Vencer, às vezes, começa em confiar





  
Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26
Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé
Abi, Maria do Mar, Mia, Gabi e Teresa.


Vencer, às vezes, começa em confiar

O passo seguinte é celebrar

 Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e  escritora

Há uma equipa de meninas adolescentes que, em setembro, vivia um momento de reinício de época. Algumas chegavam com feridas ainda muito vivas de um percurso anterior duro e desqualificador. Reuniram-se em quadra cheias de medo — medo real de que tudo se repetisse, de que o esforço voltasse a doer mais do que ensinar.

As que as receberam estavam de coração aberto, mas também sem certezas. A nova temporada era um território desconhecido para todas. Era preciso reconstruir amizades, reencontrar propósitos e, sobretudo, confiar que haveria uma figura técnica capaz de conduzir o processo com sabedoria, competência e respeito, rumo ao próximo campeonato.

Chegou o dia de iniciar e conhecer o novo treinador: o Nuno Luís.

Os receios não desapareceram de imediato. Tentavam ressurgir dentro de cada atleta, cada uma com as suas histórias e marcas. Houve quem não conseguisse entrar em quadra. O corpo lembrava o que a mente ainda tentava esquecer. Permanecer na bancada, naquele momento, foi a forma possível de participar. Foi também a forma de perceber, aos poucos, que nenhuma experiência é igual e que recomeçar pode não doer da mesma maneira.

Ainda no primeiro treino já se via algo diferente nos rostos: uma certa leveza. Com leitura atenta do que se passava, o guia foi conduzindo a marcha, aproximando-se de cada uma, sem pressa. A tranquilidade instalada em quadra trouxe analgesia à atleta da bancada. O corpo começou a confiar antes mesmo das palavras.

No fim do treino, estavam todas reunidas em volta do treinador. Nos olhos, via-se a expectativa de uma temporada nutrida com o que há de mais sagrado: a alegria de fazer bem aquilo a que se propõem.

Treino após treino, a equipa foi-se entregando à proposta de procedimentos técnicos, éticos e humanos apresentada pelo Nuno. Ele tornou-se um guia como deve ser — não apenas um profissional a cumprir uma função, mas alguém seguro, firme e atento, que sabia exigir sem ferir, corrigir sem desqualificar, orientar sem perder a humanidade. Um verdadeiro propulsor de aprendizagens daquelas que, por serem profundas, seguem para a vida.

Sabemos hoje que o que verdadeiramente transforma não é a quantidade de estímulos, mas a qualidade das relações que se constroem. É nelas que nasce a segurança, a confiança e a disponibilidade para aprender.

A temporada foi curta, mas rendeu muitas vitórias. Especialmente no apaziguamento de feridas antigas. Muitas atletas aprenderam que há formas de vencer campeonatos que não passam por intervenções agressivas ou violentas. Que é possível conduzir uma equipa pelas linhas da educação positiva e sustentável das relações. Que se pode vencer jogos com técnica e estratégia sem ferir a autoestima. Que comunicar de forma clara e eficaz não exige desqualificação.

Aprenderam também que entrega, pontualidade, assiduidade e a coragem de repetir quantas vezes forem necessárias uma técnica fazem parte das ações que constroem competências reais.

Chegámos ao fim da primeira parte da temporada. Com tristeza, despedimo-nos do grande mentor. A interrupção foi inesperada e sentida. Um golpe. Mas, como tudo o que foi vivido até aqui ensinou, o que importa não é apenas o tempo que algo dura, mas o quanto nos transforma. Estabelecer novos vínculos também é preciso para crescer...

Não há dúvida de que este breve percurso permanecerá no coração de cada uma como um ponto de virada — um lugar interno de confiança nos processos e no humano que conduz a técnica.

Assim se formou um grupo cheio de valências e competências. Antes, meninas a reagrupar-se, a conhecer-se, a fortalecer-se na experiência partilhada. Agora, uma equipa competitiva, coesa e cheia de vontade de ser ainda maior.

