Nepalesa Lali Gurans


Nepalesa

Por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica

Ela é menina… e mulher, no mesmo gesto.

Do Nepal… traz no rostoa geografia do sole das montanhas,

nos olhos… a eternidade dos ventos friosque tocam sinos tibetanosantes do dia acordar.

Sorri…com todos os cílios do olhar — como quem sopra vida nas pedras quietas, como quem vê… o que ainda não nasceu, e acaricia futuros… com a ponta dos dedos.

Desperta vontades dos relicários da memória.

Alegrias…adormecidas na mala do tempo, guardadas… como amuletos de vida.

E sem esforço,sem se perceber mágica, ela reanima — como o orvalho… que faz o verde ser verde de novo.

Anda com a bandeja entre as mãos, leve… como dente-de-leão ao vento.

Faz sumos que sabem a céu claro, à infância recém-descascada, à manhã… que ainda tem cheiro de ontem limpo. E serve. Sempre serve. O melhor que possui. Sem alarde. Sem pressa. Como quem… não se cansa do bem.

Faz também café… com sabor de silieja — como ela diz, sorrindo… sem se importar com o tropeço da língua.

Seu português é pouco… mas dança — como ela. Entre palavras que não conhece, o café tem gosto de fruta vermelha colhida no sonho, de tarde… em boca pequena.

Não se contém de sorrir. Sorrir é sua forma de dizer “estou”.

Sua reza.

Sua dança.

Seu idioma.

Ela passa… essa inflorescência do Nepal, com olhos de eternidade e mãos de alvorada, tem a delicadeza… dos que não se sabem milagres.

Ela sabe esperar. Não como quem aguarda, mas como quem compreende o tempo. Como quem já dançou com ele… ao redor do fogo.

Como quem aprendeu que certas flores… só se abrem depois da quinta lua.

Ela espera…com os olhos pousados, como se cada segundo fosse um novelo de ouro em suas mãos pequenas.

No alto da testa… a marca vermelha — não um adorno, mas um coração que bate… fora do peito.

Pulsando visível, feito farol manso… em meio ao caos dos dias. Feito lembrança vivade tudo o que é sagrado… e misterioso.

O Mercado da Vila… tem mais graça quando ela chega. O Salgados, seu abrigo de sorte, onde serve sonhos em xícaras, colhendo risos como quem colhe açafrão ao pôr do sol.

Barcha é flor que caminha.

Flor em flor.

Flor que vence o vento. Não há quem não a leve no olhar, como uma canção recém escrita, que toca… sempre — nas horas exatas em que o mundo… parece querer desandar.

Barcha, girassol-alegria do Nepal.

Lali Gurans de alma inteira.

Traduçao em inglês

Nepalesa

She is a girl…and a woman, in the same gesture.From Nepal… she carries on her facethe geography of the sunand the mountains,in her eyes…the eternity of cold windsthat brush Tibetan bellsbefore the day awakens.

She smiles…with every lash of her gaze —as if breathing life into silent stones,as if seeing… what is yet to be born,and caressing futures…with the tips of her fingers.

She stirs longings from the relics of memory.Joys…asleep in the suitcase of time,kept… like life’s amulets.And effortlessly,unaware of her own magic,she revives —like the dew…that makes green be green again.

She walks with a tray in her hands,light…like dandelion in the wind.She makes juices that taste of clear skies,of freshly-peeled childhood,of morning…that still smells like yesterday, clean.And she serves.Always serves.The best she has.Without fanfare.Without hurry.As one who… never tires of goodness.

She makes coffee too…with the taste of silieja —as she says,smiling…not minding the stumble of the tongue.Her Portuguese is little…but it dances —like she does.Between words she doesn’t know,the coffee tastes like red fruit picked in dreams,in the afternoon…by a small mouth.

She cannot help but smile.Smiling is her way of saying I am here.Her prayer.Her dance.Her language.

She passes…this girl-woman from Nepal,with eyes of eternityand hands of dawn,holding the gentleness…of those who do not know they are miracles.

She knows how to wait.Not like someone who delays,but like one who understands time.Like someone who has danced with it…around the fire.Like someone who has learnedthat certain flowers…only bloom after the fifth moon.

She waits…with eyes at rest,as if each secondwere a golden skeinin her small hands.

On her forehead…the red mark —not a decoration,but a heartbeating…outside her chest.Pulsing visibly,like a gentle lighthouse…in the chaos of days.Like a living reminderof all that is sacred…and mysterious.

The Village Market…has more charm when she arrives.Salgados, her lucky haven,where she serves dreams in cups,gathering smiles like saffronat sunset.

Barcha is a flower that walks.Flower to flower.A flower that braves the wind.No one leaves without carrying her in their gaze,like a freshly written song,that plays… always —at the exact hourswhen the world…seems ready to fall apart.

