertura calorosa para conversas e no jeito de transformar o ordinário em extraordinário.

Logo ele se despede, apressado. Diz que é hora de fazer carapaus grelhados para a companheira. Fala disso com a reverência de quem executa um ritual sagrado, pequeno, mas cheio de amor, tão essencial quanto o ar que ela luta para manter. Quando o vejo desaparecer na multidão do Mercado, algo em mim se desacomoda. Não era só ele quem voltava para casa, para o calor do fogão e a companhia de um respirar que já falha.

Era eu que ficava. Como as flores na banca, como o pão que já não está quente, como a marca de café desenhada na chávena. Olhando ao redor, percebo nos detalhes uma sutil nostalgia. Aqueles momentos haviam sido únicos. Estamos sujeitos a partidas únicas – instantes suspensos no meio da pressa do mundo.

Talvez fosse isso que ela quis dizer, tantos anos atrás, quando falou em encurtar a vida. Não era sobre as horas dormidas, mas sobre o que fazemos com os momentos que nos restam acordados. Que cada segundo possa ser infinito, porque, no fundo, ele pode mesmo ser o mais bonito.

Vamos ao Mercado!



A Serviência do Fado - Palavras & Azeitonas

 




A Serviência do Fado - Palavras & Azeitonas

Por Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica

Um dia destes, ouvindo uma entrevista em um canal de rádio de Lisboa, fui surpreendida por uma frase do entrevistado: “O fado é música que não se dança.” Não se dança?! Tenho que saber mais sobre isso? Pensei. Nem um balanço tímido, nem uma oscilação involuntária, daquelas que nascem de um pulsar compartilhado entre música e corpo? O fado, sendo emblemático e popularmente conhecido em Portugal, seria como ouvir Chico, Elis, Caetano ou Gil... sem que o corpo respondesse, ainda que num sutil bater de pés ou num rítmo dos ombros. Será possível que o fado não mova, nem mesmo, um eco nos espaços vazios dos corpos?

Perguntei-me se haveria uma função do fado para além do movimento. Um lugar que fosse mais fundo, mais próximo às frestas onde guardamos o que não se pode dizer. Há poucos dias, enquanto tomava meu café no Mercado, conheci o Sr. Rolo, um português que, em 1960 e poucos, com apenas vinte anos, partiu para a tropa, destinado a combater os chamados terroristas na Guiné-Bissau. Ele não era apenas João Manuel da Silva Rolo. Era um artista do cotidiano, “armado” de voz. Naquela Guerra, conheceu outra arma: a G3, um equipamento de combate que o acompanhava tanto quanto o peso do cansaço e do medo. Durante três anos de combate, Rolo suportou momentos que deformaram o tempo — fragmentos que, nas palavras dele, “ainda sangram, mesmo secos.”

“A Guerra é triste... muito triste.” Sua voz encolhia. “Vi coisas que demoraram muito para sair da minha cabeça. E algumas nunca saíram.” Ele mencionou copos cheios de vinagre, onde flutuavam restos humanos: dedos, orelhas... Uma memória ácida, encarnada no detalhe cruel. “Passei anos sonhando com aquilo. Minha sorte foi que os ferimentos físicos foram pequenos, queimaduras no peito, nada demais. Mas a mente é complicada. Ela não esquece.”

Há um tipo de sono que é mais profundo que o corpo, mas ainda assim mais raso que a alma. Um estado intermediário que não é capaz de amainar a mente, muito menos apagar as imagens torrentes. Para o Sr. Rolo, os pesadelos vinham como sombras tangíveis, arrastando-o para baixo da cama. “Chamava minha mãe, e ela vinha. Eu dizia: foi um sonho. Aí eu voltava a me deitar, mas o sono demorava… muito tempo, às vezes não vinha.” O Sr. Rolo, como o Sr. Alberto que conheci outro dia – que trazia nos olhos o peso do chumbo, fazem parte do quadro de guerra. Uma herança que basta estar presente, nem precisa ser no front, para ter de carregá-la para sempre.

Entretanto, entre as tragédias, o Sr. Rolo encontrava abrigo em outra arma — não a G3, mas algo mais antigo, quase arquetípico: o fado. Essa música não era apenas um refúgio, era, talvez, uma pele secundária, uma camada de veludo sobre pólvora.