As Juvenis do Estoril Prai Volei tornaram-se vencedoras não apenas de jogos, mas de um processo. Um processo que ensinou a confiar, a insistir, a aprender sem medo e a crescer num ambiente onde a exigência caminhou lado a lado com o respeito.

E quando se aprende assim, algo muda para sempre.


Não se volta ao ponto de partida.  Vamos celebrar esta etapa bem vivida! 

Parabéns às Campeãs Regionais.

Nossos agradecimentos ao Nuno por toda a sua dedicação e humanidade para com as nossas atletas.

 



Todos os sonhos dentro de um abraço



                                             Comemorar e despedir-se...um misto de emoções 



Créditos: Alice Matos e Ana Guimarães






 

Do “É Minha!” ao Amortaque: Como Jovens Atletas Criam Life Skills em Cada Jogo




Do “É Minha!” ao Amortaque: Como Jovens Atletas Criam Life Skills em Cada Jogo

Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica

Em categorias de base, os campeonatos de vôlei representam muito mais do que a busca por resultados. São contextos legítimos de desenvolvimento socioemocional, onde competências como comunicação, motivação e regulação emocional se manifestam de forma intensa — especialmente durante os ralis longos, aqueles momentos em que o tempo parece desacelerar e cada ação exige leitura rápida, precisão e coragem.

A arquibancada como força emocional — seja ela a favor ou contra

Em contextos juvenis, a torcida exerce influência direta no clima emocional do jogo. Quando é favorável, fortalece a autoconfiança e oferece sensação de respaldo social. Quando é contrária, porém, pode desestabilizar atletas ainda em formação, amplificando dúvidas internas e interferindo na execução. O objetivo no desenvolvimento das competências socioemocionais não é depender da torcida, mas aprender a jogar usando qualquer torcida a favor.

Criar mecanismos internos de ressignificação é uma habilidade psicológica valiosa: transformar barulho em estímulo, provocações em foco e a vibração do adversário em energia própria. O cérebro aprende tudo — inclusive fantasiar positivamente. Assim, até aquele “virou!” da torcida adversária no momento do saque pode ser reinterpretado como “virou ponto pra nós”, convertendo pressão em potência.

Trata-se de treinar o sistema atencional e emocional para que, independentemente da fonte externa, a atleta encontre dentro de si o recurso que sustenta confiança, estabilidade e tomada de decisão.

A comunicação que sustenta o jogo

O trabalho em equipe e a comunicação são pontos críticos durante os ralis. O vôlei é um jogo de segundos, e a sustentação da comunicação ocorre em três leituras: percepção da bola, percepção das colegas e percepção da quadra adversária. É essa tríade que mantém a bola viva e cria as condições para a oportunidade ideal de finalizar o ponto.

Durante esse processo, as atletas precisam selecionar ações corretas sob estresse: levantar uma bola difícil, decidir se atacam, amortecem, passam ou apenas sustentam a jogada. A precisão dessa escolha depende de foco atencional, leitura de jogo e sincronização coletiva. Quando essa comunicação falha, a equipe não apenas perde informações: perde também tempo, espaço e, muitas vezes, o domínio emocional do ponto.

Quando a emoção atropela a técnica: o “fenômeno amortaque”

Nas fases decisivas, surgem episódios quase indecifráveis — aqueles movimentos híbridos que nem as próprias jogadoras sabem explicar. O famoso “amortaque”, uma mistura improvável de amorti com ataque, é um retrato fiel de como a emoção pode atravessar a técnica.
Assusta quem executa, surpreende quem assiste e intriga quem orienta.

Esse fenômeno revela a chamada interferência cognitivo-emocional: quando o excesso de ativação e ansiedade reduz a clareza da intenção e compromete a precisão motora. É parte natural do caminho de maturação esportiva: o corpo reage antes que a consciência acompanhe.

Os erros que também fazem parte do jogo

Nos campeonatos juvenis, é comum ver atletas:

  • acreditarem ter dito “Eu!” quando apenas pensaram;
  • não ouvirem quem gritou “É minha!”;
  • correrem para uma bola que não era sua;
  • impedirem, sem querer, a jogada da colega;
  • sentirem as pernas tremerem;
  • terem os olhos recobertos por uma fina “lâmina d’água”;
  • e, ainda assim, retomarem o foco para seguir na disputa.

