por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora
Sempre acreditei que café e
chocolate conversam entre si — um aquece, o outro acaricia. No Mercado da Vila,
falava sobre o café das matas de Minas Gerais quando Estella, apreciadora do
café do Pedro tanto quanto eu, se aproximou e disse:
— Vou te apresentar o melhor chocolate do mundo.
E assim, entre o aroma do café e a promessa do cacau, começou a travessia.
No ventre fresco da loja Diogo
Vaz, o aroma da torra do cacau suspira no ar — um convite à experiência
inteira. Entre barras, nibs e grãos torrados, o chocolate se revela como um
rito discreto: não apenas alimento, mas promessa de encontro. Uma pausa na pressa
do dia para ouvir a própria alma.
Mas afinal, do que é feito o
chocolate? Não é só mistura de açúcar e cacau. Cada barra guarda uma genealogia
— uma terra, um clima, um cuidado — que entra pelo paladar e se espalha em
sensações, sinapses, alegria.
Estella abre essa porta com
naturalidade. Com a doçura que só o chocolate sabe ensinar, ela nos leva a
caminhar entre cacaueiros, dedos mergulhados na terra fértil de São Tomé,
deslizando por postais vivos onde o sol equatorial pinta memórias. É a estrela-guia
que conecta o Mercado da Vila à ancestralidade pulsante — guardiã de uma
passagem entre mundos, entre o visível e o invisível.
Entre as criações da casa, há uma
que pede silêncio: a linha Ôrihanga. Preparada para rituais de conexão, ela não
é apenas chocolate — é pausa e presença, convite para atravessar a si mesmo. No
primeiro toque, o amargo testa o paladar; depois, cede espaço à doçura, como
quem abre um caminho interno.
O chocolate Diogo Vaz, vindo
dessa terra viva, traz o pulso do solo vulcânico e a umidade do trópico. É
memória que ecoa o que os povos mesoamericanos chamavam de árvore sagrada
plantada no coração da Terra.
São mais de 420 hectares de
floresta, silenciosos guardiões dessa dádiva. A linha Ôrihanga, cujo nome evoca
rito, não é só sabor: é dobra do tempo. O amargo primeiro testa o paladar para,
depois, revelar sua doçura — uma lição que o corpo entende sem pressa, e a alma
reconhece como reencontro.
No moinho da minha infância, as
pedras moíam grãos e histórias ao mesmo tempo — camadas do passado embalando o
presente. Sempre tive uma ligação silenciosa e profunda com os grãos: trigo,
arroz, milho, uvas, café... Cada um é um pequeno universo, uma narrativa viva
que conta a trajetória humana — dos campos antigos às mãos que colheram, das
celebrações às batalhas, da fome à fartura.
O chocolate mantém viva essa
travessia entre sujeito e mundo — vínculo indissolúvel, gesto que abre diálogo
interno e convida a habitar o instante presente.
O Mercado da Vila acolhe essa
circularidade. Cada loja é um círculo que se abre e se fecha, refletindo o
outro e criando abraços invisíveis — uma dança de aromas, sabores e memórias
que costuram uma tapeçaria coletiva, onde o individual ressoa no corpo do outro
e no tempo compartilhado.
É luxo? Privilégio? Talvez algo
maior: uma chance rara de habitar a presença. A lenda diz que, quando um pedaço
de chocolate se dissolve lentamente na boca, é possível ouvir o sussurro da
serpente emplumada — um eco antigo lembrando que os deuses ainda caminham entre
nós.
E, se esse instante vier
acompanhado do café orgânico dos Salgados, das matas brasileiras, o rito se
completa — sinfonia delicada que desperta corpo, mente e alma.
Na vastidão do Planeta, a América,
no extremo do país continental, o Sul,
em seus seios, uma serra trespassada de história,
sobre ela, vinhedos,
e embaixo deles, o domingo inteiro,
entre o Planeta e o vinhedo,
balançando o passado em aroma,
repousa o olhar. (Habitar, Katia Bonfanti, 2022)
Imagem: Vinhedo da família Giordani – Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, RS.
Dia ensolarado no Vale da Serra, início de tudo. O ambiente é vivo e cartografado pelo verde das matas, onde as falas se interpõem com as mãos. Profusão da linguagem dialetizada. Mistura da italianidade com o sulista brasileiro: uma aposta que deu certo, mas não sem muito trabalho.
A abertura do país aos italianos tinha propósitos: povoar os vazios da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e incrementar a produção de alimentos. Os italianos, que sofriam com guerras, crises econômicas e fome — que assolava até os interstícios da alma — viram no Brasil a chance de preencher também os seus próprios vazios. Vieram ao Sul com a promessa de terras agrícolas. Navegaram em busca da fortuna — sorte.
Compuseram na América as primeiras Colônias Imperiais, por volta dos anos 1870. Trazer à luz essa trajetória é reverenciar a herança cultural que pulsa na alma de tantas cidades do Sul e de outras regiões do país.
A Serra Gaúcha foi o atracadouro de sonhos de famílias recém-desembarcadas. O encontro com a terra íngreme e desconhecida exigiu força, fé e resiliência. Para os solteiros, trouxe também o encontro com o amor.
Milhares de italianos trouxeram suas tradições, povoaram colônias com famílias numerosas sustentadas pela fé. Trabalhadores incansáveis, fizeram do solo de pedregulho la vita fortunata. Há quase um século e meio, os descendentes traduzem esses sonhos em vivências e memórias. Vemos na Serra Gaúcha uma cultura única, fortalecida pela língua criada na interação: o talian.
