Entre o Asfalto e o Mar

    


Entre o asfalto e o Mar



Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

Na última quarta-feira do ano, reuni pequenos fragmentos de histórias: o quadro com a arte do Palavras & Azeitonas, um enfeite de crochê de mesa carregado de memórias e umas luzes de Natal delicadamente guardadas dentro de uma garrafa. Estava com vontade de compor um pequeno cenário — algo que traduzisse o ano vivido em Portugal e em especial com as pessoas desta terra. Cada peça carrega seu tempo, suas vozes silenciosas. O crochê na mesa, em especial, já entrelaça tantas narrativas que merecem ser contadas, mas essas ficam para outro dia.

No entanto, a escrita do último encontro de 2024 será dedicado ao senhor Palma que acabo de conhecer.

Jornalista de profissão, com um passado encharcado de palavras, impressões e deadlines — como se o tempo, ao invés de escorrer pelos ponteiros do relógio, tivesse deixado marcas na ponta de seus dedos. Foi o que pensei quando vi as ataduras. Depois vim a saber que havia sofrido uma queda enquanto fazia sua corrida habitual. Ao lado de Isabel, sua esposa de gestos gentis e sorriso sereno, viva o Mercado. Foi entre o brilho do sol, filtrado por uma fina cortina de fumaça, e o burburinho das vozes ao redor, que ele começou a me contar sua história. — Uma narrativa que balançava entre o improvável e o profundamente humano, como um barco que navega entre ondas de casualidades e reflexões.

O mar, para o Sr. João, não é um cenário, é uma extensão do próprio corpo. Ele precisa vê-lo, tê-lo ao alcance dos olhos, como quem verifica o pulso de si mesmo. Residiu na Dinamarca antes do 25 de abril, depois retornou para Portugal. Paris, com suas luzes e promessas, nunca lhe acenou com fervor – nem pensar, talvez por não saber o que é ser visitada por ondas ou pelo cheiro persistente de maresia. A cidade-luz carece de um porto, e o Sr. João, mais do que portos, precisa de horizonte salgado, preferencialmente contornado por uma pista onde seus pés possam amassar o asfalto, enquanto seus pensamentos reúnem inspirações para o próximo texto.

Palma fez boa parte da vida a pé e escrevendo sobre carros. Fiquei pensando como é que alguém que não tinha interesse por automóveis, torna-se um expert em escrita sobre eles!? Irônico, destino.  “Foi um acontecimento inesperado,” disse ele, com um sorriso meio encabulado, meio divertido.

Compreendi que não por paixão inicial, mas por devir, João Palma adota os carros como um de seus temas de escrita... Tudo começou em um dia ordinário na redação, quando a história de um lançamento de pneus circulava entre os jornalistas. Nenhum deles queria, ou poderia ir. Palma que na ocasião era Copy-desk do jornal o qual trabalhava falou em tom de piada: “Se ninguém quer, eu vou…” E o universo, sempre atento às ironias humanas, decidiu levá-lo a sério. Poucos dias depois, um envelope repousava sobre sua mesa. Dentro dele, credenciais para o evento. Lá foi João Palma que não tinha conexão, aparentemente, nenhuma com o tema do automobilismo, ao evento.

Aquele acontecimento, embora distante de suas paixões, revelou-se menos desastroso do que poderia parecer. Sr. João, maratonista e amante do atletismo, encontrou nos pneus uma conexão que, à primeira vista, parecia tênue, mas carregava um sentido insuspeito. Talvez fosse o aspecto simbólico que o fisgou, algo que ele jamais confessaria, mas que pairava em algum canto silencioso de sua mente: os pneus e os calçados esportivos compartilhavam uma essência quase arquetípica. Ambos eram feitos de uma mesma matéria, para percorrer distâncias, para tocar o chão com firmeza sem se deixar prender por ele. Eram objetos cúmplices do movimento, companheiros de velocidade e resistência.

Havia ali uma lógica instintiva, como se o Sr. João estivesse decifrando um enigma que não sabia ter começado a resolver. A borracha – dos tênis ou dos pneus – deveria ser de boa qualidade, durável, flexível, capaz de absorver o impacto em terrenos traiçoeiros. E ambos, sapatos e pneus, existiam sempre em pares, carregando consigo a promessa de ir além, de transcender limites.

Talvez, por isso, tenha se permitido aquele evento, uma oportunidade que chegou até ele como quem lança um anzol ao acaso. Ele foi, sem grandes expectativas, apenas para preencher a demanda, mas ao cruzar o salão repleto de pneus de máquinas velozes, algo ali se alinhou – não nos motores, mas nos ecos. Era como se, sem perceber, estivesse plantando a primeira semente de uma carreira que, na época, parecia tão estranha quanto inesperada.

Escrever sobre carros não fazia parte do plano, mas Sr. João começava a desconfiar de que a vida raramente segue mapas. E assim, como o corredor que encontra um ritmo inesperado durante a prova, ele se deixou levar. Afinal, medir passos entre a linha de partida e a de chegada, e entender o que acontece nesse intervalo, era algo que ele sabia fazer. Era isso que a escrita sobre pneus exigiria dele: traduzir em palavras o que não havia dito ou sabido. Desafiador.

 Já vimos esta história nas nossas vidas, não é mesmo? Um momento torto tornando-se uma oportunidade de fazermos algo nunca imaginado. Viver com olhos para as ondas do mar e da vida nos permite fazer novos mapas. Foi esta coragem e ressonância oculta com sua essência, que levou João Palma a tornar-se um jornalista especializado na matéria. E sobre isso não foi ele quem me falou. É só dar uma busca na Net que encontramos inúmeros escritos dele. Um olhar sempre atento às ondas das criações e oscilações das montadoras de automóveis...