Esses episódios não sinalizam falhas de caráter ou falta de preparo: são evidências de desenvolvimento. Eles consolidam tolerância à frustração, comunicação assertiva, percepção coletiva e autoconfiança operacional — aquela confiança que nasce da experiência e não apenas do discurso.

O estado de fluxo nos ralis longos

Há ainda momentos especiais — raros, silenciosos e profundamente potentes — em que a atleta entra no chamado estado de fluxo. É quando ação e atenção parecem se fundir; quando a percepção do tempo se altera e cada gesto acontece com naturalidade quase automática. Os ralis longos criam as condições perfeitas para esse fenômeno, pois exigem engajamento total, ausência de distrações e uma sintonia fina entre corpo, mente e ambiente.

Para muitas jovens atletas, experimentar esse estado é uma das formas mais significativas de autoconhecimento esportivo: elas descobrem do que são capazes quando estão plenamente presentes.

Ganhar é importante. Crescer é fundamental.

Se a maior parte das escolhas foi adequada, se a comunicação sustentou o jogo e se a motivação permaneceu estável, o placar provavelmente será favorável. Ganhar importa, claro. É parte do campeonato.

Mas campeonatos se repetem ano após ano; já as experiências — essas são únicas.

Cada rali tenso, cada decisão difícil, cada execução hesitante, cada “amortaque” improvisado, cada lágrima e cada vibração compõem um repertório emocional que acompanhará essas jovens atletas muito além da quadra. 

É nesse território de incertezas e descobertas que cada atleta se faz única. Cada uma no seu passo de desenvolvimento e coragem para seguir  — há quem desista...

E quem fica na torcida escuta cada silêncio, entre o plano e o toque, com o coração na mão.


* Amortaque: teoria que brota da quadra. Foi a palavra que a atleta encontrou para nomear o toque na bola.

Créditos de Imágem: Paula

O Jardim Feltrado da Tum Tum


 


Tum Tum 

                               

O Jardim Feltrado da Tum Tum

 Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

É sempre extraordinário conhecer pessoas. Cada ida ao mercado é um aprendizado; surpreendo-me ao perceber que o universo move retas, curvas e pequenas sinuosidades invisíveis para que eu encontre — e me encontre — nas histórias alheias.

Foi num desses domingos, no Mercado da Vila, para onde vou animada em busca de um café no Salgados, que reencontrei Tum Tum, artista de mão cheia, cheia de lã e de geometrias íntimas que se dobram e desdobram entre os dedos. Conhecera-a no último Natal, quando comprei minha flor vermelha: resistente, vital, renascida — uma flor que, para mim, encarna o espírito natalino.

Naquele dia, depois do café, deixei-me levar pelo movimento delicado de folhas de outono presas a um biombo no centro da praça. Um outono talhado à mão, mas tão verdadeiro quanto o sopro que o anima. Só a artesania paciente — friccionada em água e sabão, esfregada até cantar — faz brotar um jardim capaz de ser macio aos olhos e quente ao coração.

Tum Tum falava das andanças juvenis: o Leme, os encantos cariocas, os sonhos vividos no Brasil por uma portuguesa inquieta. Escutava-a com atenção devota, porque ali havia mais do que uma história de vida. Havia uma ligação com o simples, o sagrado, o sustentável — uma conversa que parecia germinar de dentro da própria terra. 

Então ela citou um voz de sabedoria que lhe falava na multiplicação das sementes, numa frase que ecoou também a voz dos meus que falavam sobre a vida na semente:

“Contempla o jardim... não te apresses.”

É curioso como, em diferentes continentes, crescemos sob o mesmo chamado. Eu, no sul do Brasil; ela, no sul de Portugal. Ambas atravessadas por um sonar ancestral, por uma sabedoria repetida no tempo. Uma voz que nos puxa para o chão, para ouvir o universo vibrando, a terra respirando, as folhas encerrando seu ciclo, os ramos despertando após o orvalho.