Barcha, sunflower-joy of Nepal.Lali Gurans of a whole soul.

Ostras e Pérolas

 




Sobre levezas profundas, espumantes e a felicidade das ostras

Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

 

A poesia é a expressão mais pura do olhar — penso nisso sempre que vejo uma ostra abrindo-se, devagar, como se revelasse um segredo. Rubem Alves mostrou a beleza nascida de um grão de areia; ou melhor, a beleza forjada na dor, ao dizer: “ostra feliz não faz pérola.” O poeta levou-me a deslisar pelos labirintos dos moluscos, a questionar se a beleza esférica a balançar no fio dos meus brincos só poderia germinar no terrível desassossego causado por um grão de areia a esfolar a maciez daquela criaturinha — a ostra.

Mas então, ao olhar mais de perto, uma ideia se forma em minha mente: e se for a felicidade — e não a dor — a origem da beleza? E se descobríssemos que as cascas das ostras são, na verdade, suas verdadeiras pérolas — e que nelas habita a essência de uma vida-ostra?

Talvez a beleza forjada na dor seja, afinal, uma grande cegueira. Será mesmo que toda dor é necessária para criar algo de valor? Não deveríamos, quem sabe, repensar isso?

Essas perguntas me acompanharam numa manhã no Mercado, quando resolvi parar na ostraria para observar — e quiçá saborear — as ostras. A Les Portugaises, no Mercado de Cascais, é uma ostraria logo na entrada do pavilhão; impossível entrar pelo estacionamento e não ver as mesas externas, onde pessoas saboreiam ostras com um bom espumante.

Foi ali que conheci Francisco — e, com ele, uma nova forma de perceber o lado perolado das ostras.

Francisco costuma estar por lá, entre colegas que, poetas das conchas como ele, divertem-se enquanto trabalham. De olhos vivos, não perde a conexão com os clientes enquanto abre, delicadamente, as ostras.

Deu-me uma aula. Com toque sutil, mostrou como romper o músculo com a ferramenta, girar a ostra na casca e preservar o caldo mareado entre o molusco e a concha. Deixa-a brilhar ao centro, como uma bela em sua pele de cetim.

Muitas vezes passo por lá apenas para observar — e me surpreender: encontrar dentro daquela carapaça calcária uma criaturazinha que se oferece ao paladar. E torcer para que, a cada rompimento, não surja um grão de tristeza — mas, no instante exato, Francisco, com sua sabedoria imediata e uma leveza que também é profunda, oferece sempre uma resposta bem-humorada.

Na última visita, vi uma família de estrangeiros a degustar ostras na esplanada. Havia uma aura de satisfação que só o prazer verdadeiro é capaz de revelar.

Arrisquei mais uma pergunta a Francisco: que impacto sensorial uma ostra leva para dentro do corpo?

Como será aquele primeiro contato com as ostras recém-abertas, recém-descoladas de sua vida-casca? (Enquanto pensava que viver também seja isso: romper, com delicadeza, nossas próprias cascas — e descobrir que, por dentro, pulsa algo cru, disforme ainda, no entanto profundamente verdadeiro).

— É como tomar o mar... é mar! — disse ele com a suavidade de quem costuma ter mar nas mãos.

Foi tudo tão mais simples nas palavras de Francisco. Mar. Apenas mar... a imensidão do mar a nos tomar a partir de uma ostra.

— E as pérolas, Francisco?

É a pergunta que sempre faço. Quase um jogo, como se quisesse saber se as ostras, ao se descolarem de sua vida-casca, foram felizes ou carregaram um grão de areia pela vida afora. Francisco me garante que, entre as milhares que já abriu, jamais encontrou uma pérola.

— Só vendemos ostras felizes! — responde, com a convicção de quem conhece o mundo das ostras como ninguém.

Por que será que nunca encontramos pérolas por aqui? Talvez porque não sejam ostras incomodadas — ocupam-se do viver. Ouvi dizer que, quando por acaso se encontra algo dentro da concha, é assimétrico e sem "valor". Rimos, um riso de veludo, da ideia de comer ostras felizes — sem pérolas valiosas, sem dramas, apenas quietude.

No interior das cascas das ostras de Francisco, habita o eco do canto das baleias, que elas colecionaram em silêncio.

Francisco contou-me, sorrindo, que o mais curioso não era a ausência de pérolas, mas o fato de que, não importa o tempo, as pessoas sempre consomem ostras com espumante. Pode estar frio, chuvoso, escaldante... ostras sempre combinam com bolhas.

— Ostras descem bem com espumante!

Ri com ele, imaginando a descida da ostra pela garganta. A que se deve essa combinação?