Brinquei que ele iniciou por baixo dos carros, ou seja, pelos pneus. E, para ser mais impactante sua relação homem-automóvel, cabe lembrar que, até os 41 anos, ele sequer possuía uma carta de condução. “Nunca achei necessário ter carro,” confessou. Contou-me sobre um pôster que seguidamente lhe capturava a atenção: "uma rua tomada por fileiras de carros, um caos ordenado", disse ele, que observava com uma mistura peculiar de fascínio e desconforto.

“Não fazia sentido para mim,” comentou, enquanto os olhos pareciam revisitar a cena do pôster. “Defendia o transporte público, acreditava no coletivo...” Havia algo quase incrédulo, mas genuíno, em suas palavras. Entretanto a vida, com sua fluidez incessante, insiste em contrariar nossos manifestos. Há no devir um pulso que desafia nossas certezas, acontecimentos que rompem as margens e exigem que aprendamos a ler o inesperado.

O destino, com sua insistência em subverter planos, fez João mudar de rota. À medida que os anos passavam e suas matérias conquistavam as páginas principais, ele finalmente tornou-se um condutor. Isabel, sua parceira de vida e viagens, não ficou imune ao fascínio discreto do universo das máquinas. Com uma paciência quase artística, tornou-se uma motorista habilidosa, embora João observasse que, para ela, o ato de dirigir não era fonte de prazer, mas os carros passaram a ser itens de contemplação.

Nossa conversa fluiu naturalmente, refletindo os muitos caminhos percorridos por João: carros, viagens, países, atletismo e, inevitavelmente, o envelhecimento. Este último ele abordou sem lamentos, com a serenidade de quem aprendeu a acolher cada etapa da vida. O envelhecimento tornou-se como um velho companheiro de corrida que, ao invés de disputar, o ensina a cadenciar os passos. Para João, uma simples corrida até a praia do Guincho transformou-se em uma pequena odisseia, plena de significado.

Mas não havia sombra de tristeza em sua voz ao narrar essa mudança. Pelo contrário, ele falava com um brilho tranquilo nos olhos, como quem encontrou um novo prazer na lentidão. Cada passo tem mais significado agora. O que antes era pressa pela chegada, pela meta, pela linha final, transformou-se em uma entrega completa ao caminho. Uma nova carreira da vida.

Por fim, contou-me sobre seu livro. Num gesto de reconhecimento e generosidade, apresentou-o como uma obra, enriquecida pelas belas ilustrações de Rodrigo de Matos. Quando insisti para que falasse do conteúdo, ele sorriu e disse: “Sabes por que usamos a expressão ‘matou a pau’? É brasileira, como muitas que escrevo no livro… tem a ver com a chegada das aves migratórias ao território brasileiro.” A lembrança dessas expressões e suas origens o levaram à obra Nem Rei nem Rock – as origens das expressões populares.

A presença de João no mercado, saboreando seu café e, simbolicamente, degustando suas conquistas, carrega uma dimensão profundamente psicanalítica do estar no mundo. Sentado na esplanada com seu charuto, ele encarna o símbolo de uma pausa ativa, onde prazer e reflexão se encontram em perfeita harmonia. João conduz sua existência como quem dirige um carro simbólico, consciente de que cada parada – como a do mercado – é tão vital quanto o movimento constante. Com isso, percebo a grande responsabilidade que é traçar linhas sobre seu percurso.

Voltei para casa com o seguinte pensamento: O importante não é o destino, mas como o transformamos em novos caminhos. Que venha o novo momento café e as fotos, porque em Palavras & Azeitonas, sempre o melhor está por vir... Viva o Mercado!


Cascais, dezembro de 2024

O Mercado: Onde Negócios e Vidas se Encontram

 



O Mercado: Onde Negócios e Vidas se Encontram

No coração da cidade, o Mercado é mais do que um local de compras — é um ponto de encontro onde histórias se cruzam, vidas se encontram e negócios se firmam. Recentemente, fui lá em um dia de chuva, quando o céu cinza e a previsão de aguaceiros pareciam anunciar o fim das atividades. Mas, como sempre, o Mercado seguiu firme. Os vendedores, molhados pela madrugada, estavam lá, prontos para oferecer os produtos da terra. Não ir ao Mercado, diante de tanto esforço, parecia-me uma heresia.

Chegamos ao estacionamento e, entre a sorte e a chuva, encontramos uma vaga. Uma corridinha rápida e, apenas levemente molhadas, alcançamos a esplanada. Pedimos café e um pastel de abóbora com queijo da Serra da Estrela, produzido pelos Salgados. Pena que o Mercado ainda não dispunha de mesas protegidas para tempos chuvosos. Encolhemo-nos o máximo possível para evitar nos molhar, mas, apesar dos respingos, rimos e nos divertimos.

Ana Cláudia Guimarães, brasileira com alma expansiva e coração lusitano, vive em Cascais há 26 anos. Enquanto tomávamos café, ela recordou como, antigamente, o Mercado era muito mais simples. "Não havia esta praça, nem feira", ela disse, olhando para o passado com nostalgia. Fiquei lembrando do senhor de 102 anos que encontrei dias antes, e que me falou sobre o Mercado como uma grande horta, vendendo produtos frescos. Na verdade, muitas frutas e legumes agora vêm de longe, até de outros países. Isso, de certo modo, diz muito sobre a evolução do Mercado, mas também sobre o impacto disso na saúde das pessoas.

O Mercado de hoje, com sua diversidade de produtos frescos e encontros inesperados, transformou a vida de Ana. Lembrei-me de como ela começara sua carreira como agente imobiliária e encontrou ali seu primeiro cliente. O Mercado, para ela, é mais do que um centro comercial — é uma espécie de Natal permanente, cheio de trocas, encontros e milagres cotidianos.

Ana, sempre cheia de sonhos e planos, fala de Portugal com a ternura de quem encontrou uma segunda casa. Quando tentou voltar ao Brasil, o coração lusitano falou mais alto, e ela retornou com a família a Cascais, sabendo que este não era apenas um lugar de passagem. Com o marido e os filhos portugueses, Ana encontrou em Portugal o que ela chama de "lar", um local onde se sente plena, com raízes profundas.