As tessituras de Tum Tum carregam esse rumor atemporal. Uma sensação de encontro com algo terno e delicado. Carrega o propósito da circularidade. O conteúdo que precisa ser aparado para que a leveza se revele. Nascem do alívio da pele das ovelhas — porque também na lã, como nos cabelos, é preciso retirar excessos para que a beleza respire.

Ela recolhe os bolos de lã e se põe a lavar, desembaraçar, pentear, desfiar, afofar. Entre espumas que sobem e descem, repete gestos quase litúrgicos. Ali, entre as águas, ela costura o sustento.

Dos chumaços recém-tosados faz brotar um quintal inteiro — e é esse quintal portátil que carrega consigo aos domingos. Tum Tum planta flores que primeiro germinam em suas retinas; e elas, viçosas, insistem em nascer.

Depois de perambular entre rotas e raízes, ela retornou ao jardim — e nele encontrou destino. Vive atenta às mudanças de estação, aos tons que se insinuam, ao gesto sutil dos ciclos naturais. Escolheu — e isso exige coragem — contemplar.

Porque é preciso maturidade para extrair flores de dentro de uma lã crua. É preciso fé para reconhecer que o belo pode ser apenas a versão polida do bruto, e que habita qualquer lugar. Flores de lã e seda nascem do investimento silencioso, do desejo de converter o monocromático em feixes de luz.

E assim, com água e sabão, fio por fio, Tum Tum compõe sua coleção de jardins possíveis — jardins que lhe nascem das palmas, atravessam a pele e se instalam na visão como quem vê detalhes de um mundo que ainda pode ser inventado. Tum Tum entrega-se à  criação de amor.

Basta passar pelo Mercado da Vila de Cascais, aos domingos, para testemunhar o instante exato em que um jardim decide nascer. 

Viva o Natal!

 @tumtum_atelier. Créditos - fotos - Alice B. Matos

Dona Flor e seu jardim

                                           
 A folha que me fez parar


       
   
   
       O outono Feltrado da Tum Tum 



 

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A Menina das Bonecas

- littlecottondolls-

por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica

Às vezes a infância volta como um fio que não quer se perder.

Faz um tempo que conheci uma menina encantadora — encantada pelas infâncias e pelos objetos que nelas respiram.
Entre eles, aquele que atravessa gerações e se aninha na memória de tantas meninas: a boneca, esse pequeno corpo que acolhe o gesto, o afeto e o silêncio de quem aprende a cuidar.

Cristal é uma dessas meninas.
E talvez eu também seja, de algum modo.
Ainda gosto de bonecas — gosto da ideia de que, nelas, algo do que fomos encontra abrigo.
Algo na ordem do sentir, do emocionar-se com as coisas simples.

Às vezes penso que não a conheci;
Às vezes penso que a vi como um espelho.
A menina que vejo nela é também uma parte de mim que insiste em permanecer, que ainda gosta de bonecas, de crochê, não por nostalgia, mas por necessidade de ternura.

Cristal nasceu no Brasil, mas o tempo, com suas linhas caprichosas, levou-a a viver em Sintra, Portugal.
Não foi coincidência: o fio que os portugueses um dia levaram ao Brasil voltava agora pelas mãos de Cristal, reinventado, cheio de leveza e vida.

"O tempo se dobra nas mãos de quem sabe tecer."

As mulheres guardaram esse saber nas dobras do cotidiano, entre conversas, filhos, silêncios e afetos.
Nos fios se tecia o necessário: o pano que cobre, o enfeite que alegra, o presente que afaga.
E o invisível: o gesto que resiste, a memória das mulheres que nos antecederam, a delicadeza que se faz permanecer.

Nas mãos de Cristal, esse legado se renova.
O crochê volta a ser espaço de criação — uma forma de brincar, de continuar, de pensar com o corpo.
Pequenos mundos tecidos entre o gesto e a paciência. E mais...entre pontos, a boneca leva o que é feminino de uma geração à outra.