Ao adentrar as cidades com alma italiana, percebemos a tradição nos sabores, nos gestos, nas orações. Adoramos as festas, especialmente a vindima — a colheita. O trabalho vem na medida da gratidão e do gozo. Os perfumes reconectam à vida no sem-fim entre o planeta e a plantação. Os parreirais, como terraços de esperança, frutificam e adoçam os imaginários. Ao pegar o cesto de vime, dois continentes se ligam. As uvas, em seus inúmeros sabores, pendem sobre olhares perplexos. O ontem se apaga. Só importa o agora.
Minha avó dizia que a vindima suscitava o amor — baseava-se no aumento de nascimentos nove meses depois, mas isso fazia parte do seu anedotário. Pensando bem, faz sentido. A colheita é mesmo a festa do amor.
Os italianos migraram com amor à pátria, embora fossem filhos órfãos. Recriaram seus modos de viver nas colônias: trabalhavam, rezavam, festejavam e amavam. Organizavam os talhões com sabedoria: nas partes altas, os parreirais; nas baixadas, os trigais; entremeados, as ervilhas e o milharal. A polenta era essencial.
Iniciavam no nível do chão. E a partir dele, cresciam.
Sem a coragem dos antepassados, hoje não teríamos a vista dos vinhedos. Apesar das secas, a festa da colheita está garantida. Grupos andam sob o lençol verdejante em pleno fevereiro escaldante. O frescor vai além do clima. É leveza que se sente no encontro com as raízes. Conhecer as origens dá identidade. A cultura se transmite nos gestos, aromas e modos de fazer, mesmo sem instrução formal.
O vinho é mais do que bebida. É ligação cultural. Mesmo quem não o aprecia, reconhece seu valor. Os italianos, ao chegarem, não encontraram ouro nas árvores — mas o fizeram surgir. Engarrafaram o ouro. O vinho ganhou o mundo. Apostaram no espumante — enfrentando França e Itália com o brilho próprio da Serra.
Fortuna aqui não é riqueza, mas fazer a sorte: entrelaçar trabalho com fé e perseverança.
Os ítalo-brasileiros elevaram a produção a escala global. Mas crescer exige rever os planos. Preservar tornou-se urgente. Desenvolvimento não pode custar a finitude da cultura ou da natureza. Sem fachadas históricas, sem produção artesanal, sem festividades — corremos o risco de perder a identidade. Deixar a cultura morrer é negar a ancestralidade. É ter o vazio de volta.
Todas as culturas importam. Aqui, celebro a italiana por estarmos comemorando um século e meio de história. Reafirmar valores culturais é dever de quem descende dessa tradição. Somos produtos perfeitos da nossa cultura. A italianidade que vive em mim me torna quem sou. Visitantes das cidades colonizadas por essa alma “estrangeira” são, por instantes, acolhidos por vinhedos, sonhos e ancestralidades. Trocas culturais revelam: quem é o outro? Quem sou para ele? Quem somos todos?
Viva as trocas culturais. Viva a italianidade que habita em nós — falante, barulhenta, incansável, rezadeira e amorosa.
Na sequência... uma história que iniciou com a chegada do imigrante Roberto Bonfanti, meu bisavô, à Serra Gaúcha em outubro de 1912. Permaneceu até 1931, desenvolvendo atividades na queijaria que inaugurou em Bento Gonçalves. Depois, interessado em produzir farinha e energia elétrica, migrou para outras águas no Norte do RS.
Algumas fotos abaixo incluem a primeira represa da Serra Gaúcha, em Guaporé (1920), retrato de Roberto Bonfanti e Maria Letícia Chini Bonfanti. Casarões de Bento Gonçalves e Garibaldi. O moinho e a igrejinha construídos entre 1931 e 1937, no interior de Constantina, RS. A mudança teve o objetivo de encontrar, no Rio Lajeado Grande, água capaz de gerar energia elétrica para o casarão e movimentar o moinho. Sonho que deu certo e iluminou, em 1938, o pequeno Vale Bonfanti.
Reliquias do baú da nona Maria Letícia... livro de 1911, presente trazido da Itália pelo nono Roberto
Maria Letícia Chini e Eu
Parte do altar da igreja de 1937
O velho moínho contruído em 1931
Sabi(a) - vida
Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica
E sobre o repouso eterno da ave, surge a rosa da cor da plumagem do peito de Adrio.
Eis que a força depositada na terra é mais poderosa do que a genética da flor. Filha de uma roseira cor-de-rosa, ela se rende ao encanto-matiz do sabiá madrugueiro. A rosa expande suas pétalas imitando o peito do cantador. Logo abaixo, na haste da suave alaranjada, balança a pluma de uma ave. Surge leve, porém arrebatadora, como emblema — ou lápide: aqui canta o sabiá. E ainda, faz saber que a partida de Adrio passa a ser meio; o quintal, cheio; e o coração, alegre, por ver que a terra, ao consumir o canto, resplandece em flor.
Adrio faz parte do meu quintal — amor lido nas entrelinhas da vida. Por onde quer que eu ande, meu quintal vai comigo. Não falo apenas de um chão. Refiro-me a um quintal vasto, de tantas vozes, composto por séculos de vivências. Nele residem a infância, a cooperação, a alegria, a curiosidade, o medo, o luto (as perdas que fortalecem e reforçam o amor à vida). Vivem no meu quintal os sonhos, a esperança, tantas manifestações de afeto, pessoas queridas, fantasmas conhecidos, a criação e, também, algum deslustro. Vive ali a história (viva) dos meus antepassados, o legado dos recomeços, o estrangeirismo que me permite pertencer e não pertencer (tanto no aspecto intra quanto intersubjetivo) aos quintais que se apresentam — inclusive àquele que chamo de meu. Porém, eu não sou sem o quintal que me habita.