Batalhadora e profundamente humanizada, Ana transforma as relações de trabalho em verdadeiras oportunidades de acolhimento. Para ela, atender vai muito além de cumprir uma tarefa; é cuidar com atenção aos mínimos detalhes. Seus clientes, mesmo após concluírem os processos, sabem que sempre encontrarão nela uma escuta atenta e uma disposição resolutiva.

Entre uma conversa e outra, mencionou uma cliente estrangeira que, anos depois de adquirir um imóvel com ela, precisou de ajuda para retirar caixas do sótão. Com limitações físicas, a cliente recorreu a Ana para organizar e inventariar os pertences que havia deixado guardados. É inspirador perceber quando um serviço ultrapassa a simples entrega e se transforma em cuidado — um laço que permanece, mesmo após o término do contrato.

Assim, Portugal habita Ana, e Ana habita o Mercado. "É curioso", pensei, como adaptamos o amor a uma terra que um dia nos foi estranha. Ana construiu dentro de si uma casa portuguesa, com afeto em cada palavra. Enquanto ela falava, percebi que já superou a fase de se preocupar com as diferenças entre os sistemas de saúde e outras particularidades tipicas. Está confortável com a segurança que Portugal oferece.

Eu, no entanto, ainda tropeço nessa adaptação. Essa ideia de flutuar entre consultórios sempre diferentes me parece quase nômade. Talvez seja do meu pouco tempo por aqui, de experiência ou, quem sabe, do tal médico de família.

O sino marcou onze badaladas, e Ana, ávida nos negócios que o Mercado inspira, partiu para encontrar um cliente. Eu, porém, não fiquei sozinha, pois outra parceira de Mercado já havia chegado. Ficamos ali, entre conversas que pareciam tecer uma trama à moda de Milão e Reggio Emília.

No Mercado, parece existir um código inconsciente que nos aproxima e nos faz enxergar fragmentos da nossa própria jornada com mais clareza. Falamos de tudo, quase ao mesmo tempo — conversas cruzadas que nos ativam, que nos fazem perceber como estamos conectados aos outros e como precisamos uns dos outros para seguir em frente. Sensibilizamo-nos. Talvez isso aconteça porque, em ambientes multiculturais, nos tornamos mais vulneráveis ao desconhecido — não apenas do outro, mas de nós mesmos.

Na psicologia, isso pode ser explicado pela ideia de que contextos variados estimulam novas formas de percepção. O Mercado, com sua constante mudança de rostos, culturas e histórias, nos força a sair do automático. Quando nos deparamos com o diverso, ativamos nossa curiosidade e somos compelidos a reinterpretar o familiar. É como se o cérebro dissesse: "Preste atenção, algo novo está acontecendo." E, no processo, até aquilo que parecia velho ganha um frescor inesperado.

Muitos momentos nos ensinam que, mesmo quando achamos que temos controle, algo nos escapa e nos faz repensar. O Mercado é assim: nunca é o mesmo, porque é feito de um mundo diverso. E esse eterno renascimento nos conecta, nos renova, nos desafia.

Então, mesmo com chuva e sem as cortinas protetoras, adorei estar com Ana naqueles preciosos minutos entre seu café e sua respeitada agenda de clientes. Ana é uma mulher de muitas lutas e conquistas, e este ano promete ser abundante. Um sinal disso? Seu primeiro café do ano transbordou na chávena — o meu também.

E assim, entre as histórias de Ana, o café que transbordou e as conversas entre mesas molhadas, o Mercado se revelou mais uma vez como um microcosmo da vida: imprevisível, diverso e cheio de conexões que nos transformam.

Viva! agora vou ao Mercado!

 



As Conexões Ocultas no Mercado


As Conexões Ocultas no Mercado 



 Por Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé”. E quem não gosta de flores? Quem não gosta de flores, sei lá o que é. Dorival Caimmi também nào deixou claro, mas Flores e música têm esse dom único de mexer com a gente, não têm? "Todo mundo bole..." Como se houvesse um alquimista interno pronto para virar nossa emoção do avesso ao primeiro contato.

Na última quarta-feira, lá fui eu cumprir meu ritual: uma visita ao Mercado da Vila. Cheguei mais tarde do que de costume e, ao invés de começar pelo café, decidi ir direto às compras. Entre bancas de frutas frescas e temperos perfumados, o mercado é sempre um convite a desacelerar e viver o momento – mesmo quando a hora parece exigir sono profundo. A dona Luciana, com sua presença tranquila e firme, é quem me lembra disso sempre que trocamos dois dedos de prosa. Ela chega antes mesmo do sol despontar no horizonte, com sua produção impecável, e vende para os revendedores ainda na alta madrugada.

É impossível não pensar que o dia dela tem bem mais horas que o meu. Mais tarde, Dona Luciana, organiza os melhores produtos e dá início a mais um mercado com as mercadorias que reservou para seus clientes habituais, como eu, recém-chegada e outros como a senhora do chapéu de feltro vermelho que vem ao mercado desde que o mercado era apenas uma rica horta.

Dona Luciana é uma mulher extraordinária. Seus traços suaves e seu olhar marítimo, de uma calma quase hipnótica, guardam as histórias de longevas oito décadas que parecem não lhe pesar. Que mulher incrível. Talvez ela nem se lembre dos nossos pequenos diálogos no meio da agitação do mercado, mas para mim, ela é uma figura exemplar, digna de reverência. Dona Luciana, como tantas outras mulheres do mercado, carrega o legado da roça nos ombros e com ele abastece as nossas mesas. O que mais podemos dizer dessas valentes? Mulheres que plantam, colhem e vendem. Oferecem mais do que produtos: reverenciam o cuidado, a dedicação e a vida. Há algo mais profundo nas interações com o espaço e com figuras como a dona Luciana – uma rede invisível de significados, memórias e relações que transcendem o ato simples de comprar.

