Luisinha
Quando as Festas do Mar vêm fechando o verão, ainda vemos os
sinais dele por todo o lado. Mas o que chega mais presente são os aromas da
uva.
Cheguei ao Mercado da Vila e fui andando pelas bancas de
frutas. É sempre ali que primeiro percebo a mudança.
Os idiomas se cruzam entre as bancas. O calor ainda está
presente. Há o movimento de quem pega, paga, leva. Vozes que se sobrepõem,
sacos que se enchem, frutas que mudam de mãos.
E eu olho para as cores.
A paleta das bancas começa a mudar. Algumas cores ainda
resistem ao verão; outras chegam mais densas, mais terrosas.
Estamos à porta da última vindima no Mosteiro de Santa Maria
do Mar. E tudo isso vai nos preparando, devagar, para o que vem depois.
A 25 de Abril já começa a ganhar outros tons. Os plátanos
ainda guardam as folhas, mas algumas já apontam, discretamente, para onde
caminham os dias.
Os figos surgem primeiro verdes. Depois, bem ao fim, chegam
os grandes e avermelhados — e já sabemos que serão os últimos.
Depois, para encontrarmos o pingo de mel, só mesmo no banco
do Sr. Joaquim.
No Mercado da Vila pode-se viver um pouco de tudo, até
nostalgia. E, para isso, as uvas são especialistas.
Caixas de uvas brancas, verdes, pretas, graúdas, miúdas...
uvas, uvas.
Uvas viram passas e nós seguimos a beber o nosso café em
diferentes temperaturas. Hoje, ainda encalorados; logo estaremos envolvidos em
cashmere e capas de chuva, e o café vai ganhando o sabor dos tempos. O de hoje
só tem sabor a agora.
Observo: a infância não quer saber disso.
A Luisinha, aos dois anos e meio, surge na minha mesa
tomando seu sumo de frutas da estação, como se o verão não tivesse fim. Comer a
empada, nem tanto. Mas os sumos sabem bem.
Consegue mobilizar muitos olhares e muitos braços para o seu
pequeno-almoço. Entre goles e “trincadas”, fez sua refeição, enquanto o pai e o
tio se revezavam para servi-la.
Sem saber, iam imprimindo nela os sabores daquela estação.
Por fim, entregou-se ao pastel de abóbora e queijo de cabra
da Serra da Estrela.
A Barsha voltou ao café depois do nascimento do Miguel.
Passou um ciclo longe, floresceu por lá e voltou mãe, com um sorriso ainda
maior. Ciclos dentro de ciclos.
E eu, depois de andar por entre frutas, vozes e o tempo,
acabo sempre na mesa azul, tomando um café e tecendo palavras.
Somos sempre outros a olhar novas vindimas.
E as uvas nunca me abandonam — às vezes chegam até com as
picadas das abelhas.
Kátia Bonfanti