O peso do amanhã... nos olhos de chumbo





 O peso do amanhã... nos olhos de chumbo

Por Katia Bonfanti

 

Descia a rua 25 de Abril, envolvida na estação das flores que, ironicamente, se manifestava em pleno outono. Para mim, outubro é sempre primavera — ainda tenho essa referência gravada na alma, de tantos anos vividos no Brasil. Agora, aqui em Portugal, o outono floresce de uma forma que só quem viveu outra realidade pode entender. Caminhava sob os grandes plátanos, quando uma voz me tirou daquela imersão:

— Com licença, jovem senhora, teria qualquer coisa para ajudar? Eu uso este remédio para os olhos, mas estou sem todo o dinheiro...

"Olha só...", pensei. "Se é para os olhos, é algo que não pode esperar." Sem hesitar, dei um passo em direção ao homem que já se aproximava de mim. Trazia um pequeno frasco na mão e uma bolsa gasta a tiracolo. Parecia ter setenta e muitos anos. Os óculos de sol com lentes escuras acinzentadas que usava, criavam um contraste curioso: ao mesmo tempo em que sugeriam a necessidade do remédio, também me deixaram ligeiramente desconfiada.

— Não costumo andar com dinheiro — avisei, abrindo a carteira, sabendo que era verdade. Os cartões e o MB Way transformaram as moedas em raridades no meu dia a dia.

Ele sorriu, talvez por perceber a minha sinceridade, talvez por notar que, de facto, eu não tinha muito o que lhe oferecer. Mas lá estavam algumas moedas. Rimos juntos quando encontrei um euro e setenta cêntimos. Entreguei-lhe o dinheiro, e ele agradeceu com uma expressão de gratidão que parecia vir de um lugar profundo. Aquela pequena quantia, naquele momento, era muito mais do que apenas moedas.

Continuei o meu caminho. Era quarta-feira, e eu decidira ir ao Mercado da Vila, fazer a feira, tomar um café... Apreciar o primor que a esplanada oferecia. Ao parar em frente a uma vitrine, distraída, senti-me observada. Ao virar, lá estava o senhor Alberto — o "velhote", como chamam os senhores mais velhos por aqui. O mesmo sorriso.

— Fiquei muito agradecido por me ajudar — disse ele, aproximando-se. — As pessoas mais jovens costumam não parar para os velhotes.

Achei graça.

— O senhor me chama jovem, mas os meus vinte já ficaram para trás há trinta anos... — rimos juntos.

Fomos andando lado a lado, a um ritmo lento, enquanto o Sr. Alberto partilhava as suas histórias de vida. Era reformado, ex-combatente, e lutou na guerra da Guiné.

— Sou ex- combatente, fiz carreira no exército, disse ele com voz de quem cumpriu a missão.

Passou quatorze anos em Moçambique, onde sofreu um ferimento grave nos olhos. Tinha agora uma visão reduzida, resultado de uma guerra que nunca o abandonou. Quando tirou os óculos, vi que os seus olhos carregavam não só as cicatrizes físicas, mas também as da alma. A guerra estava inscrita neles, profunda, intacta. Envergonhei-me de ter pensado que as lentes eram uma estratégia golpistas.

Contou-me que, após toda aquela luta, vive com uma pensão de setecentos euros por mês, além de cento e cinquenta euros anuais pelo ferimento que quase lhe tirou a vista. Com o passe livre nos transportes - pelo menos isso - viaja pelas cidades vizinhas, passeia, espairece... e, quando é preciso, pede ajuda para os medicamentos que o subsídio não cobre. Vive em Lisboa, mas quer viver em uma cidade menor, mais tranquila e humanizada. Falava de Cascais como uma cidade acolhedora, com pessoas que andam calmamente. Vem para Cascais alguns dias por mês. Aqui consegue completar o valor para o remédios dos olhos, que custam vinte e sete euros. Mostrou-me os seus documentos e as bombas para asma. Esta doença crônica teve início na guerra, durante um combate. Acho que ia morrer sufocado. Nunca mais se livrou das crises.

— A vantagem é que estes são subsidiados, se é que ter remédio subsidiado é alguma vantagem, melhor seria não ter asma. Disse ele.

Depois de ouvir tudo aquilo, não pude conter a curiosidade que me invadiu.

— Sr. Alberto, o que assusta um homem que enfrentou a guerra?