Por isso, sempre que vou ao mercado, não deixo de dar uma espiadinha na dona Luciana. Para mim, ela é um emblema – uma mulher que carrega a essência do Mercado, da terra e de tudo o que realmente importa: as “conexões ocultas”. Referenciando Fritjof Capra, no sentido de nos envolvermos e nos deixarmos levar por experiências mais holísticas e conectivas, em oposição às menos lineares, reducionistas e desconectadas da nossa humanidade.

Depois das mulheres e seus produtos da terra o que me chama o olhar é o corredor das flores. Ah, que desfile sofisticado! Não há tristeza que resista ali. É como entrar numa festa em que as convidadas já nasceram arrumadas. Rosas de todos os tons, orquídeas com ar elegante, margaridas, girassóis sorrindo para quem passa e os favoritos lisianthus, flores que escolhi para meu casamento... E então, no meio desse samba floral, algo me surpreende.

Imagine só: buchas vegetais! Sim, aquelas esponjas naturais que nascem enroladas nas cercas das hortas, com flores amarelas, primas dos pepinos, frutos que, quando secos, se transformam em acessório de banho – no Brasil, este arranjo certamente renderia uma boa piada. Mas aqui, as esponjas... Lá estavam elas, arrumadas como se fossem as estrelas de um vaso decorativo. Criativo, confesso. Mas meu primeiro pensamento foi outro: “Será que, se eu levar isso para casa, não acabam na banheira?”

Fiquei encarando o buquê com um sorriso espoleta, imaginando a reação das visitas. “Luxo ou loucura?”, pensei. De qualquer forma, era impossível não admirar a ousadia de transformar algo tão simples em arte. No mercado, até buchas ganham outro propósito. Vai dizer que isso não é genial?

A vendedora, percebendo meu interesse, não tardou a explicar a origem dos arranjos de esponja. Holandeses. De cá ou de lá, o que importa é a diversidade de utilidades. Essas flores são de mesa e de banho. Sustentabilidade pura. Pensei. Quando o arranjo desbotar, vira esponja para o banho. E olha, quanto mais usada, mais macia fica. É só deixar a natureza trabalhar.

Nessas conversas tão cheias de simplicidade e criatividade, o tempo passa sem que a gente perceba. Só o estômago, com sua pontualidade rigorosa, consegue lembrar da hora.

Deixei o corredor das flores com a alma aquecida e uma vontade gigante de rir da descoberta sobre os nossos curiosos pepinos de banho. Para encerrar o passeio, passei para pegar o pão de Mafra, cheirando a forno à lenha, e depois ao Salgados para acalmar o estômago. Já era hora do Palavras & Azeitonas com belos acompanhamentos, afinal nem só de escritas eu vivo... Enquanto o aroma do café me envolvia, pensei: o mercado é isso. Um lugar para onde a gente vai por gosto e necessidade e de onde volta carregando histórias, memórias e, às vezes, boas risadas.

Amanhã é quarta-feira. Já separou suas sacolas? Vamos ao mercado, porque, assim como no samba, é impossível resistir às conexões do Mercado. Bora lá!!!






A Vênus de Santo Antônio

 





A Vênus de Santo Antônio

Katia Bonfanti, Psicóloga, Terapeuta Sistêmica e poeta do cotidiano

Palavras & Azeitonas

Costumo ir ao Mercado da Vila de manhã, mas, numa dessas semanas, só me restou o fim de tarde de sábado. Foi um fechar de dia surpreendente. Assim que cheguei, deparei-me com as bancas dos artesões locais: muita arte e uma rica variedade de artesanato. Foi impossível não parar para admirar as criações da Santa Ideia, uma coleção sofisticada tanto no feitio quanto nos materiais. Tudo feito pela brasileira, agora tão portuguesa, Vênus.

Ela estava no momento de encerrar sua jornada do dia, mas, para minha sorte, aceitou sentar-se comigo para uma taça de vinho e uma degustação de algo especial. Conversamos sobre tantas coisas que, ao final, sugeri, em segredo, a Santo Antônio que presenteasse Vênus com uma surpresa. Afinal, ela é encantadora e merece ser surpreendida pelo casamenteiro.

Vênus vem da terra do sol, onde a luz ofuscante carrega dentro de seus prismas intensidades que só o tempo e a mística podem revelar. O divino e o humano seguem entrelaçados, compartilhando complexidade e mistério ad aeternum. Foi sob essa claridade tremulante do Ceará que nasceu Maria Vênus, uma menina miúda com um destino traçado à mão pelos seus ancestrais.

Vênus tornou-se uma grande mulher. Carrega em si o brilho quente e enigmático do planeta que lhe dá nome. Assim como o astro, ela é envolta em mistérios, vestida de nuvens densas que escondem tempestades de paixão e silêncios de fogo. Seu magnetismo é irresistível—quem se aproxima sente o calor de sua presença e a intensidade de sua essência. Vênus tem a capacidade de nos consumir com suas belas histórias, algumas sacras, outras bem vividas.

Tal como o planeta gira ao contrário, dançando em um ritmo só seu, Vênus não se curva às órbitas previsíveis do mundo. Escolhe seus próprios caminhos, ama com a fúria de um sol aprisionado e queima ilusões com sua luz dourada. Recria a sua realidade em arte. Admirada à distância, desejada de perto—Vênus não pertence a ninguém, exceto a si mesma.

A vida, como costuma fazer com quem carrega o brilho de um planeta, mas ainda não sabe, não lhe foi generosa nos primeiros atos. Apresentou-lhe desafios em horas impróprias, desmoronou seus alicerces e testou sua fibra. Mas Vênus, desde pequena, já desmontava o mundo ao seu redor com as mãos para reconstruí-lo sob uma nova forma. Detalhista, inventiva, carregava o requinte de quem sabe que cada miçanga, por menor que seja, tem um papel a cumprir no bordado da existência.