Durante os anos na caserna, ele descobriu que, enquanto os companheiros passavam o copo do Morangueiro – o vinho tinto do Norte de Portugal – de mão em mão, o fado encolhia as tristezas. As notas, ao invés de fazerem os corpos dançarem, faziam-nos flutuar ao jorrar a dor pela boca. Ainda, a melodia abafava o eco das armas e, por um instante, aliviava o peso do luto pelos companheiros mortos. Tomei meu último gole de café ciente de que, em poucos minutos de conversa, o Sr. Rolo me fez entender a função do fado como ninguém. Saudades, lamentos, modas, despedidas, o mar... movem os internos e suas profundezas... eis que "a serviência do fado" se submete ao "destino."

Quando cantava, o Sr. Rolo, um homem entre a guerra e sua canção, fazia mais do que simplesmente emitir sons. Ele moldava esperanças no ar rarefeito. Sua voz não era mais que um dom, era uma ferramenta de resistência. “Eu cantava para que os outros acreditassem que iríamos voltar. Tinha que ser forte porque, ao nosso redor, a morte também era forte.” O fado o abraçava, e ele, por sua vez, abraçava os outros com a música. Esse pacto implícito entre canção e sobrevivência atravessou os anos.

O fado fora uma experiência catártica e terapêutica na guerra. Ele criava um espaço onde as dores podiam ser expressas sem vergonha, onde o peso do que foi vivido não precisava ser silenciado. Cantá-lo não apagava as memórias, mas as transformava em algo suportável. O fado agia como um ritual coletivo de cuidado, trazendo à tona o que estavam a sentir e, ao mesmo tempo, devolvendo aos homens uma centelha de humanidade que a guerra teimava em apagar.

Enfim, em meados de 1965, o Sr. Rolo retornou para casa. Sentia-se grato por estar vivo e, da mesma forma, por ter tido o fado a operar em sua vida e na dos outros combatentes. O fado era seu coração fora do peito. Foi dessa ligação íntima com a tradição – e da descoberta de que a canção era mais do que música, era companheira vital – que ele decidiu levar o prazer para o ofício. Montou uma casa de fado em Caparide, Cascais, cujas portas permanecem abertas até hoje. Perguntei-lhe se ainda cantava. Ele sorriu, misterioso, e disse que eu teria que visitar a Casa para descobrir.

Não sei se meu corpo irá tentar dançar na Casa de Fado. Não sei. Talvez nem seja essa a intenção. Mas já sei que o fado é mais do que música. Ele é o lugar onde as dores não se escondem, mas também não nos destroem. Pelo contrário.

Talvez, na Casa, eu sinta o mesmo impulso que sempre me levou a dançar ao som de Caetano ou Gil – uma música que envolve o corpo e o convida a viver a vida em sua plenitude. Quem sabe o fado, mesmo imóvel, desperte algo em mim, assim como a MPB sempre me embalou? Quem sabe...

Sábado cedo vou ao Mercado tomar o café cheio – de crema e de brasilidades, lusitano de palavras e azeitonas. Ao fim da tarde, à Casa de Fado – escutar os mistérios da tradição portuguesa em canção e destino, e ver se o fado ainda canta no peito do Sr. Rolo.




Do português para o Inglês e vice-versa: a vida é mesmo um poema em diferentes sotaques









 Palavras &Azeitonas: histórias no Mercado da Vila

Arte de Judith K. Wrigth

Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

 

O Mercado da Vila, numa manhã que misturava o rigor do inverno com a generosidade de um céu azul brilhante, negava o toque gelado do vento. O frio escondia-se nos passos enquanto o burburinho das bancas formava uma trilha sonora. Caminhava absorvendo aquele cenário até ouvir meu nome saltar da esplanada. Era Pedro acenando para que me sentasse a uma mesa com as pessoas.

Assim que nos cumprimentamos, percebi que a raridade dos momentos de miudezas, estava a se manifestar. E, o inesperado, nada banal, que minha prática no inglês seria fortemente desafiada – por nativos, mas isso era um mero detalhe. Entre capuccinos fumegantes e delícias portuguesas, Pedro anunciou com entusiasmo: “Peter é escritor e Judith é pintora.” disse ele já indo preparar outro café. Seria mesmo um encontro de miudezas essenciais para mim.

A comunicação com nativos da língua inglesa, sempre um exercício de atenção e sensibilidade, me convidava a atravessar o frágil equilíbrio entre o que se entende e o que se sente. Como psicoterapeuta, sei que as palavras, são as pontes que nos levam ao outro. Judith e Peter e eu nos entendemos na fala e em linguagem invisível, feita de pausas, olhares e gestos, a traduzir o que não poderia ser dito em palavras.

Quando nos comunicamos, não apenas trocamos ideias. Aprendemos, sobretudo, a nos entrelaçar na essência mais profunda da experiência humana. Estar ali, com os dois, ao acaso –  tão ao acaso quanto o destino permite –  foi um gesto de entrega às sensações que brotam no silêncio e na palavra, sem compromisso com a ordem ou o tempo. Apenas escrevo o que emerge, como quem apanha folhas ao vento.