Desde as primeiras memórias de infância, o “estrangeiro” compõe o meu quintal. Ao refletir sobre minhas vivências, confabulei com o “estrangeiro”, vesti-me de questões históricas e outras míticas. Vivi um tempo ancorado no passado. Cantei do alto do pé de caqui: "...eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar..."
Folheei meus dias em recontos que ocorreram décadas antes do meu nascimento. Isso porque meu processo de subjetivação se deu em uma bolha na qual tudo se assemelhava na mesma medida em que causava estranheza — porém, estruturava o meu vir a ser. Salve o “estranho” que se fez caminho.
O curioso, ao se viver em uma bolha cultural de alta preservação de costumes, é que o presente surge tonalizado pelos antepassados e, embora atual, preserva o pigmento rosa-choque — o mais antigo dos pigmentos. Assim, sentia-me conectada a outros quintais (inclusive os geográficos). Eis o estrangeirismo pulsante: os objetos, as vozes, os lenços de cabeça, as fornadas coletivas, as visitas das quartas-feiras ao cemitério — tudo com o propósito de manter a transmissão.
Rituais que, despretensiosamente, alimentavam o “estrangeiro” também produziam desejos e planos futuros (ainda mais ligados ao passado e ao território de origem da cultura). Os filós e as rezas dos fins de tarde embrulhavam o barulho das pedras do moinho, o cheiro da madeira serrada, os parreirais, o aroma do mosto e o parmigiano (que imitava o reggiano) — parte identitária da cultura, que não subtraía das crianças a identidade máxima: o vinho diluído, bebido como refresco.
E o maior constituinte: o amor à natureza da vida — de todos os tipos de vida.
Essas e tantas outras memórias, somadas à companhia permanente dos “velhos sábios”, compõem os livros da minha biblioteca interna — o tal quintal. Nada, nunca, removeu do presente a vivacidade do passado, pois ambos convivem em interface: movem as mós produtoras de realizações, da criatividade e dos suspiros.
Envolta em similaridade e estranheza, cresço parceira do “estrangeiro” — aquele que, voluntariamente, dedica-se ao processo identificatório e contra-identificatório, que permite que alguma diferença se instaure e escreva um novo traçado.
É sabido que o conceito de “estrangeiro” é amplo, e também pode ser um olhar segregado, que rege sentimentos de amor e ódio diante do não reconhecimento de si no outro.
Mas não é sobre isso que escrevo.
Neste fragmento, falo do “estranho” que faz morada em meu ser. Aquele que me permite conviver com Adri(os) e Ameli(s), com rosas e gentes, com impressões e inventos, com realidades e finais.
Quantos quintais moram em mim? Não sei de fato. Só sinto que são tantos. Ainda bem!
Dessa forma, posso seguir a passos com o “estrangeiro” — aquele que também carrego no olhar, que me permite refazer o traço, avançar ou recuar. Recuar é um treino antigo e sempre se manifesta diante de situações ameaçadoras. Nem sempre é possível fazê-lo a tempo — mas eu tento.
Quando o “estrangeiro” demora a se manifestar, meu risco de envolvimento com algo ainda mais “estrangeiro” é maior — mas nunca aniquilador. Resiliência e generosidade são ativos importantes. Ademais, avanços e retrocessos me interessam. São analisadores eficazes para viver com intensidade e alegria esta “uma vida” somente minha.
Importam ainda mais quando se sabe que a vida é breve, é passagem.
Que a terra transforma em flor aquilo que recebe.
E que tudo recomeça na primavera com um novo canto, em um memorável quintal.
E sobre ter um milhão de amigos?
Eu tenho amigos valiosos, com quintais que transbordam afetos e cantorias.
Sei que, mesmo longe, brindaremos cada palavra solta ao vento, pois a vida é sábia — ensina que:
“O Amor não se Lê” sem um nível de estrangeirismo e dedicação.
Arrivederci!
Katia Bonfanti
Eu Sabi-á
Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica
O quintal acordou mudo. Mutismo esperado depois do declínio de Adrio — o Sabiá-Laranjeira, cantor do amor e das primaveras. Adrio, com seu peito laranja ferruginoso, arrebatou o coração de Ameli, antes mesmo de setembro chegar.
Os dois enamorados começaram a trabalhar pela existência. Ela buscava o graveto e ele tramava. Depois, ela na tramada e ele revoava ligeiro, retornando com fiapos de folhas secas e galhinhos. Por fim, trazia uma espécie de cordão gramado com o qual alinhavavam com dedicação o ninho-lar. Bicos feitos agulhas levavam e traziam o arremate da obra. Franjas e pontas soltas acompanhavam o movimento da paisagem. O acabamento sofisticado sustentava-se sem nós. Uma artesania primorosa no tempo mundo passarinho — instante que se gastava sem fim.
Revezavam-se na tessitura do seguro ninho. Toda a edificação passareira fora feita na alamanda do gazebo, alinhada à vista da varanda. Casal iluminado de pássaros. E se fosse somente de ver a animação, mas quem tem a sorte de vizinhar com um lar de sabiás aprende que a proximidade transmite paz, melodia e encanto. Há quem se desconforte? Já ouvi dizer que sim, mas aí não é problema dos sabiás.