Amava o Ceará, mas, por mais vasto que fosse, era pequeno para suas aspirações. A menina-mulher precisava de mais mundo, de mais espaço para estampar sua marca na arte-vida. O destino, sempre com seu jeito misterioso de agir, abriu-lhe um oceano e a fez aportar em um novo país. Portugal, com seu ar provinciano e acolhedor, ofereceu-lhe as oportunidades que a pequena cearense transformou em degraus.

Para quem não conheceu Vênus, esta é a chance de adentrar o universo de uma mulher vivaz: artista plástica, empreendedora, visionária, imigrante. Nos meandros mais profundos de sua trajetória, encontrava na onipresença de Santo Antônio a luz para guiar seus passos, fosse na arte sacra ou na construção de um império de conhecimento sobre cultura e negócios luso-brasileiros. E como entende de negócios esta mulher!

A história de Vênus é tecida por ancestralidade, desafios quase indomáveis e reviravoltas dignas de uma epopeia. Da influência portuguesa e religiosa sobre sua arte ao momento em que perdeu a mãe e, simultaneamente, tornou-se mãe de sua própria irmã e de uma conhecida que acabou por maternar na hora mais difícil. A menina que veio para ajudar caiu doente no colo da Vênus.

Nesta investida contra a morte, a artista usou suas ferramentas para curar: suas mãos preparavam poções de vida. Venceram o cancro juntas. A chegada em Portugal, embora fosse um retorno à terra de seus ancestrais, revelou-se um desafio: um país que lhe era de origem, mas não de pertencimento imediato.

Foi enfrentando burocracias, preconcepções e os labirintos da imigração que Vênus, com o olhar perspicaz de quem sabe ler oportunidades no improvável, ergueu-se. Transformou-se em uma empresária influente, conectando laços entre Brasil e Portugal. Recém-empresária, conheceu o leão das Finanças portuguesas, mas Santo Antônio estava lá, pronto a lhe dar a mão. Impressionante como a fé desta mulher faz convergir estratégias para sair das crises.

A Capela Sistina, com sua grandiosidade celestial, serviu-lhe de inspiração para um modelo de negócios lucrativo. O trabalho com réplicas sacras deu-lhe uma medalha metafórica de triunfo. Mas sua arte não era apenas estética; era um refúgio, um processo de sublimação dos lutos e desafios. Mesmo quando a vida a chamou para cuidar da saúde do companheiro, a arte continuou a pulsar dentro dela, como um coração que nunca se permite parar.

E então, num retorno simbólico e cheio de significado, Vênus reencontra Santo Antônio e todas as outras imagens sacras em seu Atelier da Santa Ideia. Que santa ideia este nome! O acolhedor Atelier é um lugar onde a cearense, à frente de seu tempo, apenas segue os passos de seu santo protetor. Na casa e no trabalho, Vênus conta com a parceria de sua querida irmã Célia e do sobrinho Gonçalo, ao qual é todo amor.

Naquela tarde dourada, sentamo-nos na mesa alta dos Salgados no Mercado da Vila. Entre goles de vinho e histórias bem temperadas, Pedro nos serviu os famosos pastéis de vitela, que ele jura serem melhores que os do Brasil. Crocantes por fora, suculentos por dentro, uma experiência gastronômica que evocava memórias e afetos. Conversamos, rimos, brindamos ao inesperado, ao destino que tece encontros e ao sol que se despedia por entre os guarda-sóis do mercado. Ali, na cumplicidade de um momento partilhado, tivemos a certeza de que Santo Antônio nos guarda para todo o sempre e que entre a Terra e a Vênus existem muitas histórias para contar.

Sábado vou ao Mercado... Vamos!!?




Nós no Peixe

   


Palavras & Azeitonas

Por Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

Hoje, conversando com uma amiga sobre a escrita de histórias, ela me contou que acompanha uma página de narrativas diárias e que seu dia não corre bem sem aqueles minutos de leitura. Fiquei curiosa, especialmente pelo título: Nós nos Outros. Então, fui até a página no Facebook e percorri muitas histórias. Faz todo sentido para mim.

Sempre que conheço alguém e sinto vontade de escrever sobre essa pessoa, é porque há uma ressonância ainda imperceptível, mas irresistível.

É isso. É sempre eu nos outros, os outros em mim. Um eu que é forasteiro, peregrino, lisonjeiro e, acima de tudo, aprendiz.

Foi por essa teia infinita de ressonâncias que, outro dia, na Peixaria do Peixoto, entre peixes estranhos e criaturas que ainda não consigo aceitar como comestíveis, me vi, sem planejar, tendo uma aula de culinária logo pela manhã.

Mergulhei, sem aviso, na arte de uma sopa de peixe.

Sopa de Peixe Vermelho.

Sopa com espinhos? Sim e não.

O peixe fresco e vermelho-alaranjado, único exemplar sobre o balcão, parecia esperar por seu chef. Naquele dia, o chef undercover também esperava, preparado para decifrar os meandros e as forças do ensolarado, que caiu na rede do Peixoto. Eu, desconhecedora de tantos peixes do mar, mirava o robalo selvagem e o salmão recém-chegado, sentindo-me capaz de preparar apenas esses. Fui, então, brindada com uma explicação detalhada sobre a receita da sopa de peixe vermelho—um nome diferente, talvez rascasso, não tenho certeza... Mas o passo a passo está bem guardado para o próximo ato.

Segundo o chef, trata-se de uma sopa saborosíssima e lisa—se souber fazer. Pois há o perigo. É preciso habilidade para garantir a lisura... Bem, as cebolas loiras são o início do processo, depois as postas bem abafadas, e o cozido ferve até derreter o fortão.

Lembro também da história que ele me contou sobre o peixe. Disse que, há muitos anos, os pescadores o reservavam para si, como fazem os churrasqueiros lá no Sul do Brasil, que guardam o melhor espeto. Segundo o chef, esse peixe era o responsável pela força dos pescadores. Mito ou não, o nome fez sentido na hora. Depois, baralhei, pois estava concentrada em não perder o todo.