Ele parou. A sua expressão mudou, e o silêncio que se seguiu causou-me desconforto, ao pensar que talvez eu não devesse ter perguntado. Não era uma resposta fácil, eu sabia. O silêncio dele dizia tanto quanto as palavras que vieram a seguir, carregadas de uma sinceridade que me desmontou. Eu estava diante de um ex-combatente de guerra. Embora eu tenha escutado muitas histórias do meu antepassado, que lutou na guerra na conquista da Líbia, no exército italiano, aquele silêncio do Sr. Alberto, um desconhecido, deixava-me desarmada no front.

— Na guerra, a gente tinha que se defender. Olha aqui minha testa. Metade é platina. Foram quatro cirurgias... por isso fiquei com o olho pendurado aqui... a guerra é lutar. Cada dia uma vitória... uma ânsia para sobreviver mais um. Amanhã? Amanhã não existia. A gente só pensava no hoje, no tiro que podia acabar com tudo.

Fez uma pausa, os olhos voltados ao chão. Depois, continuou, num tom mais baixo:

— Agora, eu tenho medo. Muito medo. O amanhã existe, e é por isso que eu tenho tanto medo. Não sei como viver com setecentos euros. O que me mata agora é o medo de passar fome, de não conseguir comer o que preciso, de me sentir humilhado...

— a voz dele tremeu — ...de ter que pedir dinheiro. A minha tragédia não deveria ser carregada por pessoas como a senhora, que parecem ser tão felizes.

Aquelas palavras atravessaram-me. A sua dor transbordou por debaixo dos óculos cor de chumbo. A primavera que eu sentira no início do dia, aquela visão florida de um outono acolhedor, de repente desapareceu. Agora, era como se o inverno tivesse coberto tudo com o seu manto frio e cinzento. Caminhávamos sob o mesmo sol, mas o Sr. Alberto parecia preso num mundo gélido, onde cada dia era uma luta silenciosa por sobrevivência.

Convidei-o para ir comigo ao Mercado, tomar um café, comer algo, quem sabe. Ele recusou com gentileza, mas deixando seu sentimento falar.

— O Mercado não é mais lugar para mim — disse ele, com um aceno suave. — Vou sentar-me perto do Hotel Baía. Ver o mar. Talvez consiga mais algumas moedas. Esboçou um riso esmaecido e seguiu em direção ao Centro Histórico.

Continuei a descer a rua 25 de Abril, mas agora tudo parecia diferente. O caminho estava mais apagado, como se a cor tivesse escorrido com as lágrimas do Sr. Alberto. Quando cheguei ao Mercado, o cenário alegre que normalmente me envolvia não me alcançava. Andei entre as bancas externas, os olhos parados em lugar nenhum, os pensamentos ainda presos ao Sr. Alberto e à guerra que ele continuaria a travar. Uma guerra invisível, feita de pobreza e solidão. Tentava entender a perspectiva dele e de tantos outros que vivem esse mesmo desafio: sobreviver. Nem pensam em viver plenamente, apenas sobreviver — não morrer pelas necessidades básicas.

Depois de um tempo, comecei a recuperar-me. Aos poucos, escolhi as frutas, conversei com os vendedores, mas, no fundo, ainda estava lá, na vida do Sr. Alberto, tentando imaginar as privações que ele enfrenta. A cada banca, eu me punha a analisar: não por acaso suas lentes eram acinzentadas... será que, com o pouco que tem, ainda consegue saborear as frutas do Algarve, os azeites, os queijos, os vinhos do Alentejo ou do Douro? Será que o bacalhau, tão apreciado pelos portugueses, também por mim, ainda chega à sua mesa? Que raio de guerra é essa! Que “estado de sítio” estão vivendo esses cidadãos? Como mudar essa famigerada desigualdade? Quem pode? Quem não... E eu...

No meio dos meus pensamentos, o Mercado da Vila foi fazendo o que sempre faz: envolveu-me com a sua energia. A simpatia das pessoas, o aroma do pão, o calor das conversas... É isso, quem não está em estado de guerrilha como o Sr. Alberto, vive. E o Mercado da Vila tem seu poder sobre mim e sobre todos que por lá transitam. Lugar que transcende. Lugar de gente simpática.

Minutos depois, já estava com as frutas no saco, a mesa pronta, o salgado quentinho e o café brasileiro perfumando as conversas... À mesa, uma angolana, uma francesa, uma italiana e uma ítalo-brasileira, a guardar o Sr. Alberto dentro do coração -

bem guardado, como uma história de vida que fez passos com a minha.