Habitantes de um mesmo quintal, em um vasto jardim compartilhado — humanos, aves e outros seres — descobrimo-nos pares: eu escrevo e eles cantam. Em (en)cantos e rimas nos entendemos. Somos tão natureza e diversos, experimentadores, corajosos e também frágeis, cada um em seu tamanho e re-verso.
Nas tramas, ciscos e ritmos contratamos tão bem que Adrio, por vezes, sente-se convidado a entrar na casa. Aprecia juntar os farelinhos de pão deixados pelos curumins após o café da manhã. Algumas vezes perde-se e precisa de ajuda para revoar ao ninho. Ameli fica assustada, saltita impaciente no barrote do gazebo chamando Adrio para fora. Depois, no ninho, dá sermão. Passado o estresse, ambos se embalam feito frutas nos galhos do limoeiro — mantra de relaxamento conjugal.
Aliás, sobre limões: um modo bem italiano de comemorar bons momentos e deixar o pensamento voar. Cercar-se dos aromáticos sicilianos e de boas companhias. Italianidades transmitidas pelo quintal das memórias. E, os sabiás aprendem, ou somos nós que aprendemos com eles.
Salvo alguns sustos, o nosso pequeno pomar urbano sempre prezou pela harmonia e a boa convivência entre insetos, animais e plantas. E, no amarelo dos limões, sendo pássaros ou gente, encontramos um sedutor convite à descontração.
Adrio sabia se divertir no galho e no chão. Confiava indiscriminadamente na segurança do território, por conta disso minha casa era também seu ninho. Ameli não vacilava, sabia que onde vive um cão reside um risco. Prudência de fêmea!? Pode ser! Mas a presença do cão deixou de ser ameaçadora depois de um tempo. Cão e sabiá estavam amigos. Caminhavam juntos no quintal, um decifrando o outro. Embora com alguma distância, pareciam aproximados. Características de dois seres desenvolvendo uma relação.
Mas, como a natureza tem regras próprias, e às vezes indecifráveis, o cão instintivamente investiu sobre a ave. Não sei se para brincar como faz com os bichos de pelúcia, ou para saber de que material seria Adrio feito por dentro — ou queria roubar-lhe o canto? Não sei! Num vacilo de Adrio e uma distração minha, enquanto ele ciscava no pedrisco, veio o golpe. Voei sobre o bicho peludo, aflita.
Cheguei tarde demais. Ao ser largado pelo cão, Adrio soltou um som — não era canto, nem grito, nem pio — quem sabe um gemido. Peguei-o na mão com zelo e tristeza. Encorajei-o a viver. Seus olhos exalavam finitude. Meu coração havia sido perfurado por aquele ato instintivo do cão e Adrio tremia como pluma ao vento, com as asas desalinhadas, as pernas sem força e, de dor, emudecido. Cocei-lhe as plumas da cabeça a perguntar:
– O que foi, meu passarinho? Diga-me o que devo fazer para te devolver sem dor ao ninho? Você é uma alegria nesse pomar. Fique aqui, meu cantador, nosso pássaro do amor!
Ameli, que enxergara a cena de cima, voou pra mais alto e somente depois se aproximou. Revisou as penas no pedrisco, veio bem perto e mirou-o como quem examina a ferida. Adrio sacudiu as asas e a cabeça. Ameli emitiu um pipilar e depois se foi. Voou até sumir no azul. Não sei se irá retornar ao ninho, sem seu amor de passarinho.
Eu e ele ficamos com o fantasma da passagem, aquele que avança dentro de um trem sombrio, sem sabermos se no fim da escuridão haverá luz. Tentei abrir algumas janelas, encontrar saídas... Nada. Adrio iria atravessar a escuridão na minha companhia, mas era apenas sua a treva da finitude.
Adrio me olhava terno, sem queixas e sem horror. Estava seguro aos meus cuidados, mas seus ferimentos o condenavam. Certo que sim. Não aceitou beber nem comer. Nenhum farelo de pão, nem a fruta amassada pareciam do seu cardápio. Isso nunca acontecia. Entendi que o fim do passarinho passava antes pela renúncia dos prazeres — à Ameli, ao canto, aos adocicados sabores — e em dano a tudo o que há de belo, manter-se-ia a seco, como a dor.
Que triste vê-lo partir... Mas é apenas um passarinho!? Não, não é só um passarinho. É uma vida — toda, de passarinho. Momento tecido no quintal e na memória. Não é somente sobre um passarinho: é sobre um modo de viver, de olhar para o entorno e de respeitar quem e o que coabita.
Hoje eu escrevi só. Nenhum canto e nada no ninho. Ameli não retornou. Nenhum outro sabiá cantou. Meu quintal está sem Adrio na maestria. A qualquer dia o quintal será palco para outras cantorias. Eu sei. Por agora, rascunho de par com a sábia natureza, que guarda pelo madrugueiro cantador. Cessa o canto, não a inspiração! Assim, a morte se inscreve na vida, talvez não com a leveza das penas de uma ave, mas como meio sublime de dar passagem a uma vida.
Amanhã será outro dia. A terra onde dormirá o sabiá será um local de entrega e aconchego. Também gratidão. Sobre ela plantarei uma roseira miúda que crescerá com viço e alegria. De toda sorte, na próxima primavera, se não ouvir o canto, ao menos rosas alaranjadas haverão de brotar no meu quintal, e quem sabe, Ameli venha nos visitar.
Por um sabiá-laranjeira que nunca teve medo de se aproximar e conviver! Ele ensinou, com sua presença, que pertencer ao planeta é diferente de dizer que o planeta nos pertence.
Katia Bonfanti
Um quintal com limões, sabiás e inspirações...