Mas no sábado volto ao Mercado para descobrir o nome do peixe e saber mais sobre a lenda daquele viajante vermelho. Quem sabe descubro mais particularidades dos nós no peixe… um peixe inquieto, curioso, resistente, que sai dos Açores e ressurge—vivo—no Mercado de Cascais.

Seria mesmo bom reencontrar o chef e conferir se sua sopa deu certo e se ele sentiu diferença na força depois de tomá-la. Isso seria um dado importante na manutenção do mito.

De qualquer modo, no sábado eu vou, sem falta, ao Mercado. Porque gosto de escutar as pessoas sobre suas andanças, suas histórias antigas e as lendas que, sem querer, revelam tanto de quem as conta. Mesmo os que narram sem desejar ser descobertos, como o chef undercover.

Passo primeiro no Peixoto para dizer que o próximo peixe da força que chegar dos Açores é todo meu—porque imigrar exige muita força. E, no fundo, é também sobre uma sopa de peixe que nos envolve—ora com, ora sem espinhas.

O que importa é que, naquela altura, a ressonância imperceptível esteve o tempo todo ali—para o chef misterioso, para o peixe dos Açores e para mim.

Entendem?

Depois, sigo para a magia do café e para mais Palavras & Azeitonas.

O peso do amanhã... nos olhos de chumbo





 O peso do amanhã... nos olhos de chumbo

Por Katia Bonfanti

 

Descia a rua 25 de Abril, envolvida na estação das flores que, ironicamente, se manifestava em pleno outono. Para mim, outubro é sempre primavera — ainda tenho essa referência gravada na alma, de tantos anos vividos no Brasil. Agora, aqui em Portugal, o outono floresce de uma forma que só quem viveu outra realidade pode entender. Caminhava sob os grandes plátanos, quando uma voz me tirou daquela imersão:

— Com licença, jovem senhora, teria qualquer coisa para ajudar? Eu uso este remédio para os olhos, mas estou sem todo o dinheiro...

"Olha só...", pensei. "Se é para os olhos, é algo que não pode esperar." Sem hesitar, dei um passo em direção ao homem que já se aproximava de mim. Trazia um pequeno frasco na mão e uma bolsa gasta a tiracolo. Parecia ter setenta e muitos anos. Os óculos de sol com lentes escuras acinzentadas que usava, criavam um contraste curioso: ao mesmo tempo em que sugeriam a necessidade do remédio, também me deixaram ligeiramente desconfiada.

— Não costumo andar com dinheiro — avisei, abrindo a carteira, sabendo que era verdade. Os cartões e o MB Way transformaram as moedas em raridades no meu dia a dia.

Ele sorriu, talvez por perceber a minha sinceridade, talvez por notar que, de facto, eu não tinha muito o que lhe oferecer. Mas lá estavam algumas moedas. Rimos juntos quando encontrei um euro e setenta cêntimos. Entreguei-lhe o dinheiro, e ele agradeceu com uma expressão de gratidão que parecia vir de um lugar profundo. Aquela pequena quantia, naquele momento, era muito mais do que apenas moedas.

Continuei o meu caminho. Era quarta-feira, e eu decidira ir ao Mercado da Vila, fazer a feira, tomar um café... Apreciar o primor que a esplanada oferecia. Ao parar em frente a uma vitrine, distraída, senti-me observada. Ao virar, lá estava o senhor Alberto — o "velhote", como chamam os senhores mais velhos por aqui. O mesmo sorriso.

— Fiquei muito agradecido por me ajudar — disse ele, aproximando-se. — As pessoas mais jovens costumam não parar para os velhotes.

Achei graça.

— O senhor me chama jovem, mas os meus vinte já ficaram para trás há trinta anos... — rimos juntos.

Fomos andando lado a lado, a um ritmo lento, enquanto o Sr. Alberto partilhava as suas histórias de vida. Era reformado, ex-combatente, e lutou na guerra da Guiné.

— Sou ex- combatente, fiz carreira no exército, disse ele com voz de quem cumpriu a missão.

Passou quatorze anos em Moçambique, onde sofreu um ferimento grave nos olhos. Tinha agora uma visão reduzida, resultado de uma guerra que nunca o abandonou. Quando tirou os óculos, vi que os seus olhos carregavam não só as cicatrizes físicas, mas também as da alma. A guerra estava inscrita neles, profunda, intacta. Envergonhei-me de ter pensado que as lentes eram uma estratégia golpistas.

Contou-me que, após toda aquela luta, vive com uma pensão de setecentos euros por mês, além de cento e cinquenta euros anuais pelo ferimento que quase lhe tirou a vista. Com o passe livre nos transportes - pelo menos isso - viaja pelas cidades vizinhas, passeia, espairece... e, quando é preciso, pede ajuda para os medicamentos que o subsídio não cobre. Vive em Lisboa, mas quer viver em uma cidade menor, mais tranquila e humanizada. Falava de Cascais como uma cidade acolhedora, com pessoas que andam calmamente. Vem para Cascais alguns dias por mês. Aqui consegue completar o valor para o remédios dos olhos, que custam vinte e sete euros. Mostrou-me os seus documentos e as bombas para asma. Esta doença crônica teve início na guerra, durante um combate. Acho que ia morrer sufocado. Nunca mais se livrou das crises.

— A vantagem é que estes são subsidiados, se é que ter remédio subsidiado é alguma vantagem, melhor seria não ter asma. Disse ele.

Depois de ouvir tudo aquilo, não pude conter a curiosidade que me invadiu.

— Sr. Alberto, o que assusta um homem que enfrentou a guerra?

Ele parou. A sua expressão mudou, e o silêncio que se seguiu causou-me desconforto, ao pensar que talvez eu não devesse ter perguntado. Não era uma resposta fácil, eu sabia. O silêncio dele dizia tanto quanto as palavras que vieram a seguir, carregadas de uma sinceridade que me desmontou. Eu estava diante de um ex-combatente de guerra. Embora eu tenha escutado muitas histórias do meu antepassado, que lutou na guerra na conquista da Líbia, no exército italiano, aquele silêncio do Sr. Alberto, um desconhecido, deixava-me desarmada no front.