O espumante, com suas borbulhas efervescentes, carrega a leveza do instante, o convite à celebração, ao breve esquecimento do mundo.

Talvez seja isso: o espumante — alegria aérea — encontra nas ostras equilíbrio: leveza que nos eleva, rusticidade que nos ancora. A busca por harmonia no contraste, onde a beleza do momento está não na perfeição da união, mas na ousadia de consumir.

Não há mesmo aquelas pérolas por aqui.

Mas há cantigas de baleia, memória líquida preservada de um mundo oceânico, a mão precisa a pôr as ostras a brilharem em suas conchas, a delícia posta à face ao consumi-las.

Talvez essas experiências — de sabor, encontro e mar — sejam, no fundo, a verdadeira pérola de uma ostra.

E, se mesmo um dia uma ostra desejar fazer uma esfera perolizada, que seja um gesto de amor à simetria — não por defesa, mas por pura arte de polir sua concha. Porque, no fim, não é sobre encontrar pérolas — mas sobre o prazer de consumir o imperfeito.

Crônica poética escrita após uma visita à ostraria Les Portugaises, no Mercado de Cascais. Reflete sobre o valor da leveza, a beleza que nasce do cotidiano e o encanto das ostras felizes — sem pérolas, mas cheias de mar.




A grandeza das coisas banais






 Como as pequenas coisas constroem o que somos

Por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

De que, de fato, é feito um escritor?

Foi ao final da manhã, no Mercado da Vila de Cascais.

O ar estava espesso de aromas — pão fresco, frutas, flores. Conversas cruzavam o pátio como linhas de bordado. O Mercado não era apenas um cenário. Era o próprio corpo do dia, abrindo pequenas fendas de tempo e bem-estar.

Uma pausa com sabor de café e pastel de abóbora com queijo da Serra — sabores que fazem a gente estar e viajar.

Estávamos à mesa do Palavras e Azeitonas quando vi Neumar Silva, escritor brasileiro, com uma xícara de café na mão. Tinha aquele olhar de quem busca um lugar — ou reconhece afinidades silenciosas.

Por um instante, seus olhos se demoraram nas rendas de crochê sobre a mesa, como quem lê uma história antiga, ponto a ponto. Antes que seu olhar se perdesse, acenei.

Ele disse “sim” quando disse “não”. Murmurou algo como “a mesa está arranjada” — e, antes mesmo do fim da frase, já estava à mesa.

Sentou-se junto a mim e a Ana, que saboreávamos mais um dos nosso cafés de aniversário, descompromissadamente, a celebrar o simples. É assim quando se está em festa: os encontros se tornam inevitáveis.

Neumar é desses que caminham guiados por memórias sensoriais. Contou-me que, em suas caminhadas diárias, há uma flor específica cujo perfume o atravessa — e, por instantes, ele volta a ser menino. Costuma levar um pequeno ramo para casa e deixa que o aroma preencha o lar. Não é saudade. É presença.

Uma memória inteira que se acende com um simples cheiro. Essa flor, real e recorrente, lhe serve de bússola — a chave do seu lume de escritor.

Falamos disso, e de livros, e de escrever. Então que perguntei:

— O que você escreve?

Ele sorriu, com a pausa de quem não tem pressa:

— Entre tantas coisas, banalidades.

Banalidades às quais sou fiel...

Falou de suas viagens e da prática de escrever notas.

 

— O diário de memórias — continuou — foi meu guia neste último livro: Entre livros e viagens.

Enquanto falava, mencionou Carolina Maria de Jesus e o impacto de Quarto de Despejo.

A voz brevemente embargada. A lágrima contida. Havia ali o reconhecimento: Carolina escrevia com a fome e a lucidez de quem observa tudo — e ele, com a delicadeza de quem escuta o mundo. Ambos, à sua maneira, revelam o que está escondido nas margens da vida.

E é dessas mesmas margens — feitas de silêncio, resistência e afeto — que nascem os verdadeiros transbordamentos criativos.

Foi ali que compreendi: talvez sejam justamente essas coisas — as que chamamos de banais — que sustentam tudo o que somos. São as delicadezas do dia comum que nos oferecem pertencimento.

Há um heroísmo manso nas insignificâncias.

Manoel de Barros dizia que é preciso “desimportar-se” para alcançar o que é fundo. Que há grandeza nas miudezas, nos gestos quase invisíveis. Talvez escrever — e viver — seja isso: dar valor ao que parece inútil, mas toca a alma. Oferecer um alimento ao andarilho, escutar o que tem a dizer...

Uma mesa posta com rendas. Um café sem urgência. O perfume que, no meio do caminho, devolve a infância.

Essas coisas não constroem o mundo — mas o sustentam por dentro.