Entre tantos modos de criar, o meu é seguir o rastro das emoções. Cada encontro é um mapa incerto, desenhado entre goles de café, ou de meia de leite, enquanto nos permitimos partir de um ponto qualquer das nossas vidas para desvelar quem somos.

Peter, com um sorriso tranquilo, não deixou de mencionar a forma como os brasileiros pronunciam "meia de leite" — uma suavidade que parece embalar o som. Falou também do nosso jeito de prolongar os verbos, o eterno gerúndio que flui bem em ouvidos anglófonos. Judith, por sua vez, contou-me sobre o trabalho voluntário que faz com muito gosto, ensinando inglês num projeto social em Cascais. E assim, o tempo se fez rio.

Peter riu ao dizer que, para os nativos da língua inglesa, o "está chovendo" dos brasileiros soa mais natural do que o "está a chover" dos portugueses. A língua, afinal, é um espelho de quem a vive: em inglês, "it's raining" carrega a mesma cadência simples, direta. Essas nuances abriram portas para outras lembranças.

Pensei, então, no podcast recente de Miguel Esteves Cardoso na Antena 1. Ele, com a leveza de sempre, dizia: “Adoro ouvir os brasileiros falando inglês. Eles se derretem.” E ali estávamos nós, entrelaçados por línguas, por culturas, por jeitos distintos de nomear a chuva e de beber o café, transformando o acaso em poesia, e o encontro em aprendizado.

Peter compartilhou seu percurso como romancista histórico. Ao ouvi-lo, percebi que escrever é, muitas vezes, um ato de reconstrução — como remendar a trama de um tecido desfeito pelo tempo, dando voz ao que foi calado e resgatando humanidade em meio ao caos. Lembrei das sombras dessas histórias que me acompanharam na infância, como ecos que nunca se desfazem. Hoje sei que, diante de um conflito, a verdadeira humanização pode florescer ou murchar, como uma flor entre ruínas.

O romance que escrevi — ainda guardado nas prateleiras da minha hesitação — fala de uma guerra que, como todas, dilacera a delicadeza da vida e semeia feridas que talvez nunca cicatrizem. Há algo de cruel e eterno na memória da violência, mas também uma beleza frágil no esforço de narrá-la, de dar forma ao que nos rasga por dentro.

O mais belo, contudo, foi o instante entre histórias e sorrisos: ali estava eu, tomando café com Peter V. Wright, o escritor britânico da série Lambs of War (Lost in the Shadow of Death e A Tempest of Death), e com Judith, sua mulher. Judith, com a serenidade de quem carrega mundos nos gestos, mostrou-me no celular uma de suas pinturas — uma composição que parecia tão leve quanto profunda.

Fiquei ali, imaginando como suas experiências como migrante se filtravam nas cores e nos traços. Era como se cada pincelada fosse um gesto de pertencimento, de reconstruir a si mesma no papel, tal qual as histórias de Peter davam voz ao que se perdeu. A pintura de Judith não era apenas imagem: era raiz e voo, era uma reinvenção que dizia, sem palavras, o que talvez nenhum idioma pudesse alcançar.

Por fim, nos despedimos, gratos pelo encontro. “O mercado é o melhor lugar de Cascais”, comentou Peter, com um sorriso leve, e eu só pude concordar. Ali, histórias se cruzam sem pressa, e as pessoas vêm não apenas para comprar, mas para compartilhar momentos que transcendem o trivial – como compartilhar o momento do café.

Naquele dia, àquela mesa, percebi que o cotidiano pode ser extraordinário quando nos abrimos para enxergá-lo. Há uma magia sutil no encontro, no tempo gasto sem urgência, como se o simples ato de estar presente pudesse revelar a beleza que costura os instantes da vida.

Prometi a mim mesma que mergulharia nos livros de Peter, deixando que suas palavras me guiassem através das camadas do tempo e do humano. E quando nos encontrarmos novamente no Mercado da Vila, quem sabe, talvez seja o momento de uma sessão de autógrafos, uma celebração à arte e aos encontros que nos transformam.

Porque como na rubrica Palavras & Azeitonas o melhor sempre está por vir! Salve, salve o café e o Mercado que me oportunizam tantas alegrias.