O Mercado da Vila é para todos nós, sim, Sr. Alberto. Mesmo que não voltes, a tua presença está aqui.

Até breve.

A Arte de uma Mulher Relicário





 Katia Bonfanti, psicóloga e escritora

 

SeMpre que a avistava, sentia como se tantas faces habitassem uma única mulher. Havia algo de enigma no modo como se movia, como se sua presença carregasse histórias secretas, fragmentos de vidas que minha curiosidade literária insistia em decifrar. Um dia, quem sabe.

Naquela ocasião, ela sorria, e seu batom, em sintonia com a peça de pluma envolta no pescoço, parecia um detalhe intencionalmente desenhado para compor a cena. Conversava atentamente com outra mulher não menos intrigante, que vestia um sobretudo de lã vermelho, perfeitamente alinhado ao chapéu de feltro da mesma cor. A conversa entre elas parecia ter calor próprio, um brilho intenso como a cor que as vestia. Amizade, cumplicidade...

Eu diria que, se estivesse naquela roda, poderia passar o dia inteiro sem perceber as horas. Mas permaneci à margem, apenas observando. E, ao final, perdi-me não apenas na contemplação, mas na busca silenciosa pelo "chapéu de chuva" da dama do chapéu de feltro.

O inverno cedeu espaço à primavera, e foi então que uma poesia pousou sobre a mesa. É sempre assim: quando o olhar se demora sobre algo, o mundo se revela em camadas, e o que parecia sempre o mesmo mostra-se infinitamente diverso.

E eis que, eu, sem o sobretudo nem o chapéu de feltro, fiz par com a sua presença, e com toda a força de narrativa que transborda dela. Descobri, então, que aquela mulher não era apenas um rosto interessante na multidão — era um compêndio de histórias, um livro ainda por publicar.

"Minha vida daria um livro. Aliás, já escrevi um... mas nunca publiquei", confidenciou-me, com um brilho discreto nos olhos e um aperto delicado nos meus braços. E foi assim que as páginas de sua existência começaram a se desdobrar diante de mim. Aquela senhora vívida, de pequena estatura abria-me uma vastidão que só poderia habitar outros corpos dentro de si.

Falou-me de Moçambique, onde, ao lado do marido, montara uma hospedaria. O próprio requinte feito hospedagem. Um negócio que precisou abandonar, junto com as joias da família e tantos objetos valiosos, quando foram surpreendidos pelos ventos do 25 de abril de 1974. Fugiram às pressas para a África do Sul, sem sequer ter tempo de ir ao banco reaver os valores e heranças maternas.

Na nova terra, começaram do zero. O marido, bom negociante, logo ascendeu em uma imobiliária, e não tardou para que reconstruíssem a vida. O hotel de sete andares surgiu como um novo império, um testemunho do que haviam superado. Os corredores com tapetes espessos, a cristaleira reluzindo com taças delicadas, os salões iluminados por lustres imponentes. Os hóspedes iam e vinham, e eles, enfim, respiravam o alívio da segurança.

Mas a vida, sempre dinâmica, revelou-lhes outra face das sociedades e seus desdobramentos. Um dia, veio o golpe.

"Estamos sem nada. Nem mesmo o carro está em nosso nome... Perdemos tudo", confessou-lhe o marido, desolado. A frase quebrou seu sonho como uma taça de cristal que se espatifa antes do último gole de vinho.

Sem forças para recomeçar ali, decidiram regressar a Portugal, refazer a vida em terras que, um dia, já foram casa. E foi no reencontro com o passado que ela encontrou também um caminho para o futuro. Sem pensar em outra atividade que não fosse aquiLo que sempre lhe encantara — talvez um modo de recuperar tantas peças perdidas, ou quem sabe elaborar os lutos impressos nos objetos que a Revolução tratou de engolir —, criou um propósito. Tornou-se uma antiquária.

Foi assim que, em Cascais, no antigo Vila Cascais, a vida voltou a encontrar um ritmo de tranquilidade. Um espaço amplo, onde peças antigas eram "encontradas", vendidas e ressignificadas em algum novo lar. Aprendeu a dar passagem para o passado, deixar ir as histórias e as memórias...