Penso agora: um escritor é feito disso. De afetos bem guardados. De sentimentos que sobrevivem ao tempo. De cenas comuns, vividas com inteireza.

E Neumar, ali à mesa, era isso: "um apanhador de desperdícios" — presença inteira.

Palavra limpa. Emoção que não se exibe — apenas escorre, natural.

Quando se levantou, levou consigo a flor que o trouxera — invisível para nós, mas nítida para ele.

E talvez tu também caminhes com uma flor dessas —que não se vê, mas leva de volta ao que importa.

Mesmo sem o saber. Mesmo sem escrever.

Ainda assim, autor: do gesto, do silêncio, da presença.

Porque há luz — sim — nas coisas banais.

Nota: Esta escrita foi inspirada no escritor Neumar Silva, cuja escrita sensível valoriza as pequenas coisas que nos constroem pelo caminho. Seu livro Entre livros e viagens será lançado no dia 24 de maio de 2025, às 15h, na Biblioteca Casa da Horta, Quinta de Santa Clara – Cascais.

Apareça por lá!

GRÃOS SAGRADOS

 







Grãos Sagrados


por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

Sempre acreditei que café e chocolate conversam entre si — um aquece, o outro acaricia. No Mercado da Vila, falava sobre o café das matas de Minas Gerais quando Estella, apreciadora do café do Pedro tanto quanto eu, se aproximou e disse:


— Vou te apresentar o melhor chocolate do mundo.


E assim, entre o aroma do café e a promessa do cacau, começou a travessia.

No ventre fresco da loja Diogo Vaz, o aroma da torra do cacau suspira no ar — um convite à experiência inteira. Entre barras, nibs e grãos torrados, o chocolate se revela como um rito discreto: não apenas alimento, mas promessa de encontro. Uma pausa na pressa do dia para ouvir a própria alma.

Mas afinal, do que é feito o chocolate? Não é só mistura de açúcar e cacau. Cada barra guarda uma genealogia — uma terra, um clima, um cuidado — que entra pelo paladar e se espalha em sensações, sinapses, alegria.

Estella abre essa porta com naturalidade. Com a doçura que só o chocolate sabe ensinar, ela nos leva a caminhar entre cacaueiros, dedos mergulhados na terra fértil de São Tomé, deslizando por postais vivos onde o sol equatorial pinta memórias. É a estrela-guia que conecta o Mercado da Vila à ancestralidade pulsante — guardiã de uma passagem entre mundos, entre o visível e o invisível.

Entre as criações da casa, há uma que pede silêncio: a linha Ôrihanga. Preparada para rituais de conexão, ela não é apenas chocolate — é pausa e presença, convite para atravessar a si mesmo. No primeiro toque, o amargo testa o paladar; depois, cede espaço à doçura, como quem abre um caminho interno.

O chocolate Diogo Vaz, vindo dessa terra viva, traz o pulso do solo vulcânico e a umidade do trópico. É memória que ecoa o que os povos mesoamericanos chamavam de árvore sagrada plantada no coração da Terra.

São mais de 420 hectares de floresta, silenciosos guardiões dessa dádiva. A linha Ôrihanga, cujo nome evoca rito, não é só sabor: é dobra do tempo. O amargo primeiro testa o paladar para, depois, revelar sua doçura — uma lição que o corpo entende sem pressa, e a alma reconhece como reencontro.

No moinho da minha infância, as pedras moíam grãos e histórias ao mesmo tempo — camadas do passado embalando o presente. Sempre tive uma ligação silenciosa e profunda com os grãos: trigo, arroz, milho, uvas, café... Cada um é um pequeno universo, uma narrativa viva que conta a trajetória humana — dos campos antigos às mãos que colheram, das celebrações às batalhas, da fome à fartura.

O chocolate mantém viva essa travessia entre sujeito e mundo — vínculo indissolúvel, gesto que abre diálogo interno e convida a habitar o instante presente.

O Mercado da Vila acolhe essa circularidade. Cada loja é um círculo que se abre e se fecha, refletindo o outro e criando abraços invisíveis — uma dança de aromas, sabores e memórias que costuram uma tapeçaria coletiva, onde o individual ressoa no corpo do outro e no tempo compartilhado.

É luxo? Privilégio? Talvez algo maior: uma chance rara de habitar a presença. A lenda diz que, quando um pedaço de chocolate se dissolve lentamente na boca, é possível ouvir o sussurro da serpente emplumada — um eco antigo lembrando que os deuses ainda caminham entre nós.

E, se esse instante vier acompanhado do café orgânico dos Salgados, das matas brasileiras, o rito se completa — sinfonia delicada que desperta corpo, mente e alma.