Entre o Asfalto e o Mar

    


Entre o asfalto e o Mar



Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

Na última quarta-feira do ano, reuni pequenos fragmentos de histórias: o quadro com a arte do Palavras & Azeitonas, um enfeite de crochê de mesa carregado de memórias e umas luzes de Natal delicadamente guardadas dentro de uma garrafa. Estava com vontade de compor um pequeno cenário — algo que traduzisse o ano vivido em Portugal e em especial com as pessoas desta terra. Cada peça carrega seu tempo, suas vozes silenciosas. O crochê na mesa, em especial, já entrelaça tantas narrativas que merecem ser contadas, mas essas ficam para outro dia.

No entanto, a escrita do último encontro de 2024 será dedicado ao senhor Palma que acabo de conhecer.

Jornalista de profissão, com um passado encharcado de palavras, impressões e deadlines — como se o tempo, ao invés de escorrer pelos ponteiros do relógio, tivesse deixado marcas na ponta de seus dedos. Foi o que pensei quando vi as ataduras. Depois vim a saber que havia sofrido uma queda enquanto fazia sua corrida habitual. Ao lado de Isabel, sua esposa de gestos gentis e sorriso sereno, viva o Mercado. Foi entre o brilho do sol, filtrado por uma fina cortina de fumaça, e o burburinho das vozes ao redor, que ele começou a me contar sua história. — Uma narrativa que balançava entre o improvável e o profundamente humano, como um barco que navega entre ondas de casualidades e reflexões.

O mar, para o Sr. João, não é um cenário, é uma extensão do próprio corpo. Ele precisa vê-lo, tê-lo ao alcance dos olhos, como quem verifica o pulso de si mesmo. Residiu na Dinamarca antes do 25 de abril, depois retornou para Portugal. Paris, com suas luzes e promessas, nunca lhe acenou com fervor – nem pensar, talvez por não saber o que é ser visitada por ondas ou pelo cheiro persistente de maresia. A cidade-luz carece de um porto, e o Sr. João, mais do que portos, precisa de horizonte salgado, preferencialmente contornado por uma pista onde seus pés possam amassar o asfalto, enquanto seus pensamentos reúnem inspirações para o próximo texto.

Palma fez boa parte da vida a pé e escrevendo sobre carros. Fiquei pensando como é que alguém que não tinha interesse por automóveis, torna-se um expert em escrita sobre eles!? Irônico, destino.  “Foi um acontecimento inesperado,” disse ele, com um sorriso meio encabulado, meio divertido.

Compreendi que não por paixão inicial, mas por devir, João Palma adota os carros como um de seus temas de escrita... Tudo começou em um dia ordinário na redação, quando a história de um lançamento de pneus circulava entre os jornalistas. Nenhum deles queria, ou poderia ir. Palma que na ocasião era Copy-desk do jornal o qual trabalhava falou em tom de piada: “Se ninguém quer, eu vou…” E o universo, sempre atento às ironias humanas, decidiu levá-lo a sério. Poucos dias depois, um envelope repousava sobre sua mesa. Dentro dele, credenciais para o evento. Lá foi João Palma que não tinha conexão, aparentemente, nenhuma com o tema do automobilismo, ao evento.

Aquele acontecimento, embora distante de suas paixões, revelou-se menos desastroso do que poderia parecer. Sr. João, maratonista e amante do atletismo, encontrou nos pneus uma conexão que, à primeira vista, parecia tênue, mas carregava um sentido insuspeito. Talvez fosse o aspecto simbólico que o fisgou, algo que ele jamais confessaria, mas que pairava em algum canto silencioso de sua mente: os pneus e os calçados esportivos compartilhavam uma essência quase arquetípica. Ambos eram feitos de uma mesma matéria, para percorrer distâncias, para tocar o chão com firmeza sem se deixar prender por ele. Eram objetos cúmplices do movimento, companheiros de velocidade e resistência.

Havia ali uma lógica instintiva, como se o Sr. João estivesse decifrando um enigma que não sabia ter começado a resolver. A borracha – dos tênis ou dos pneus – deveria ser de boa qualidade, durável, flexível, capaz de absorver o impacto em terrenos traiçoeiros. E ambos, sapatos e pneus, existiam sempre em pares, carregando consigo a promessa de ir além, de transcender limites.

Talvez, por isso, tenha se permitido aquele evento, uma oportunidade que chegou até ele como quem lança um anzol ao acaso. Ele foi, sem grandes expectativas, apenas para preencher a demanda, mas ao cruzar o salão repleto de pneus de máquinas velozes, algo ali se alinhou – não nos motores, mas nos ecos. Era como se, sem perceber, estivesse plantando a primeira semente de uma carreira que, na época, parecia tão estranha quanto inesperada.