— Na guerra, a gente tinha que se defender. Olha aqui minha testa. Metade é platina. Foram quatro cirurgias... por isso fiquei com o olho pendurado aqui... a guerra é lutar. Cada dia uma vitória... uma ânsia para sobreviver mais um. Amanhã? Amanhã não existia. A gente só pensava no hoje, no tiro que podia acabar com tudo.

Fez uma pausa, os olhos voltados ao chão. Depois, continuou, num tom mais baixo:

— Agora, eu tenho medo. Muito medo. O amanhã existe, e é por isso que eu tenho tanto medo. Não sei como viver com setecentos euros. O que me mata agora é o medo de passar fome, de não conseguir comer o que preciso, de me sentir humilhado...

— a voz dele tremeu — ...de ter que pedir dinheiro. A minha tragédia não deveria ser carregada por pessoas como a senhora, que parecem ser tão felizes.

Aquelas palavras atravessaram-me. A sua dor transbordou por debaixo dos óculos cor de chumbo. A primavera que eu sentira no início do dia, aquela visão florida de um outono acolhedor, de repente desapareceu. Agora, era como se o inverno tivesse coberto tudo com o seu manto frio e cinzento. Caminhávamos sob o mesmo sol, mas o Sr. Alberto parecia preso num mundo gélido, onde cada dia era uma luta silenciosa por sobrevivência.

Convidei-o para ir comigo ao Mercado, tomar um café, comer algo, quem sabe. Ele recusou com gentileza, mas deixando seu sentimento falar.

— O Mercado não é mais lugar para mim — disse ele, com um aceno suave. — Vou sentar-me perto do Hotel Baía. Ver o mar. Talvez consiga mais algumas moedas. Esboçou um riso esmaecido e seguiu em direção ao Centro Histórico.

Continuei a descer a rua 25 de Abril, mas agora tudo parecia diferente. O caminho estava mais apagado, como se a cor tivesse escorrido com as lágrimas do Sr. Alberto. Quando cheguei ao Mercado, o cenário alegre que normalmente me envolvia não me alcançava. Andei entre as bancas externas, os olhos parados em lugar nenhum, os pensamentos ainda presos ao Sr. Alberto e à guerra que ele continuaria a travar. Uma guerra invisível, feita de pobreza e solidão. Tentava entender a perspectiva dele e de tantos outros que vivem esse mesmo desafio: sobreviver. Nem pensam em viver plenamente, apenas sobreviver — não morrer pelas necessidades básicas.

Depois de um tempo, comecei a recuperar-me. Aos poucos, escolhi as frutas, conversei com os vendedores, mas, no fundo, ainda estava lá, na vida do Sr. Alberto, tentando imaginar as privações que ele enfrenta. A cada banca, eu me punha a analisar: não por acaso suas lentes eram acinzentadas... será que, com o pouco que tem, ainda consegue saborear as frutas do Algarve, os azeites, os queijos, os vinhos do Alentejo ou do Douro? Será que o bacalhau, tão apreciado pelos portugueses, também por mim, ainda chega à sua mesa? Que raio de guerra é essa! Que “estado de sítio” estão vivendo esses cidadãos? Como mudar essa famigerada desigualdade? Quem pode? Quem não... E eu...

No meio dos meus pensamentos, o Mercado da Vila foi fazendo o que sempre faz: envolveu-me com a sua energia. A simpatia das pessoas, o aroma do pão, o calor das conversas... É isso, quem não está em estado de guerrilha como o Sr. Alberto, vive. E o Mercado da Vila tem seu poder sobre mim e sobre todos que por lá transitam. Lugar que transcende. Lugar de gente simpática.

Minutos depois, já estava com as frutas no saco, a mesa pronta, o salgado quentinho e o café brasileiro perfumando as conversas... À mesa, uma angolana, uma francesa, uma italiana e uma ítalo-brasileira, a guardar o Sr. Alberto dentro do coração -

bem guardado, como uma história de vida que fez passos com a minha.

O Mercado da Vila é para todos nós, sim, Sr. Alberto. Mesmo que não voltes, a tua presença está aqui.

Até breve.

A Arte de uma Mulher Relicário





 Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

 

SeMpre que a avistava, sentia como se tantas faces habitassem uma única mulher. Havia algo de enigma no modo como se movia, como se sua presença carregasse histórias secretas, fragmentos de vidas que minha curiosidade literária insistia em decifrar. Um dia, quem sabe.

Naquela ocasião, ela sorria, e seu batom, em sintonia com a peça de pluma envolta no pescoço, parecia um detalhe intencionalmente desenhado para compor a cena. Conversava atentamente com outra mulher não menos intrigante, que vestia um sobretudo de lã vermelho, perfeitamente alinhado ao chapéu de feltro da mesma cor. A conversa entre elas parecia ter calor próprio, um brilho intenso como a cor que as vestia. Amizade, cumplicidade...

Eu diria que, se estivesse naquela roda, poderia passar o dia inteiro sem perceber as horas. Mas permaneci à margem, apenas observando. E, ao final, perdi-me não apenas na contemplação, mas na busca silenciosa pelo "chapéu de chuva" da dama do chapéu de feltro.

O inverno cedeu espaço à primavera, e foi então que uma poesia pousou sobre a mesa. É sempre assim: quando o olhar se demora sobre algo, o mundo se revela em camadas, e o que parecia sempre o mesmo mostra-se infinitamente diverso.

E eis que, eu, sem o sobretudo nem o chapéu de feltro, fiz par com a sua presença, e com toda a força de narrativa que transborda dela. Descobri, então, que aquela mulher não era apenas um rosto interessante na multidão — era um compêndio de histórias, um livro ainda por publicar.