Esse é o meu momento Mercado. E o seu?

 

Entre Parreirais e Memórias

 



🌍 Entre Parreirais e Memórias

Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica

Na vastidão do Planeta, a América,
no extremo do país continental, o Sul,
em seus seios, uma serra trespassada de história,
sobre ela, vinhedos,
e embaixo deles, o domingo inteiro,
entre o Planeta e o vinhedo,
balançando o passado em aroma,
repousa o olhar.
(Habitar, Katia Bonfanti, 2022)

Imagem: Vinhedo da família Giordani – Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, RS.

Dia ensolarado no Vale da Serra, início de tudo. O ambiente é vivo e cartografado pelo verde das matas, onde as falas se interpõem com as mãos. Profusão da linguagem dialetizada. Mistura da italianidade com o sulista brasileiro: uma aposta que deu certo, mas não sem muito trabalho.

A abertura do país aos italianos tinha propósitos: povoar os vazios da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e incrementar a produção de alimentos. Os italianos, que sofriam com guerras, crises econômicas e fome — que assolava até os interstícios da alma — viram no Brasil a chance de preencher também os seus próprios vazios. Vieram ao Sul com a promessa de terras agrícolas. Navegaram em busca da fortuna — sorte.

Compuseram na América as primeiras Colônias Imperiais, por volta dos anos 1870. Trazer à luz essa trajetória é reverenciar a herança cultural que pulsa na alma de tantas cidades do Sul e de outras regiões do país.

A Serra Gaúcha foi o atracadouro de sonhos de famílias recém-desembarcadas. O encontro com a terra íngreme e desconhecida exigiu força, fé e resiliência. Para os solteiros, trouxe também o encontro com o amor.

Milhares de italianos trouxeram suas tradições, povoaram colônias com famílias numerosas sustentadas pela fé. Trabalhadores incansáveis, fizeram do solo de pedregulho la vita fortunata. Há quase um século e meio, os descendentes traduzem esses sonhos em vivências e memórias. Vemos na Serra Gaúcha uma cultura única, fortalecida pela língua criada na interação: o talian.

Ao adentrar as cidades com alma italiana, percebemos a tradição nos sabores, nos gestos, nas orações. Adoramos as festas, especialmente a vindima — a colheita. O trabalho vem na medida da gratidão e do gozo. Os perfumes reconectam à vida no sem-fim entre o planeta e a plantação. Os parreirais, como terraços de esperança, frutificam e adoçam os imaginários. Ao pegar o cesto de vime, dois continentes se ligam. As uvas, em seus inúmeros sabores, pendem sobre olhares perplexos. O ontem se apaga. Só importa o agora.

Minha avó dizia que a vindima suscitava o amor — baseava-se no aumento de nascimentos nove meses depois, mas isso fazia parte do seu anedotário. Pensando bem, faz sentido. A colheita é mesmo a festa do amor.

Os italianos migraram com amor à pátria, embora fossem filhos órfãos. Recriaram seus modos de viver nas colônias: trabalhavam, rezavam, festejavam e amavam. Organizavam os talhões com sabedoria: nas partes altas, os parreirais; nas baixadas, os trigais; entremeados, as ervilhas e o milharal. A polenta era essencial.

Iniciavam no nível do chão. E a partir dele, cresciam.

Sem a coragem dos antepassados, hoje não teríamos a vista dos vinhedos. Apesar das secas, a festa da colheita está garantida. Grupos andam sob o lençol verdejante em pleno fevereiro escaldante. O frescor vai além do clima. É leveza que se sente no encontro com as raízes. Conhecer as origens dá identidade. A cultura se transmite nos gestos, aromas e modos de fazer, mesmo sem instrução formal.

O vinho é mais do que bebida. É ligação cultural. Mesmo quem não o aprecia, reconhece seu valor. Os italianos, ao chegarem, não encontraram ouro nas árvores — mas o fizeram surgir. Engarrafaram o ouro. O vinho ganhou o mundo. Apostaram no espumante — enfrentando França e Itália com o brilho próprio da Serra.

Fortuna aqui não é riqueza, mas fazer a sorte: entrelaçar trabalho com fé e perseverança.

Os ítalo-brasileiros elevaram a produção a escala global. Mas crescer exige rever os planos. Preservar tornou-se urgente. Desenvolvimento não pode custar a finitude da cultura ou da natureza. Sem fachadas históricas, sem produção artesanal, sem festividades — corremos o risco de perder a identidade. Deixar a cultura morrer é negar a ancestralidade. É ter o vazio de volta.