O Desporto como Caminho para o Bem-Estar Infantojuvenil
Por Katia Bonfanti
Psicóloga Sistêmica
Certa tarde, ao repousar o olhar
na Alameda, observei minha filha e meu filho brincando de futebol. Sob o sol
dourado que tingia os sorrisos, eles corriam com um grupo de amigos, dez
crescidinhos disputando a bola como quem corre atrás de sonhos. Das janelas dos
prédios, alguns senhores assistiam, torcendo com os entusiasmos de quem
acompanha uma final de campeonato - e quando brincam uniformizados com suas
camisas do Pirâmides Futebol Clube, mostrando que a identificação importa.
Havia ali uma comunhão de desejos, disposição e estratégias. Um jogo do
brincar, que faz crescer. Um momento de alegria e efervescência entre as
crianças e os adultos a gesticular nas janelas, como se o desporto fosse um
laço invisível a unir gerações e tecer vínculos que fortalecem a convivência. Aquele instante efêmero me fez
refletir sobre a grandiosidade das experiências que o desporto oferece. Não só
às crianças, mas a todos nós, em qualquer fase da vida e em qualquer
perspectiva, nos relacionamos com o desporto. Para os infantes é ainda mais
potente. É nesses espaços que nascem ambientes que acolhem e fazem florescer o
desenvolvimento infantil, onde o lúdico e o físico se encontram com o emocional
e o social. Onde a técnica se mescla com a composição física definindo lugares
e desenvolvendo um refinamento das habilidades. Alguns no centro, outros no
ataque, outros na defesa... todos pelo grupo. Cada um encontra ali um papel,
um lugar possível de pertencimento. Sou mãe de duas crianças curiosas
e em constante descoberta — um movimento que observo com encantamento e escuto
com a escuta atenta que a clínica me ensinou. Após duas décadas estudando os
processos de aprendizagem, reconheço no desporto um espaço que integra corpo,
mente e vínculos. O desenvolvimento infantil se revela nas relações, nas
experiências múltiplas que, mesmo distintas, se complementam e se entrelaçam. Vivemos um tempo em que o
bem-estar infantojuvenil precisa ser colocado no centro das prioridades. As
diretrizes da UNICEF destacam a importância de ambientes que favoreçam o
desenvolvimento saudável das crianças — e o desporto se apresenta como uma ferramenta
valiosa nessa missão. Alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
(ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, ODS 10 – Redução das Desigualdades), o esporte
carrega o poder de transformar, integrar e formar. Como prática coletiva, ele
ultrapassa os limites do campo físico: influencia vínculos, constrói
identidades, regula emoções e reverbera nas dinâmicas familiares. Nós, educadores e pais, temos o
dever de observar atentamente o que envolve nossos pequenos. Não apenas seus
movimentos físicos, mas também as práticas e estratégias às quais são
submetidos. Que o desporto seja um campo fértil, onde o crescimento emocional
se mistura à superação de limites. Que o reforço positivo seja um solo propício
à autoconfiança e ao reconhecimento do próprio valor. Cada elogio sincero, cada
vitória, por menor que seja, enraíza neles a certeza de que são capazes. Como
uma planta que se inclina para o sol, eles crescem em direção à sua melhor
versão. E fazem isso na relação com os outros — com os treinadores, colegas,
cuidadores — porque o reconhecimento não é apenas individual, é construído em
rede. Se no futuro o desporto profissional fizer sentido, em todos os
aspectos podem, por escolha, seguir caminho. Mas, por hora são crianças
crescendo e se reconhecendo sujeitos. Isso já é tudo. Entretanto, há um alerta: o
excesso de competição pode ofuscar essa luz. Gerar sofrimento. A busca
desenfreada por troféus muitas vezes oculta o valor dos objetivos do desporto
na infância e na adolescência – o processo de desenvolvimento de cada um que se
desafia nos treinos, das mãos que encorajam o outro no calor de uma partida, da
socialização que se dá nas entrelinhas de uma jogada. Há, sim, uma vitória mais
duradoura que qualquer medalha: o companheirismo. Nos olhares cúmplices e nas
palavras de incentivo entre as crianças, o desporto se revela um espaço de
aprendizado profundo sobre colaboração, respeito e, principalmente, sobre si
mesmas. Ali se constroem espelhos relacionais, em que cada criança aprende
sobre o outro e, ao mesmo tempo, sobre si. Vejo que quando meu filho, ao se
preparar para ir ao treino de futebol no clube, canta, assovia, arruma
cuidadosamente a mochila e sempre diz alguma coisa relacionada a sua
expectativa ou uma pequena resenha do treino anterior com entusiasmo. Este
envolvimento leve e alegre diz muito do que ele está vivendo e construindo
nestes encontros onde ele e os amigos correm com uma bola com o objetivo de
balançar a rede da equipe oponente, quando venceram todos os obstáculos. E nem
sempre é possível. Ao lidar com as emoções – seja a
frustração de uma derrota ou a euforia de uma vitória – as crianças aprendem a
arte da regulação emocional. Ambientes que abraçam, que entendem o erro como
parte do processo, cultivam resiliência. E isso vai além do jogo. Elas
tornam-se mestres de si mesmas, capazes de lidar com desafios não só no
esporte, mas na vida. Quando um sistema reconhece o valor do erro como etapa
de aprendizagem, ele se torna um espaço de crescimento afetivo. Por outro lado, ambientes
punitivos sufocam o crescimento emocional. A crítica destrutiva, a palavra
agressiva, o olhar repressor de um treinador, pode apagar aos poucos a chama