Às vezes penso que o fio não vem da linha — vem de dentro da pele.
Como se cada ponto fosse um pensamento que eu não sei dizer.

Conheci-a no Mercado da Vila, entre bancas de outras artesanias, vozes e cheiros apetitosos.
A menina das bonecas permanece em pé atrás da mesa, confiante, como quem traduz o mundo com uma agulha.
Há algo de comovente nisso: ver alguém tecendo presença em meio à distração, à solidão... oferecendo delicadeza onde tudo parece apressado.

Eu a olho e penso: é assim que começa o amor — quando alguém faz o simples com tanto cuidado que o mundo parece caber dentro de um ponto.

O Mercado, parece-me, é também uma espécie de colo.
Um espaço onde o que é feito com as mãos encontra quem sabe olhar com vontade de ter.
Ali, o trabalho de Cristal se inscreve como ato de permanência — uma forma de lembrar que o cuidado ainda existe, que o tempo pode ser tecido, que a criação é também um modo de se manter inteira.

Hoje, Cristal tem vinte anos.
Há quatro, vive das bonecas e sonha em ser designer.
E é fácil acreditar.
Porque quem, com um fio, cria mundos, já descobriu que a beleza também é uma forma de ser.

E eu penso, por um instante, que talvez seja isso que nos salva:
o gesto simples, o fio, o cuidado.

Vamos ao mercado tomar um café e deixar a alma brincar...

Entre o Resultado e o Processo






Há longos anos venho acompanhando treinos e jogos de voleibol. Não por acaso. Meu olhar procura o que não está explícito: observo expressões, posturas, movimentos, mudanças no ambiente e aquilo que é dito — ou silenciado — após cada jogo. É nesse intervalo entre ação e significado que o esporte revela seu potencial de desenvolvimento humano.
No jogo que assistimos no sábado, vimos um grupo com elevada organização interna e coletiva. A autonomia na tomada de decisão era visível: cada jogadora sabia o que fazer e como contribuir para a equipe. A comunicação fluía, as emoções estavam reguladas e a técnica aparecia como horizonte a ser alcançado — sequência de serviços longa, foco e confiança. Isso é resultado de treinos planejados com rigor e sensibilidade. 

O papel dos treinadores é irretocável nessa arquitetura: atentos, competentes e profundamente humanos.
Mas mesmo quando o trabalho é impecável, existem dinâmicas que escapam ao controle individual. 

Na psicologia chamamos de fenômenos grupais: movimentos emocionais que emergem quando pessoas estão juntas e que podem alterar o desempenho. Às vezes, o grupo responde mais ao clima emocional do que à intenção racional — e o jogo toma vida própria.

No dia seguinte, com o mesmo grupo e o mesmo nível de adversárias, o cenário mudou. Os movimentos perderam estabilidade, ataques saíram da quadra, a sequência de serviços se rompeu. A comunicação diminuiu e a tensão corporal foi visível.

Curiosamente, o placar foi o mesmo: 3 x 0. Ganharam mais um. 
Mas o placar não mostra o esforço emocional no jogo interno, as tentativas do treinador de estabilizar a equipe, nem o encorajamento vindo das arquibancadas.
Há uma contagem no placar e um jogo invisível acontecendo dentro de cada atleta.

Mudanças no ambiente — piso mais macio, altura do ginásio, bola diferente e torcida barulhenta — afetaram a percepção de controle das atletas. Quando a sensação de segurança diminui, surgem tensão e hiperalerta. Em situações de pressão, o cérebro prioriza sobrevivência, não performance; o corpo reage antes da técnica aparecer.

A percepção de capacidade pessoal tem papel central: quando a atleta acredita que consegue, aumenta o foco e a tomada de decisão. Além disso, o rendimento depende de autorregulação — planejar, monitorar e ajustar ao longo da ação. Quando a atenção é capturada por estímulos externos, a execução técnica perde qualidade.