Todas as culturas importam. Aqui, celebro a italiana por estarmos comemorando um século e meio de história. Reafirmar valores culturais é dever de quem descende dessa tradição. Somos produtos perfeitos da nossa cultura. A italianidade que vive em mim me torna quem sou. Visitantes das cidades colonizadas por essa alma “estrangeira” são, por instantes, acolhidos por vinhedos, sonhos e ancestralidades. Trocas culturais revelam: quem é o outro? Quem sou para ele? Quem somos todos?

Viva as trocas culturais. Viva a italianidade que habita em nós — falante, barulhenta, incansável, rezadeira e amorosa.

Na sequência... uma história que iniciou com a chegada do imigrante Roberto Bonfanti, meu bisavô, à Serra Gaúcha em outubro de 1912. Permaneceu até 1931, desenvolvendo atividades na queijaria que inaugurou em Bento Gonçalves. Depois, interessado em produzir farinha e energia elétrica, migrou para outras águas no Norte do RS.

Algumas fotos abaixo incluem a primeira represa da Serra Gaúcha, em Guaporé (1920), retrato de Roberto Bonfanti e Maria Letícia Chini Bonfanti. Casarões de Bento Gonçalves e Garibaldi. O moinho e a igrejinha construídos entre 1931 e 1937, no interior de Constantina, RS. A mudança teve o objetivo de encontrar, no Rio Lajeado Grande, água capaz de gerar energia elétrica para o casarão e movimentar o moinho. Sonho que deu certo e iluminou, em 1938, o pequeno Vale Bonfanti.






Reliquias do baú da nona Maria Letícia... livro de 1911, presente trazido da Itália pelo nono Roberto



Maria Letícia Chini e Eu




Parte do altar da igreja de 1937



                                                          O velho moínho contruído em 1931



Sabi(a) - vida




  Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica

 E sobre o repouso eterno da ave, surge a rosa da cor da plumagem do peito de Adrio.

Eis que a força depositada na terra é mais poderosa do que a genética da flor. Filha de uma roseira cor-de-rosa, ela se rende ao encanto-matiz do sabiá madrugueiro. A rosa expande suas pétalas imitando o peito do cantador. Logo abaixo, na haste da suave alaranjada, balança a pluma de uma ave. Surge leve, porém arrebatadora, como emblema — ou lápide: aqui canta o sabiá. E ainda, faz saber que a partida de Adrio passa a ser meio; o quintal, cheio; e o coração, alegre, por ver que a terra, ao consumir o canto, resplandece em flor.

Adrio faz parte do meu quintal — amor lido nas entrelinhas da vida. Por onde quer que eu ande, meu quintal vai comigo. Não falo apenas de um chão. Refiro-me a um quintal vasto, de tantas vozes, composto por séculos de vivências. Nele residem a infância, a cooperação, a alegria, a curiosidade, o medo, o luto (as perdas que fortalecem e reforçam o amor à vida). Vivem no meu quintal os sonhos, a esperança, tantas manifestações de afeto, pessoas queridas, fantasmas conhecidos, a criação e, também, algum deslustro. Vive ali a história (viva) dos meus antepassados, o legado dos recomeços, o estrangeirismo que me permite pertencer e não pertencer (tanto no aspecto intra quanto intersubjetivo) aos quintais que se apresentam — inclusive àquele que chamo de meu. Porém, eu não sou sem o quintal que me habita.

Desde as primeiras memórias de infância, o “estrangeiro” compõe o meu quintal. Ao refletir sobre minhas vivências, confabulei com o “estrangeiro”, vesti-me de questões históricas e outras míticas. Vivi um tempo ancorado no passado. Cantei do alto do pé de caqui: "...eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar..."
Folheei meus dias em recontos que ocorreram décadas antes do meu nascimento. Isso porque meu processo de subjetivação se deu em uma bolha na qual tudo se assemelhava na mesma medida em que causava estranheza — porém, estruturava o meu vir a ser. Salve o “estranho” que se fez caminho.

O curioso, ao se viver em uma bolha cultural de alta preservação de costumes, é que o presente surge tonalizado pelos antepassados e, embora atual, preserva o pigmento rosa-choque — o mais antigo dos pigmentos. Assim, sentia-me conectada a outros quintais (inclusive os geográficos). Eis o estrangeirismo pulsante: os objetos, as vozes, os lenços de cabeça, as fornadas coletivas, as visitas das quartas-feiras ao cemitério — tudo com o propósito de manter a transmissão.