que há dentro do aprendiz. Marca indelével na autoestima de um infante. Infelizmente,
isso ainda é comum, como uma sombra que ronda muitos espaços desportivos. Ao
ferir a autoestima, cria-se cicatrizes invisíveis que podem acompanhar a pessoa
por toda a vida. A saúde mental fragilizada, a ansiedade, o medo do fracasso –
tudo isso nasce a partir de um ambiente hostil. E esse sofrimento não é
isolado — reverbera no sistema familiar, escolar, emocional da criança. É imperativo que o desporto seja,
antes de tudo, um espaço de acolhimento. Que ele seja gerador de afetos, de
integração, de resiliência e sim, de respeito com o aprendiz. Um lugar onde a
criança, ao se relacionar, sente-se segura para explorar suas potencialidades. Porque
crescer é também ser visto, validado e acolhido nos vínculos que se estabelecem
com o outro. Porque quando o medo é deixado à porta, o desejo de participar
nasce naturalmente, e o desporto se torna um encontro producente, fértil em
aprendizado e desenvolvimento. Cascais, adota o programa da
UNICEF, "Cidade Amiga da Criança", entendendo que as políticas
públicas podem criar ambientes onde as crianças florescem. Não apenas no
desporto, mas em todas as áreas que envolvem o desenvolvimento saudável – educação,
cultura, saúde, participação cívica. Porque não há futuro saudável e
sustentável se nossas crianças forem submetidas a ambientes adoecidos. A
sustentabilidade da vida, está em promover saúde e bem-estar, cuidando das
pessoas e do ambiente onde coabitam, para que no futuro possam disfrutar de
harmonia e equilíbrio. Quando a cidade olha para a criança como parte
central do sistema que deseja transformar, ela planta sementes duradouras. Somos todos Cascais e temos o dever de intervir para assegurar o bem-estar das crianças. Tal como aquele dia na Alameda,
em que as gargalhadas das crianças brincando reverberavam nos corações dos
adultos, o desporto nos ensina que ele vai muito além do campo de jogo. Ele
constrói laços, ensina valores, promove a saúde mental. E nós, como educadores
e cuidadores, temos o compromisso de garantir que esses espaços sejam refúgios
seguros e acolhedores, onde cada criança possa não apenas correr, saltar e
jogar, mas também crescer emocionalmente, desenvolver sua autoestima e, acima
de tudo, ser feliz. Que o desporto, assim, seja mais
do que uma competição. Que seja, acima de tudo, um caminho para a vida. E
que neste caminho, cada criança seja reconhecida não como parte isolada, mas
como ser em relação — porque é nos vínculos que se fortalecem as possibilidades
de existir.
A Liderança In-Visível
Por Katia Bonfanti
O que é uma liderança invisível?
Quando pensamos em liderança, é comum imaginarmos alguém no
comando — uma figura central que orienta, toma decisões, organiza o caos. Mas,
e se a liderança mais potente fosse justamente aquela que se dissolve, que
aparece apenas quando precisa, e some quando o grupo já pode andar com as
próprias pernas?
As metáforas e padrões na natureza nos surpreendem por
trazer modos de funcionar tão fascinantes que nos ajudam a pensar sobre os
sistemas humanos. E um dos exemplos mais fascinantes vem dos cupins.
Sim, os cupins.
Por trás de estruturas impressionantes como os cupinzeiros —
com câmaras climatizadas, canais de ventilação e cultivo de fungos — não há um
líder visível. As “ordens” estão implícitas no funcionamento. Isso acontece
porque eles operam em sintonia com o ambiente, guiados por sinais sutis, como
feromônios. Eles não comandam — percebem.
Nas equipes humanas de alta performance, há algo semelhante.
Quando cada pessoa sabe o que precisa ser feito, sente confiança para agir, e
reconhece o momento certo de intervir, a engrenagem coletiva gira com leveza.
Não há movimento ligada a um cérebro apenas, portanto não há paralisia por
dependência. O grupo avança como se respirasse junto.
Mas isso não surge por mágica. A autonomia precisa ser
arquitetada e cultivada. Ela nasce num ambiente onde há espaço para errar,
aprender e testar. Onde há clareza de propósito, segurança psicológica e
relações baseadas na confiança. E é justamente aí que entra o papel do líder:
criar esse tipo de ambiente.
Líderes que compreendem isso não têm medo de desaparecer.
Eles sabem que o verdadeiro impacto da liderança está em torná-la dispensável
para o que já foi construído. E essa é, talvez, a liderança mais forte que
existe: aquela que forma pessoas capazes de liderar a si mesmas.
Mihaly Csikszentmihalyi chama isso de flow — o estado de
presença plena, em que as pessoas estão tão imersas em suas tarefas que o
desempenho atinge níveis extraordinários. Equipes em flow não esperam ordens:
elas se movem como um corpo só.
Cupins não falam. Não fazem reuniões. Não precisam se
alinhar por e-mail. Ainda assim, a cooperação é impecável. Que sabedoria
extraordinária. Como conseguem?
Bem, eles respondem a sinais. Sentem o que o ambiente pede.
E ajustam suas ações a cada nova exigência.
Isso também se vê em times maduros. A comunicação se torna
quase invisível. Um gesto, um olhar, uma pausa já dizem muito. Há uma
inteligência sutil em ação, que não depende do discurso, mas da percepção.
Essa é a verdadeira inteligência coletiva: quando o saber
não está concentrado em uma pessoa só, mas distribuído pelo grupo, vivo nas
relações, nas entrelinhas, nos silêncios. Difícil? Em parte, sim. Mas, se os
cupins conseguem, para quem tem linguagem, como nós, torna-se desafio possível.