Essas oscilações fazem parte do desenvolvimento: revelam fragilidades e abrem espaço para aprendizagem.

 O esporte expõe. E educa.

Vencer nunca é consequência de um único elemento. É o resultado do equilíbrio entre fatores físicos, técnicos, emocionais e ambientais. Os jogos são laboratórios de experiência: cada ponto oferece dados para autoconhecimento e maturidade esportiva.

O placar mede pontos, não mede evolução.

“Não sei como… correu mal… não encaixava… me sinto mal”, disse uma atleta.

É o relato de quem está falando do jogo interno. E o processo exige diferenciar autoestima de autoaceitação. A autoestima oscila conforme o desempenho; a autoaceitação sustenta a atleta mesmo diante do erro. 
Ela permite errar, ajustar e continuar com disciplina e foco.

O foco no processo, no aprender e no evoluir constrói autonomia emocional.

A pergunta não é “ganhamos ou perdemos?”, mas: “o que aprendemos hoje?”

É nesse pequeno intervalo entre o ontem e o hoje que se constrói o desenvolvimento.

Porque o esporte é isso: um laboratório vivo da experiência humana.

Isa e a travessia do Tejo

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 O Set Invisível — Episódio 1 

Por: Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica 

Histórias de atletas, treinadores, equipas e famílias que aprendem a co-regular-se e crescer juntos dentro e fora do desporto.

 Isa e a travessia do Tejo

No comboio entre Lisboa e Cascais, encontrei a Isa. Uma aprendiz de Voleibol, que viaja quase todos os dias para treinar.
16 anos, mochila grande, sorriso luminoso — daqueles que iluminam o corredor do vagão. Sentou-se ao meu lado e com alegria narrou suas travessias.

Todos os dias ela "transpõe" o Tejo:
autocarro → barco → comboio → autocarro.
Duas horas até chegar ao treino.

Jogou quatro anos em um clube na suas região, onde aprendeu muito do que sabe. 

Isa tem convicção de que novos desafios impõem crescimento, decidiu buscar um novo clube. Poderia ter escolhido um clube mais perto.
Mas não.
Escolheu o Estoril Praia Voleibol. Horas de distância da sua casa.
Escolheu sair da zona de conforto porque algo lhe diz que isso a fará crescer. 

Estudante, Isa traz consigo os manuais e TPCs para fazer enquanto se desloca  — Acostumei-me. Disse sorrindo.

Valorizar todas as horas, saber se organizar no tempo e nas tarefas, mesmo quando está nos transportes  a faz crescer. Gestão de tempo e desenvolvimento de atitude frente a vida também é uma competência desenvolvida pelo desporto. Isa já percebeu que não basta jogar bem, precisa dedicar-se às demais dimensões da vida com empenho. Nenhum sucesso vem por acaso.

Viajar é seu plano, mas ter êxito na vida escolar também faz parte do plano. Ajudar nas tarefas da casa e dar atenção a família também fazem parte da sua carreira. Uma carreira tem muitas fazes e Isa está atenta. É ao mesmo tempo analista e trabalhadora nos pilares do seu futuro. Não que seja fácil, nem que isso não lhe custe horas de sono, momentos em família,  diversões que talvez gostasse de ir...mas o desporto é caminho, e é a partir dele que se organiza.

No início da época, fez um acordo consigo mesma:
“Se eu for, vou inteira.”

O treino dela começa antes de tocar na bola
Quando ela pega a mochila, fecha a porta de casa, e confirma, de novo, a decisão — mesmo cansada, mesmo quando o dia pesa. Sim. Há dias que tudo fica mais difícil e se chover "canivetes", Isa fica em apuros. Tem vontade de sair mas receio de nào conseguir chegar à tempo.

Há dias em que o corpo não acompanha a vontade.
O serviço não entra.
O ataque sai torto.
O silêncio entre um erro e o próximo parece enorme.

E é ali — entre o erro e a próxima tentativa — que Isa entende quem está a formar-se. Porque  o aprendizado com excelência, muitas vezes, vem sustentado por uma lista de tentativas que não deram certo. 