Rituais que, despretensiosamente, alimentavam o “estrangeiro” também produziam desejos e planos futuros (ainda mais ligados ao passado e ao território de origem da cultura). Os filós e as rezas dos fins de tarde embrulhavam o barulho das pedras do moinho, o cheiro da madeira serrada, os parreirais, o aroma do mosto e o parmigiano (que imitava o reggiano) — parte identitária da cultura, que não subtraía das crianças a identidade máxima: o vinho diluído, bebido como refresco.
E o maior constituinte: o amor à natureza da vida — de todos os tipos de vida.
Essas e tantas outras memórias, somadas à companhia permanente dos “velhos sábios”, compõem os livros da minha biblioteca interna — o tal quintal. Nada, nunca, removeu do presente a vivacidade do passado, pois ambos convivem em interface: movem as mós produtoras de realizações, da criatividade e dos suspiros.

Envolta em similaridade e estranheza, cresço parceira do “estrangeiro” — aquele que, voluntariamente, dedica-se ao processo identificatório e contra-identificatório, que permite que alguma diferença se instaure e escreva um novo traçado.
É sabido que o conceito de “estrangeiro” é amplo, e também pode ser um olhar segregado, que rege sentimentos de amor e ódio diante do não reconhecimento de si no outro.

Mas não é sobre isso que escrevo.
Neste fragmento, falo do “estranho” que faz morada em meu ser. Aquele que me permite conviver com Adri(os) e Ameli(s), com rosas e gentes, com impressões e inventos, com realidades e finais.

Quantos quintais moram em mim? Não sei de fato. Só sinto que são tantos. Ainda bem!
Dessa forma, posso seguir a passos com o “estrangeiro” — aquele que também carrego no olhar, que me permite refazer o traço, avançar ou recuar. Recuar é um treino antigo e sempre se manifesta diante de situações ameaçadoras. Nem sempre é possível fazê-lo a tempo — mas eu tento.
Quando o “estrangeiro” demora a se manifestar, meu risco de envolvimento com algo ainda mais “estrangeiro” é maior — mas nunca aniquilador. Resiliência e generosidade são ativos importantes. Ademais, avanços e retrocessos me interessam. São analisadores eficazes para viver com intensidade e alegria esta “uma vida” somente minha.

Importam ainda mais quando se sabe que a vida é breve, é passagem.
Que a terra transforma em flor aquilo que recebe.
E que tudo recomeça na primavera com um novo canto, em um memorável quintal.

E sobre ter um milhão de amigos?
Eu tenho amigos valiosos, com quintais que transbordam afetos e cantorias.
Sei que, mesmo longe, brindaremos cada palavra solta ao vento, pois a vida é sábia — ensina que:

“O Amor não se Lê” sem um nível de estrangeirismo e dedicação.

Arrivederci!
Katia Bonfanti




    Eu Sabi-á



Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica

 O quintal acordou mudo. Mutismo esperado depois do declínio de Adrio — o Sabiá-Laranjeira, cantor do amor e das primaveras. Adrio, com seu peito laranja ferruginoso, arrebatou o coração de Ameli, antes mesmo de setembro chegar.

Os dois enamorados começaram a trabalhar pela existência. Ela buscava o graveto e ele tramava. Depois, ela na tramada e ele revoava ligeiro, retornando com fiapos de folhas secas e galhinhos. Por fim, trazia uma espécie de cordão gramado com o qual alinhavavam com dedicação o ninho-lar. Bicos feitos agulhas levavam e traziam o arremate da obra. Franjas e pontas soltas acompanhavam o movimento da paisagem. O acabamento sofisticado sustentava-se sem nós. Uma artesania primorosa no tempo mundo passarinho — instante que se gastava sem fim.

Revezavam-se na tessitura do seguro ninho. Toda a edificação passareira fora feita na alamanda do gazebo, alinhada à vista da varanda. Casal iluminado de pássaros. E se fosse somente de ver a animação, mas quem tem a sorte de vizinhar com um lar de sabiás aprende que a proximidade transmite paz, melodia e encanto. Há quem se desconforte? Já ouvi dizer que sim, mas aí não é problema dos sabiás.

Habitantes de um mesmo quintal, em um vasto jardim compartilhado — humanos, aves e outros seres — descobrimo-nos pares: eu escrevo e eles cantam. Em (en)cantos e rimas nos entendemos. Somos tão natureza e diversos, experimentadores, corajosos e também frágeis, cada um em seu tamanho e re-verso.

Nas tramas, ciscos e ritmos contratamos tão bem que Adrio, por vezes, sente-se convidado a entrar na casa. Aprecia juntar os farelinhos de pão deixados pelos curumins após o café da manhã. Algumas vezes perde-se e precisa de ajuda para revoar ao ninho. Ameli fica assustada, saltita impaciente no barrote do gazebo chamando Adrio para fora. Depois, no ninho, dá sermão. Passado o estresse, ambos se embalam feito frutas nos galhos do limoeiro — mantra de relaxamento conjugal.