Mas a máxima se confirma: a única certeza é a impermanência. Quando parecia que enfim havia alcançado uma estabilidade, a vida lhe cobrou outra conta amarga. Perdeu o marido. E, com a perda, veio uma descoberta ainda mais brutal: uma dívida que não era sua, mas que agora estava sob sua responsabilidade.

O choque foi duplo. De repente, viu-se sem o companheiro de vida e sem os alicerces financeiros que julgava ter reconstruído. Mas para quem carrega a fibra de quem já renasceu tantas vezes, nenhum golpe é forte o bastante para arrancar-lhe o sorriso ou a coragem de recomeçar.

O trabalho estava aquecido, e ela jurou que daria passos à frente enquanto tivesse sangue pulsando em suas veias. Com o tempo, a resiliência e o apoio dos filhos, reergueu-se. As finanças foram restabelecidas, na medida do possível. E o que mais importava era que seguia em movimento e com ideias de futuro. Ver-se no amanhã faz toda a diferença, entre seguir ou sucumbir.

À beira dos 90 anos, aquela senhora requintada sentia-se satisfeita com o que havia conquistado depois de tantas quedas. Mas a vida, implacável e sempre disposta a testar os fortes, reservava-lhe mais um desafio.

Numa bela manhã, recebeu a notícia que novamente a puxaria para o chão: o shopping Vila Cascais, onde esteve décadas a negociar peças de arte, seria fechado.

Maria de Lourdes, essa mulher que se reerguera tantas vezes, agora via seu espaço ameaçado. Era como desfazer, mais uma vez, não apenas um trabalho, mas parte de sua própria identidade. Estaria ela fadada ao azar? Sorte e azar são conceitos frágeis diante de quem carrega a experiência dos recomeços. Maria de Lourdes não é feita de sorte, nem de azar. É feita de coragem.

No Mercado da Vila de Cascais, sua presença é macia. Não há quem passe sem sentir sua leveza. Observadora, notou meu anel e, com um gesto quase imperceptível, fez a madrepérola reluzir. Talvez a beleza só se complete quando encontra um olhar à sua altura. Ela sabe encontrar a raridade nas coisas cotidianas.

Anda de cá para lá, apresentando suas peças como quem apresenta relíquias do tempo, fragmentos de histórias, marcas de vidas passadas. Pequenas flores, alinhavos, nós e bordados da sua própria vivência.

Bem acompanhada pelo seu neto, mostra o quanto conhece a trajetória das artes que compõem sua banca, toca-as com reverência, estuda as ranhuras, os detalhes ocultos, as inscrições quase apagadas. Sabe o peso de uma prataria antiga, distingue sua origem, quase ouve os segredos de quem a seguraram antes.

Maria de Lourdes não passa em branco pela vida, nem deixa de ver as belezas nos símbolos do passado. Não, mesmo! E sua resiliência se deve ao modo como recupera suas forças, o modo como reinveste nas suas versões de ser mulher todos os dias. Mulher que “escreve” sua história, porque reconhece as suas valências, que a torna invencível nos momentos de ruptura.

Ela é sempre nova, sempre esperançosa e radiante vestida da cabeça aos pés com as suas nove décadas de vida como se fossem vestimentas vaporosas da juventude. Talvez porque quem já renasceu das cinzas tantas vezes e ainda mantém um sorriso luminoso no rosto, só pode ser feita de algo maior que o tempo. Quanta inspiração para as mulheres de todos os tempos,

 Sra. Maria de Lourdes!

Jurei escrever pouco, mas não cumpri. Sua história não cabe em poucas linhas. Ela merece mais do que um livro – merece ser eternizada.

Nepalesa Lali Gurans


Nepalesa

Por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica

Ela é menina… e mulher, no mesmo gesto.

Do Nepal… traz no rostoa geografia do sole das montanhas,

nos olhos… a eternidade dos ventos friosque tocam sinos tibetanosantes do dia acordar.

Sorri…com todos os cílios do olhar — como quem sopra vida nas pedras quietas, como quem vê… o que ainda não nasceu, e acaricia futuros… com a ponta dos dedos.

Desperta vontades dos relicários da memória.

Alegrias…adormecidas na mala do tempo, guardadas… como amuletos de vida.

E sem esforço,sem se perceber mágica, ela reanima — como o orvalho… que faz o verde ser verde de novo.

Anda com a bandeja entre as mãos, leve… como dente-de-leão ao vento.