Ela sabe que melhorar depende de tentar. Então, respira. Ajusta o olhar.
Pergunta a si mesma: “O que posso fazer diferente agora?”
E tenta outra vez. Isso não é só persistência. É autorregulação.

O desporto nào é sobre nunca errar, pelo contrário. Evoluir passa por observar-se, ajustar-se, receber feedbacks e continuar.

Isa tem sonhos grandes à realizar e tem juventude para realiza-los. E o interessante de ter feito um dos percursos com a Isa foi perceber que ela entendeu algo maior — que muitos adultos ainda estão em busca de entender — que o esforço em fazer bem feito só pode ser dela, mas a coragem é construída com o outro. Está aberta a fazer parcerias a receber apoio de seus treinadores, de suas colegas de Clube e da vizinhança que estiver por perto. Um apoio encoraja e é sempre bem-vindo.

Claro que nada disso reduz o tempo nem a distância para chegar em no pavilhão. A força e a determinaçao precisam ser dela.

E em troca Isa ganha:

Clareza.
Coragem.
Consciência de quem está a tornar-se.

Então, todos os dias de treino, quando chega à estação de Cascais, Isa está prestes a iniciar um set que não aparece na ficha de jogo — o set do empenho e do compromisso.

Um set que não aparece no marcador.
É o Set Invisível — aquele que ela vence por dentro.























O Rito das Flores










 O Rito das Flores

Katia Bonfanti, psicóloga

Sou dessas pessoas que chegam devagar.
Antes de existir por completo no ambiente, observo. Depois comunico minha chegada.
No resto do tempo, acompanho o mundo com os olhos: esse modo silencioso de estar presente.

Naquele dia, vi um senhor sentado.
Diante dele, uma taça de sangria.
Ao lado, dois buquês de flores: um rosado, outro alaranjado.
O segundo, intenso e vibrante, era exatamente do meu gosto — embora ambos fossem lindos, dispostos com cuidado.
Nada parecia extraordinário, e talvez fosse isso o extraordinário: a naturalidade do gesto, o homem e as flores fazendo parte da cena como se sempre tivessem estado ali.

Ele havia chegado antes de mim ao Fundão — essa casa de café e salgados bem na praça do Mercado.
Estava ali, tranquilo, o copo à frente, como quem observa o movimento da manhã.
Eu apenas passei, cumpri meu ritual: um café rápido, algumas palavras com o Pedro, o dono, o costume de viver o espaço.

Quado me despedia, o homem se levantou.

Aproximou-se e, num inglês estrangeiro — acento de lugar nenhum e de todos — disse apenas:
“You deserve the flowers.”

E me estendeu o buquê alaranjado.
Aceitei.
Não por entender, mas por sentir que devia.

Atravessei a praça e depois a cidade com o buquê nos braços.
Nos olhos dos outros, os parabéns por alguma data qualquer.
Sorrisos, acenos, curiosidade.

Cada olhar inventava um motivo: flores para dizer estou aqui e fico feliz em ver-te.
Mas o verdadeiro motivo — se existia — só o homem sabia.

Ou talvez nem ele.

Imaginei depois que o senhor Cristian tem um ritual delicado, de uma bondade que lhe reduz os olhos.
Senta-se sempre no mesmo lugar, bebe devagar, observa o mundo passar.
Vai ao florista, escolhe uma a uma, monta o arranjo com paciência.
Depois, espera o instante — um olhar, um gesto, um acaso — e oferece.
Sem explicação.
Apenas porque algo, nele, reconhece algo no outro. 

Uma espécie de “Namastê” em forma de gesto.

Acho que foi isso que aconteceu.
Uma daquelas coincidências que o corpo entende antes da razão.
Um breve encontro de presenças — uma respiração de liberdade.
Não há como nomear — apenas sentir que, por um instante, o acaso escolheu dar-me flores.

Caminhei o resto do dia com o perfume me acompanhando.
E, talvez, tenha aprendido ali que alguns gestos — os mais silenciosos — são também uma forma de oração.

 



 

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...