Aliás, sobre limões: um modo bem italiano de comemorar bons momentos e deixar o pensamento voar. Cercar-se dos aromáticos sicilianos e de boas companhias. Italianidades transmitidas pelo quintal das memórias. E, os sabiás aprendem, ou somos nós que aprendemos com eles.

Salvo alguns sustos, o nosso pequeno pomar urbano sempre prezou pela harmonia e a boa convivência entre insetos, animais e plantas. E, no amarelo dos limões, sendo pássaros ou gente, encontramos um sedutor convite à descontração.

Adrio sabia se divertir no galho e no chão. Confiava indiscriminadamente na segurança do território, por conta disso minha casa era também seu ninho. Ameli não vacilava, sabia que onde vive um cão reside um risco. Prudência de fêmea!? Pode ser! Mas a presença do cão deixou de ser ameaçadora depois de um tempo. Cão e sabiá estavam amigos. Caminhavam juntos no quintal, um decifrando o outro. Embora com alguma distância, pareciam aproximados. Características de dois seres desenvolvendo uma relação.

Mas, como a natureza tem regras próprias, e às vezes indecifráveis, o cão instintivamente investiu sobre a ave. Não sei se para brincar como faz com os bichos de pelúcia, ou para saber de que material seria Adrio feito por dentro — ou queria roubar-lhe o canto? Não sei! Num vacilo de Adrio e uma distração minha, enquanto ele ciscava no pedrisco, veio o golpe. Voei sobre o bicho peludo, aflita.

Cheguei tarde demais. Ao ser largado pelo cão, Adrio soltou um som — não era canto, nem grito, nem pio — quem sabe um gemido. Peguei-o na mão com zelo e tristeza. Encorajei-o a viver. Seus olhos exalavam finitude. Meu coração havia sido perfurado por aquele ato instintivo do cão e Adrio tremia como pluma ao vento, com as asas desalinhadas, as pernas sem força e, de dor, emudecido. Cocei-lhe as plumas da cabeça a perguntar:

– O que foi, meu passarinho? Diga-me o que devo fazer para te devolver sem dor ao ninho? Você é uma alegria nesse pomar. Fique aqui, meu cantador, nosso pássaro do amor!

Ameli, que enxergara a cena de cima, voou pra mais alto e somente depois se aproximou. Revisou as penas no pedrisco, veio bem perto e mirou-o como quem examina a ferida. Adrio sacudiu as asas e a cabeça. Ameli emitiu um pipilar e depois se foi. Voou até sumir no azul. Não sei se irá retornar ao ninho, sem seu amor de passarinho.

Eu e ele ficamos com o fantasma da passagem, aquele que avança dentro de um trem sombrio, sem sabermos se no fim da escuridão haverá luz. Tentei abrir algumas janelas, encontrar saídas... Nada. Adrio iria atravessar a escuridão na minha companhia, mas era apenas sua a treva da finitude.

Adrio me olhava terno, sem queixas e sem horror. Estava seguro aos meus cuidados, mas seus ferimentos o condenavam. Certo que sim. Não aceitou beber nem comer. Nenhum farelo de pão, nem a fruta amassada pareciam do seu cardápio. Isso nunca acontecia. Entendi que o fim do passarinho passava antes pela renúncia dos prazeres — à Ameli, ao canto, aos adocicados sabores — e em dano a tudo o que há de belo, manter-se-ia a seco, como a dor.

Que triste vê-lo partir... Mas é apenas um passarinho!? Não, não é só um passarinho. É uma vida — toda, de passarinho. Momento tecido no quintal e na memória. Não é somente sobre um passarinho: é sobre um modo de viver, de olhar para o entorno e de respeitar quem e o que coabita.

Hoje eu escrevi só. Nenhum canto e nada no ninho. Ameli não retornou. Nenhum outro sabiá cantou. Meu quintal está sem Adrio na maestria. A qualquer dia o quintal será palco para outras cantorias. Eu sei. Por agora, rascunho de par com a sábia natureza, que guarda pelo madrugueiro cantador. Cessa o canto, não a inspiração! Assim, a morte se inscreve na vida, talvez não com a leveza das penas de uma ave, mas como meio sublime de dar passagem a uma vida.

Amanhã será outro dia. A terra onde dormirá o sabiá será um local de entrega e aconchego. Também gratidão. Sobre ela plantarei uma roseira miúda que crescerá com viço e alegria. De toda sorte, na próxima primavera, se não ouvir o canto, ao menos rosas alaranjadas haverão de brotar no meu quintal, e quem sabe, Ameli venha nos visitar.

Por um sabiá-laranjeira que nunca teve medo de se aproximar e conviver! Ele ensinou, com sua presença, que pertencer ao planeta é diferente de dizer que o planeta nos pertence.

Katia Bonfanti






Um quintal com limões, sabiás e inspirações...

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...