"Minha vida daria um livro. Aliás, já escrevi um... mas nunca publiquei", confidenciou-me, com um brilho discreto nos olhos e um aperto delicado nos meus braços. E foi assim que as páginas de sua existência começaram a se desdobrar diante de mim. Aquela senhora vívida, de pequena estatura abria-me uma vastidão que só poderia habitar outros corpos dentro de si.

Falou-me de Moçambique, onde, ao lado do marido, montara uma hospedaria. O próprio requinte feito hospedagem. Um negócio que precisou abandonar, junto com as joias da família e tantos objetos valiosos, quando foram surpreendidos pelos ventos do 25 de abril de 1974. Fugiram às pressas para a África do Sul, sem sequer ter tempo de ir ao banco reaver os valores e heranças maternas.

Na nova terra, começaram do zero. O marido, bom negociante, logo ascendeu em uma imobiliária, e não tardou para que reconstruíssem a vida. O hotel de sete andares surgiu como um novo império, um testemunho do que haviam superado. Os corredores com tapetes espessos, a cristaleira reluzindo com taças delicadas, os salões iluminados por lustres imponentes. Os hóspedes iam e vinham, e eles, enfim, respiravam o alívio da segurança.

Mas a vida, sempre dinâmica, revelou-lhes outra face das sociedades e seus desdobramentos. Um dia, veio o golpe.

"Estamos sem nada. Nem mesmo o carro está em nosso nome... Perdemos tudo", confessou-lhe o marido, desolado. A frase quebrou seu sonho como uma taça de cristal que se espatifa antes do último gole de vinho.

Sem forças para recomeçar ali, decidiram regressar a Portugal, refazer a vida em terras que, um dia, já foram casa. E foi no reencontro com o passado que ela encontrou também um caminho para o futuro. Sem pensar em outra atividade que não fosse aquiLo que sempre lhe encantara — talvez um modo de recuperar tantas peças perdidas, ou quem sabe elaborar os lutos impressos nos objetos que a Revolução tratou de engolir —, criou um propósito. Tornou-se uma antiquária.

Foi assim que, em Cascais, no antigo Vila Cascais, a vida voltou a encontrar um ritmo de tranquilidade. Um espaço amplo, onde peças antigas eram "encontradas", vendidas e ressignificadas em algum novo lar. Aprendeu a dar passagem para o passado, deixar ir as histórias e as memórias...

Mas a máxima se confirma: a única certeza é a impermanência. Quando parecia que enfim havia alcançado uma estabilidade, a vida lhe cobrou outra conta amarga. Perdeu o marido. E, com a perda, veio uma descoberta ainda mais brutal: uma dívida que não era sua, mas que agora estava sob sua responsabilidade.

O choque foi duplo. De repente, viu-se sem o companheiro de vida e sem os alicerces financeiros que julgava ter reconstruído. Mas para quem carrega a fibra de quem já renasceu tantas vezes, nenhum golpe é forte o bastante para arrancar-lhe o sorriso ou a coragem de recomeçar.

O trabalho estava aquecido, e ela jurou que daria passos à frente enquanto tivesse sangue pulsando em suas veias. Com o tempo, a resiliência e o apoio dos filhos, reergueu-se. As finanças foram restabelecidas, na medida do possível. E o que mais importava era que seguia em movimento e com ideias de futuro. Ver-se no amanhã faz toda a diferença, entre seguir ou sucumbir.

À beira dos 90 anos, aquela senhora requintada sentia-se satisfeita com o que havia conquistado depois de tantas quedas. Mas a vida, implacável e sempre disposta a testar os fortes, reservava-lhe mais um desafio.

Numa bela manhã, recebeu a notícia que novamente a puxaria para o chão: o shopping Vila Cascais, onde esteve décadas a negociar peças de arte, seria fechado.

Maria de Lourdes, essa mulher que se reerguera tantas vezes, agora via seu espaço ameaçado. Era como desfazer, mais uma vez, não apenas um trabalho, mas parte de sua própria identidade. Estaria ela fadada ao azar? Sorte e azar são conceitos frágeis diante de quem carrega a experiência dos recomeços. Maria de Lourdes não é feita de sorte, nem de azar. É feita de coragem.

No Mercado da Vila de Cascais, sua presença é macia. Não há quem passe sem sentir sua leveza. Observadora, notou meu anel e, com um gesto quase imperceptível, fez a madrepérola reluzir. Talvez a beleza só se complete quando encontra um olhar à sua altura. Ela sabe encontrar a raridade nas coisas cotidianas.

Anda de cá para lá, apresentando suas peças como quem apresenta relíquias do tempo, fragmentos de histórias, marcas de vidas passadas. Pequenas flores, alinhavos, nós e bordados da sua própria vivência.

Bem acompanhada pelo seu neto, mostra o quanto conhece a trajetória das artes que compõem sua banca, toca-as com reverência, estuda as ranhuras, os detalhes ocultos, as inscrições quase apagadas. Sabe o peso de uma prataria antiga, distingue sua origem, quase ouve os segredos de quem a seguraram antes.

Maria de Lourdes não passa em branco pela vida, nem deixa de ver as belezas nos símbolos do passado. Não, mesmo! E sua resiliência se deve ao modo como recupera suas forças, o modo como reinveste nas suas versões de ser mulher todos os dias. Mulher que “escreve” sua história, porque reconhece as suas valências, que a torna invencível nos momentos de ruptura.

Ela é sempre nova, sempre esperançosa e radiante vestida da cabeça aos pés com as suas nove décadas de vida como se fossem vestimentas vaporosas da juventude. Talvez porque quem já renasceu das cinzas tantas vezes e ainda mantém um sorriso luminoso no rosto, só pode ser feita de algo maior que o tempo. Quanta inspiração para as mulheres de todos os tempos,

 Sra. Maria de Lourdes!

Jurei escrever pouco, mas não cumpri. Sua história não cabe em poucas linhas. Ela merece mais do que um livro – merece ser eternizada.

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...