Faz sumos que sabem a céu claro, à infância recém-descascada, à manhã… que ainda tem cheiro de ontem limpo. E serve. Sempre serve. O melhor que possui. Sem alarde. Sem pressa. Como quem… não se cansa do bem.

Faz também café… com sabor de silieja — como ela diz, sorrindo… sem se importar com o tropeço da língua.

Seu português é pouco… mas dança — como ela. Entre palavras que não conhece, o café tem gosto de fruta vermelha colhida no sonho, de tarde… em boca pequena.

Não se contém de sorrir. Sorrir é sua forma de dizer “estou”.

Sua reza.

Sua dança.

Seu idioma.

Ela passa… essa inflorescência do Nepal, com olhos de eternidade e mãos de alvorada, tem a delicadeza… dos que não se sabem milagres.

Ela sabe esperar. Não como quem aguarda, mas como quem compreende o tempo. Como quem já dançou com ele… ao redor do fogo.

Como quem aprendeu que certas flores… só se abrem depois da quinta lua.

Ela espera…com os olhos pousados, como se cada segundo fosse um novelo de ouro em suas mãos pequenas.

No alto da testa… a marca vermelha — não um adorno, mas um coração que bate… fora do peito.

Pulsando visível, feito farol manso… em meio ao caos dos dias. Feito lembrança vivade tudo o que é sagrado… e misterioso.

O Mercado da Vila… tem mais graça quando ela chega. O Salgados, seu abrigo de sorte, onde serve sonhos em xícaras, colhendo risos como quem colhe açafrão ao pôr do sol.

Barcha é flor que caminha.

Flor em flor.

Flor que vence o vento. Não há quem não a leve no olhar, como uma canção recém escrita, que toca… sempre — nas horas exatas em que o mundo… parece querer desandar.

Barcha, girassol-alegria do Nepal.

Lali Gurans de alma inteira.

Traduçao em inglês

Nepalesa

She is a girl…and a woman, in the same gesture.From Nepal… she carries on her facethe geography of the sunand the mountains,in her eyes…the eternity of cold windsthat brush Tibetan bellsbefore the day awakens.

She smiles…with every lash of her gaze —as if breathing life into silent stones,as if seeing… what is yet to be born,and caressing futures…with the tips of her fingers.

She stirs longings from the relics of memory.Joys…asleep in the suitcase of time,kept… like life’s amulets.And effortlessly,unaware of her own magic,she revives —like the dew…that makes green be green again.

She walks with a tray in her hands,light…like dandelion in the wind.She makes juices that taste of clear skies,of freshly-peeled childhood,of morning…that still smells like yesterday, clean.And she serves.Always serves.The best she has.Without fanfare.Without hurry.As one who… never tires of goodness.

She makes coffee too…with the taste of silieja —as she says,smiling…not minding the stumble of the tongue.Her Portuguese is little…but it dances —like she does.Between words she doesn’t know,the coffee tastes like red fruit picked in dreams,in the afternoon…by a small mouth.

She cannot help but smile.Smiling is her way of saying I am here.Her prayer.Her dance.Her language.

She passes…this girl-woman from Nepal,with eyes of eternityand hands of dawn,holding the gentleness…of those who do not know they are miracles.

She knows how to wait.Not like someone who delays,but like one who understands time.Like someone who has danced with it…around the fire.Like someone who has learnedthat certain flowers…only bloom after the fifth moon.

She waits…with eyes at rest,as if each secondwere a golden skeinin her small hands.

On her forehead…the red mark —not a decoration,but a heartbeating…outside her chest.Pulsing visibly,like a gentle lighthouse…in the chaos of days.Like a living reminderof all that is sacred…and mysterious.

The Village Market…has more charm when she arrives.Salgados, her lucky haven,where she serves dreams in cups,gathering smiles like saffronat sunset.

Barcha is a flower that walks.Flower to flower.A flower that braves the wind.No one leaves without carrying her in their gaze,like a freshly written song,that plays… always —at the exact hourswhen the world…seems ready to fall apart.

Barcha, sunflower-joy of Nepal.Lali Gurans of a whole soul.