E o preparo do líder será fundamental
Um bom líder não está interessado em centralizar. Está
interessado em libertar. Em formar pessoas tão boas no que fazem que, em algum
momento, não precisem mais dele. E isso não é perder espaço — é expandir
presença.
Liderar, nesse nível, é preparar o terreno e depois sair do
caminho. Não para abandonar, mas para confiar. Para permitir que o grupo ganhe
seu próprio ritmo, sua própria bússola.
E agora me diz: sua equipe pratica a liderança compartilhada?
Mas, e o medo de o líder desaparecer — e o apego ao
controle?
Claro, nem todo líder está pronto para isso. Existe, muitas
vezes de forma inconsciente, um medo de deixar de ser necessário. Um receio de
que, ao incentivar a autonomia, ele perca sua posição, seu prestígio, seu
"lugar no sistema".
Líderes mais autoritários tendem a formar equipes
dependentes. Não por maldade, mas por insegurança. É o que a psicologia chama
de apego inseguro: uma dinâmica em que o vínculo é baseado na necessidade de
controle, na reafirmação constante do valor pessoal através da autoridade.
Nesses casos, o líder precisa estar em tudo, aprovar tudo,
acompanhar tudo, bravejar, ameaçar... manter o centro em si, o tempo todo. E,
sem perceber, enfraquece o próprio time. Porque uma equipe que não pode se
mover sozinha, que não encontra seu próprio centro e ritmo, nunca amadurece.
Por outro lado, líderes com um estilo de apego seguro — mais
bem resolvidos emocionalmente, mais confiantes internamente — não se sentem
ameaçados pela autonomia do grupo. Pelo contrário: eles desejam isso. Eles
querem ver o time fortalecido. Sabem que sua liderança será ainda mais presente
quando não precisar estar visível, pois estará intrínseca nos elementos do
grupo.
Essa é a liderança que permanece, mesmo quando não está.
Porque não se apoia na autoridade, mas na influência. Não se afirmar pelo
poder, mas pela confiança que inspira. Isso vem com o tempo, quando os grupos
amadurecem, quando a hierarquia vai dando lugar à colaboração. As decisões são
compartilhadas e a liderança deixa de ser um cargo e passa a ser uma função que
qualquer um pode exercer, conforme a situação. Aquela premissa de assumir o
lugar de autoria e colaboração.
É um pouco a cultura dos bandos – de pássaros, onde a
liderança se torna algo fluido. Um conduz em um momento, outro conduz depois.
Todos contribuem para puxar o bando e formar uma linha de voo. Se há um líder
intrínseco? Provavelmente há. Mas ele esteve bem envolvido em definir a direção
e a estratégia, permitindo ser o voo uma liderança compartilhada
E isso só é possível porque a liderança original — aquela
que começou o processo — teve coragem de permitir a colaboração de cada um
quando este um se sentiu inteiro para liderar. De confiar. De soltar o controle
para dar lugar à autonomia.
No fim, liderar não é estar no centro. É ser semente. É
deixar algo de si em cada pessoa, de tal forma que sua presença e
direcionamento continue se manifestando e se reelaborando nas decisões do
grupo. Ela se espalha como o cheiro invisível que guia os cupins: não está mais
concentrada, mas distribuída. Não tem voz, mas move. Não tem dono, mas pulsa
viva dentro do sistema.
A liderança que se dilui no grupo, não morre. Ela se
transforma em instinto coletivo. Uma presença que permanece, mesmo quando já
não é notada. Quando isso acontece, o estilo do líder virou a cultura da equipe
— ela multiplica-se.
Palavras & Azeitonas
Katia Bonfanti
psicóloga e escritora
A chuva do 08 de março parecia querer demarcar sua própria história! O céu, coberto por um manto cinza, revelou apenas breves frestas de azul, como se tentasse abrir janelas para a chegada da primavera. Mesmo com o céu fechado e o tempo nublado, não desistimos do Mercado, nem do momento do Palavras & Azeitonas.
Do meio da esplanada, aproveitando a estiada, apareceu Pedro, trazendo uma bandeja repleta de copos vazios – muitos já haviam bebido "um copo". A frase, inesperada, tomou conta do meu pensamento, como um assovio fino, vindo da própria experiência de mudança, de migração, de transição.
Imigrar, pensei, é como aprender uma nova linguagem para aquilo que já conhecemos. A mesma palavra, mas com novos significados. Lembro da primeira vez que ouvi “vamos beber um copo” – naquele momento, imaginei algo amplo, impreciso, como uma promessa feita no ar. O copo poderia ser qualquer coisa – vinho, água, ou até mesmo silêncio – que sacia algo mais profundo.
O que significa “beber um copo”? E o que é “uma mão cheia de nada”, uma expressão que ouço muitas vezes, e que, de alguma forma, surgiu no meu pensamento enquanto eu olhava para os copos na bandeja. Os líquidos haviam sido bebidos, mas a mensagem permanecia inscrita em cada um deles, sob a forma de uma fina espuma, prestes a se desfazer ...
Minha filha costuma pedir o seu suco, laranja com cenoura. Para ela, o gesto é quase instintivo – apenas dizer "um sumo" e esperar que a mágica se realize. Ao receber o suco, embora não perceba, tem uma mão cheia de tudo. O sabor não é só uma mistura de frutas; é uma conversa íntima com suas emoções e expectativas. Ela bebe com a leveza de quem ainda está descobrindo a si mesma, sem pressa de crescer, sabendo que o único compromisso de amanhã é o jogo de vôlei. Naquele copo, há uma alegria açucarada, um vigor que reflete a juventude que, como o suco, flui sem reservas. Um gozo espontâneo que transita entre o prazer imediato e a promessa do futuro – como um delicado rito de passagem que começa com o sabor e segue pelas sensações a incrementar as memórias daquele momento. Satisfação e prazer que pareciam emergir da relação com o líquido do copo.