Escrever sobre carros não fazia parte do plano, mas Sr. João começava a desconfiar de que a vida raramente segue mapas. E assim, como o corredor que encontra um ritmo inesperado durante a prova, ele se deixou levar. Afinal, medir passos entre a linha de partida e a de chegada, e entender o que acontece nesse intervalo, era algo que ele sabia fazer. Era isso que a escrita sobre pneus exigiria dele: traduzir em palavras o que não havia dito ou sabido. Desafiador.

 Já vimos esta história nas nossas vidas, não é mesmo? Um momento torto tornando-se uma oportunidade de fazermos algo nunca imaginado. Viver com olhos para as ondas do mar e da vida nos permite fazer novos mapas. Foi esta coragem e ressonância oculta com sua essência, que levou João Palma a tornar-se um jornalista especializado na matéria. E sobre isso não foi ele quem me falou. É só dar uma busca na Net que encontramos inúmeros escritos dele. Um olhar sempre atento às ondas das criações e oscilações das montadoras de automóveis...

Brinquei que ele iniciou por baixo dos carros, ou seja, pelos pneus. E, para ser mais impactante sua relação homem-automóvel, cabe lembrar que, até os 41 anos, ele sequer possuía uma carta de condução. “Nunca achei necessário ter carro,” confessou. Contou-me sobre um pôster que seguidamente lhe capturava a atenção: "uma rua tomada por fileiras de carros, um caos ordenado", disse ele, que observava com uma mistura peculiar de fascínio e desconforto.

“Não fazia sentido para mim,” comentou, enquanto os olhos pareciam revisitar a cena do pôster. “Defendia o transporte público, acreditava no coletivo...” Havia algo quase incrédulo, mas genuíno, em suas palavras. Entretanto a vida, com sua fluidez incessante, insiste em contrariar nossos manifestos. Há no devir um pulso que desafia nossas certezas, acontecimentos que rompem as margens e exigem que aprendamos a ler o inesperado.

O destino, com sua insistência em subverter planos, fez João mudar de rota. À medida que os anos passavam e suas matérias conquistavam as páginas principais, ele finalmente tornou-se um condutor. Isabel, sua parceira de vida e viagens, não ficou imune ao fascínio discreto do universo das máquinas. Com uma paciência quase artística, tornou-se uma motorista habilidosa, embora João observasse que, para ela, o ato de dirigir não era fonte de prazer, mas os carros passaram a ser itens de contemplação.

Nossa conversa fluiu naturalmente, refletindo os muitos caminhos percorridos por João: carros, viagens, países, atletismo e, inevitavelmente, o envelhecimento. Este último ele abordou sem lamentos, com a serenidade de quem aprendeu a acolher cada etapa da vida. O envelhecimento tornou-se como um velho companheiro de corrida que, ao invés de disputar, o ensina a cadenciar os passos. Para João, uma simples corrida até a praia do Guincho transformou-se em uma pequena odisseia, plena de significado.

Mas não havia sombra de tristeza em sua voz ao narrar essa mudança. Pelo contrário, ele falava com um brilho tranquilo nos olhos, como quem encontrou um novo prazer na lentidão. Cada passo tem mais significado agora. O que antes era pressa pela chegada, pela meta, pela linha final, transformou-se em uma entrega completa ao caminho. Uma nova carreira da vida.

Por fim, contou-me sobre seu livro. Num gesto de reconhecimento e generosidade, apresentou-o como uma obra, enriquecida pelas belas ilustrações de Rodrigo de Matos. Quando insisti para que falasse do conteúdo, ele sorriu e disse: “Sabes por que usamos a expressão ‘matou a pau’? É brasileira, como muitas que escrevo no livro… tem a ver com a chegada das aves migratórias ao território brasileiro.” A lembrança dessas expressões e suas origens o levaram à obra Nem Rei nem Rock – as origens das expressões populares.

A presença de João no mercado, saboreando seu café e, simbolicamente, degustando suas conquistas, carrega uma dimensão profundamente psicanalítica do estar no mundo. Sentado na esplanada com seu charuto, ele encarna o símbolo de uma pausa ativa, onde prazer e reflexão se encontram em perfeita harmonia. João conduz sua existência como quem dirige um carro simbólico, consciente de que cada parada – como a do mercado – é tão vital quanto o movimento constante. Com isso, percebo a grande responsabilidade que é traçar linhas sobre seu percurso.

Voltei para casa com o seguinte pensamento: O importante não é o destino, mas como o transformamos em novos caminhos. Que venha o novo momento café e as fotos, porque em Palavras & Azeitonas, sempre o melhor está por vir... Viva o Mercado!


Cascais, dezembro de 2024

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...