Ostras e Pérolas

 




Sobre levezas profundas, espumantes e a felicidade das ostras

Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

 

A poesia é a expressão mais pura do olhar — penso nisso sempre que vejo uma ostra abrindo-se, devagar, como se revelasse um segredo. Rubem Alves mostrou a beleza nascida de um grão de areia; ou melhor, a beleza forjada na dor, ao dizer: “ostra feliz não faz pérola.” O poeta levou-me a deslisar pelos labirintos dos moluscos, a questionar se a beleza esférica a balançar no fio dos meus brincos só poderia germinar no terrível desassossego causado por um grão de areia a esfolar a maciez daquela criaturinha — a ostra.

Mas então, ao olhar mais de perto, uma ideia se forma em minha mente: e se for a felicidade — e não a dor — a origem da beleza? E se descobríssemos que as cascas das ostras são, na verdade, suas verdadeiras pérolas — e que nelas habita a essência de uma vida-ostra?

Talvez a beleza forjada na dor seja, afinal, uma grande cegueira. Será mesmo que toda dor é necessária para criar algo de valor? Não deveríamos, quem sabe, repensar isso?

Essas perguntas me acompanharam numa manhã no Mercado, quando resolvi parar na ostraria para observar — e quiçá saborear — as ostras. A Les Portugaises, no Mercado de Cascais, é uma ostraria logo na entrada do pavilhão; impossível entrar pelo estacionamento e não ver as mesas externas, onde pessoas saboreiam ostras com um bom espumante.

Foi ali que conheci Francisco — e, com ele, uma nova forma de perceber o lado perolado das ostras.

Francisco costuma estar por lá, entre colegas que, poetas das conchas como ele, divertem-se enquanto trabalham. De olhos vivos, não perde a conexão com os clientes enquanto abre, delicadamente, as ostras.

Deu-me uma aula. Com toque sutil, mostrou como romper o músculo com a ferramenta, girar a ostra na casca e preservar o caldo mareado entre o molusco e a concha. Deixa-a brilhar ao centro, como uma bela em sua pele de cetim.

Muitas vezes passo por lá apenas para observar — e me surpreender: encontrar dentro daquela carapaça calcária uma criaturazinha que se oferece ao paladar. E torcer para que, a cada rompimento, não surja um grão de tristeza — mas, no instante exato, Francisco, com sua sabedoria imediata e uma leveza que também é profunda, oferece sempre uma resposta bem-humorada.

Na última visita, vi uma família de estrangeiros a degustar ostras na esplanada. Havia uma aura de satisfação que só o prazer verdadeiro é capaz de revelar.

Arrisquei mais uma pergunta a Francisco: que impacto sensorial uma ostra leva para dentro do corpo?

Como será aquele primeiro contato com as ostras recém-abertas, recém-descoladas de sua vida-casca? (Enquanto pensava que viver também seja isso: romper, com delicadeza, nossas próprias cascas — e descobrir que, por dentro, pulsa algo cru, disforme ainda, no entanto profundamente verdadeiro).

— É como tomar o mar... é mar! — disse ele com a suavidade de quem costuma ter mar nas mãos.

Foi tudo tão mais simples nas palavras de Francisco. Mar. Apenas mar... a imensidão do mar a nos tomar a partir de uma ostra.

— E as pérolas, Francisco?

É a pergunta que sempre faço. Quase um jogo, como se quisesse saber se as ostras, ao se descolarem de sua vida-casca, foram felizes ou carregaram um grão de areia pela vida afora. Francisco me garante que, entre as milhares que já abriu, jamais encontrou uma pérola.

— Só vendemos ostras felizes! — responde, com a convicção de quem conhece o mundo das ostras como ninguém.

Por que será que nunca encontramos pérolas por aqui? Talvez porque não sejam ostras incomodadas — ocupam-se do viver. Ouvi dizer que, quando por acaso se encontra algo dentro da concha, é assimétrico e sem "valor". Rimos, um riso de veludo, da ideia de comer ostras felizes — sem pérolas valiosas, sem dramas, apenas quietude.

No interior das cascas das ostras de Francisco, habita o eco do canto das baleias, que elas colecionaram em silêncio.

Francisco contou-me, sorrindo, que o mais curioso não era a ausência de pérolas, mas o fato de que, não importa o tempo, as pessoas sempre consomem ostras com espumante. Pode estar frio, chuvoso, escaldante... ostras sempre combinam com bolhas.

— Ostras descem bem com espumante!

Ri com ele, imaginando a descida da ostra pela garganta. A que se deve essa combinação?

O espumante, com suas borbulhas efervescentes, carrega a leveza do instante, o convite à celebração, ao breve esquecimento do mundo.

