A Vênus de Santo Antônio
Katia Bonfanti, Psicóloga, Terapeuta Sistêmica e poeta do cotidiano
Palavras & Azeitonas
Costumo ir ao Mercado da Vila de manhã, mas, numa dessas semanas, só me restou o fim de tarde de sábado. Foi um fechar de dia surpreendente. Assim que cheguei, deparei-me com as bancas dos artesões locais: muita arte e uma rica variedade de artesanato. Foi impossível não parar para admirar as criações da Santa Ideia, uma coleção sofisticada tanto no feitio quanto nos materiais. Tudo feito pela brasileira, agora tão portuguesa, Vênus.
Ela estava no momento de encerrar sua jornada do dia, mas, para minha sorte, aceitou sentar-se comigo para uma taça de vinho e uma degustação de algo especial. Conversamos sobre tantas coisas que, ao final, sugeri, em segredo, a Santo Antônio que presenteasse Vênus com uma surpresa. Afinal, ela é encantadora e merece ser surpreendida pelo casamenteiro.
Vênus vem da terra do sol, onde a luz ofuscante carrega dentro de seus prismas intensidades que só o tempo e a mística podem revelar. O divino e o humano seguem entrelaçados, compartilhando complexidade e mistério ad aeternum. Foi sob essa claridade tremulante do Ceará que nasceu Maria Vênus, uma menina miúda com um destino traçado à mão pelos seus ancestrais.
Vênus tornou-se uma grande mulher. Carrega em si o brilho quente e enigmático do planeta que lhe dá nome. Assim como o astro, ela é envolta em mistérios, vestida de nuvens densas que escondem tempestades de paixão e silêncios de fogo. Seu magnetismo é irresistível—quem se aproxima sente o calor de sua presença e a intensidade de sua essência. Vênus tem a capacidade de nos consumir com suas belas histórias, algumas sacras, outras bem vividas.
Tal como o planeta gira ao contrário, dançando em um ritmo só seu, Vênus não se curva às órbitas previsíveis do mundo. Escolhe seus próprios caminhos, ama com a fúria de um sol aprisionado e queima ilusões com sua luz dourada. Recria a sua realidade em arte. Admirada à distância, desejada de perto—Vênus não pertence a ninguém, exceto a si mesma.
A vida, como costuma fazer com quem carrega o brilho de um planeta, mas ainda não sabe, não lhe foi generosa nos primeiros atos. Apresentou-lhe desafios em horas impróprias, desmoronou seus alicerces e testou sua fibra. Mas Vênus, desde pequena, já desmontava o mundo ao seu redor com as mãos para reconstruí-lo sob uma nova forma. Detalhista, inventiva, carregava o requinte de quem sabe que cada miçanga, por menor que seja, tem um papel a cumprir no bordado da existência.
Amava o Ceará, mas, por mais vasto que fosse, era pequeno para suas aspirações. A menina-mulher precisava de mais mundo, de mais espaço para estampar sua marca na arte-vida. O destino, sempre com seu jeito misterioso de agir, abriu-lhe um oceano e a fez aportar em um novo país. Portugal, com seu ar provinciano e acolhedor, ofereceu-lhe as oportunidades que a pequena cearense transformou em degraus.
Para quem não conheceu Vênus, esta é a chance de adentrar o universo de uma mulher vivaz: artista plástica, empreendedora, visionária, imigrante. Nos meandros mais profundos de sua trajetória, encontrava na onipresença de Santo Antônio a luz para guiar seus passos, fosse na arte sacra ou na construção de um império de conhecimento sobre cultura e negócios luso-brasileiros. E como entende de negócios esta mulher!
A história de Vênus é tecida por ancestralidade, desafios quase indomáveis e reviravoltas dignas de uma epopeia. Da influência portuguesa e religiosa sobre sua arte ao momento em que perdeu a mãe e, simultaneamente, tornou-se mãe de sua própria irmã e de uma conhecida que acabou por maternar na hora mais difícil. A menina que veio para ajudar caiu doente no colo da Vênus.
Nesta investida contra a morte, a artista usou suas ferramentas para curar: suas mãos preparavam poções de vida. Venceram o cancro juntas. A chegada em Portugal, embora fosse um retorno à terra de seus ancestrais, revelou-se um desafio: um país que lhe era de origem, mas não de pertencimento imediato.
Foi enfrentando burocracias, preconcepções e os labirintos da imigração que Vênus, com o olhar perspicaz de quem sabe ler oportunidades no improvável, ergueu-se. Transformou-se em uma empresária influente, conectando laços entre Brasil e Portugal. Recém-empresária, conheceu o leão das Finanças portuguesas, mas Santo Antônio estava lá, pronto a lhe dar a mão. Impressionante como a fé desta mulher faz convergir estratégias para sair das crises.
A Capela Sistina, com sua grandiosidade celestial, serviu-lhe de inspiração para um modelo de negócios lucrativo. O trabalho com réplicas sacras deu-lhe uma medalha metafórica de triunfo. Mas sua arte não era apenas estética; era um refúgio, um processo de sublimação dos lutos e desafios. Mesmo quando a vida a chamou para cuidar da saúde do companheiro, a arte continuou a pulsar dentro dela, como um coração que nunca se permite parar.
E então, num retorno simbólico e cheio de significado, Vênus reencontra Santo Antônio e todas as outras imagens sacras em seu Atelier da Santa Ideia. Que santa ideia este nome! O acolhedor Atelier é um lugar onde a cearense, à frente de seu tempo, apenas segue os passos de seu santo protetor. Na casa e no trabalho, Vênus conta com a parceria de sua querida irmã Célia e do sobrinho Gonçalo, ao qual é todo amor.
Naquela tarde dourada, sentamo-nos na mesa alta dos Salgados no Mercado da Vila. Entre goles de vinho e histórias bem temperadas, Pedro nos serviu os famosos pastéis de vitela, que ele jura serem melhores que os do Brasil. Crocantes por fora, suculentos por dentro, uma experiência gastronômica que evocava memórias e afetos. Conversamos, rimos, brindamos ao inesperado, ao destino que tece encontros e ao sol que se despedia por entre os guarda-sóis do mercado. Ali, na cumplicidade de um momento partilhado, tivemos a certeza de que Santo Antônio nos guarda para todo o sempre e que entre a Terra e a Vênus existem muitas histórias para contar.
Sábado vou ao Mercado... Vamos!!?