Em contraste, outra bandeja de copos vazios. O dia cinzento parecia chamar mais atenção para aqueles pequenos rituais, como se o próprio ato de consumir se tornasse uma forma de nutrir algo mais profundo: uma necessidade de cor, de vitalidade, de repouso. Talvez o clima tivesse amplificado a busca por calor, ou talvez fosse a psique humana, que encontra consolo na doçura e no frescor, mesmo nos momentos mais opacos. Pedro, atento, comentou que os pedidos de suco estavam em alta – e de fato, a entrega de mais uma caixa de laranjas só fazia confirmar a tendência.
Gosto de pensar nas emoções que orbitam nossos contatos com as coisas e o mundo: as sensações, as memórias e as emoções que os alimentos carregam. Gosto dessa viagem sensorial, especialmente quando envolve sabores recém-colhidos da terra. Quanta informação nos chega às veias a partir deles! Quanto podemos conhecer de nós e de nossa ancestralidade ao observarmos nossas escolhas gastronômicas. Somos agentes históricos, percorrendo trilhas de sabores e texturas e, quando nos damos conta, estamos revisitando nossas experiências.
Eu aprecio mercados de hortifrúti. Essa ligação com o que é fruto de colheita familiar está entranhada em minhas memórias. Lembro-me de todos os estágios da flor do morango e do sabor ácido-adocicado da fruta, mas, mais do que isso, é a alegria de encontrar as frutas maduras sob as folhas, ao lado do meu irmão, que me faz sempre voltar ao sabor. Nossos pequenos tesouros. Nossa felicidade clandestina. Assim, eu poderia falar de cada fruta que escolho.
Então, aqueles copos todos foram escolhidos por razões que a própria razão desconhece. O que leva alguém a optar por determinado sabor? Seria apenas um desejo momentâneo ou algo mais profundo? Fiquei imaginando todas aquelas variações de sucos e os possíveis aportes afetivos e emocionais que o sabor trouxe a quem o escolheu.
A expressão "beber um copo" é cheia de significado, e o copo, na verdade, é apenas simbólico – o que importa, de fato, é o líquido. O copo contém, mas também limita. Ele é um recipiente de vontades, uma borda entre o querer e o ter. E, naquela viagem pelas minhas ideias, me deparei com Bauman e sua teoria da modernidade líquida. Ele fala da fluidez das relações, da impermanência dos laços. Assim como o líquido se adapta ao recipiente, também nós tentamos nos moldar às circunstâncias.
Enquanto desenrolava esses pensamentos, chegavam mais pedidos de suco. Um jovem, que parecia ter chegado de uma corrida, pediu suco de cenoura, laranja e gengibre – talvez buscando energia e frescor. A outra pessoa que veio com ele pediu suco de maçã verde – um sabor ácido e leve, quem sabe desejando algo revigorante, mas sutil. Era copo, era líquido, mas, na verdade, era muito mais do que um copo cheio de suco. Era o que cada um precisava para se recompor ou compor seu estado “líquido” subjacente.
Aquele que somos em nossa essência. Nossos internos, emocionais, liquefeitos, medos constantes, sonhos... Somos, ao mesmo tempo, navegadores e náufragos, tentando encontrar um equilíbrio entre a necessidade de estabilidade e a inevitável impermanência das coisas. Entre goles e escolhas, somos todos líquidos, tentando conter nossas incertezas em copos frágeis. Navegamos entre o que queremos ser e o que somos, ora correntezas, ora portos, sempre tentando encontrar onde repousar, sendo fluxo.
Bauman nos provoca: como sustentar um propósito em um mundo onde tudo se desfaz antes mesmo de se firmar? Como ancorar o sentido em algo que, por natureza, não se fixa? Talvez a resposta não esteja em resistir à fluidez, mas em aprender a dançar com ela. Em fazer do efêmero um aliado, em valorizar o instante não apesar de sua transitoriedade, mas justamente por causa dela. Criar laços que, ainda que líquidos, tenham a densidade daquilo que importa.
Nada melhor do que um copo de sumo, espesso e vibrante, para desacelerar a urgência que nos atropela. O suco, com sua doçura líquida, escorre pela garganta e impõe um breve silêncio ao tempo. É um intervalo, um respiro no meio do caos, uma proteção em dias sombrios.
Seu sabor terreno reconfortante é um atalho para memórias, uma soma calórica que chega ao espírito. Talvez seja essa doçura imediata, pronta para ser sorvida sem esforço, que remonte às nossas primeiras experiências de conforto: o leite materno, o primeiro contato com o sabor, o primeiro aprendizado de que o mundo pode, sim, ser adocicado, emborao ácido ressalte...
A chuva retornou, fina e persistente. Mas, no entremeio dessa cortina úmida, as mãos se erguiam cheias de tudo: copos repletos de sensações, transbordando momentos, cheios de sabores – pequenos refúgios que o dia exigia. Cada copo, um reflexo de uma necessidade invisível, um prazer, um afeto a ser encontrado, um ato de cuidar de si. Beber um sumo numa manhã chuvosa é se reconectar com o que há de mais simples e genuíno em nós. É um instante de plenitude disfarçada de cotidiano. Um gosto onde conectar-se aos sabores torna-se um copo cheio de memórias e essências!