Talvez seja isso: o espumante — alegria aérea — encontra nas ostras equilíbrio: leveza que nos eleva, rusticidade que nos ancora. A busca por harmonia no contraste, onde a beleza do momento está não na perfeição da união, mas na ousadia de consumir.

Não há mesmo aquelas pérolas por aqui.

Mas há cantigas de baleia, memória líquida preservada de um mundo oceânico, a mão precisa a pôr as ostras a brilharem em suas conchas, a delícia posta à face ao consumi-las.

Talvez essas experiências — de sabor, encontro e mar — sejam, no fundo, a verdadeira pérola de uma ostra.

E, se mesmo um dia uma ostra desejar fazer uma esfera perolizada, que seja um gesto de amor à simetria — não por defesa, mas por pura arte de polir sua concha. Porque, no fim, não é sobre encontrar pérolas — mas sobre o prazer de consumir o imperfeito.

Crônica poética escrita após uma visita à ostraria Les Portugaises, no Mercado de Cascais. Reflete sobre o valor da leveza, a beleza que nasce do cotidiano e o encanto das ostras felizes — sem pérolas, mas cheias de mar.




A grandeza das coisas banais






 Como as pequenas coisas constroem o que somos

Por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

De que, de fato, é feito um escritor?

Foi ao final da manhã, no Mercado da Vila de Cascais.

O ar estava espesso de aromas — pão fresco, frutas, flores. Conversas cruzavam o pátio como linhas de bordado. O Mercado não era apenas um cenário. Era o próprio corpo do dia, abrindo pequenas fendas de tempo e bem-estar.

Uma pausa com sabor de café e pastel de abóbora com queijo da Serra — sabores que fazem a gente estar e viajar.

Estávamos à mesa do Palavras e Azeitonas quando vi Neumar Silva, escritor brasileiro, com uma xícara de café na mão. Tinha aquele olhar de quem busca um lugar — ou reconhece afinidades silenciosas.

Por um instante, seus olhos se demoraram nas rendas de crochê sobre a mesa, como quem lê uma história antiga, ponto a ponto. Antes que seu olhar se perdesse, acenei.

Ele disse “sim” quando disse “não”. Murmurou algo como “a mesa está arranjada” — e, antes mesmo do fim da frase, já estava à mesa.

Sentou-se junto a mim e a Ana, que saboreávamos mais um dos nosso cafés de aniversário, descompromissadamente, a celebrar o simples. É assim quando se está em festa: os encontros se tornam inevitáveis.

Neumar é desses que caminham guiados por memórias sensoriais. Contou-me que, em suas caminhadas diárias, há uma flor específica cujo perfume o atravessa — e, por instantes, ele volta a ser menino. Costuma levar um pequeno ramo para casa e deixa que o aroma preencha o lar. Não é saudade. É presença.

Uma memória inteira que se acende com um simples cheiro. Essa flor, real e recorrente, lhe serve de bússola — a chave do seu lume de escritor.

Falamos disso, e de livros, e de escrever. Então que perguntei:

— O que você escreve?

Ele sorriu, com a pausa de quem não tem pressa:

— Entre tantas coisas, banalidades.

Banalidades às quais sou fiel...

Falou de suas viagens e da prática de escrever notas.

 

— O diário de memórias — continuou — foi meu guia neste último livro: Entre livros e viagens.

Enquanto falava, mencionou Carolina Maria de Jesus e o impacto de Quarto de Despejo.

A voz brevemente embargada. A lágrima contida. Havia ali o reconhecimento: Carolina escrevia com a fome e a lucidez de quem observa tudo — e ele, com a delicadeza de quem escuta o mundo. Ambos, à sua maneira, revelam o que está escondido nas margens da vida.

E é dessas mesmas margens — feitas de silêncio, resistência e afeto — que nascem os verdadeiros transbordamentos criativos.

Foi ali que compreendi: talvez sejam justamente essas coisas — as que chamamos de banais — que sustentam tudo o que somos. São as delicadezas do dia comum que nos oferecem pertencimento.

Há um heroísmo manso nas insignificâncias.

Manoel de Barros dizia que é preciso “desimportar-se” para alcançar o que é fundo. Que há grandeza nas miudezas, nos gestos quase invisíveis. Talvez escrever — e viver — seja isso: dar valor ao que parece inútil, mas toca a alma. Oferecer um alimento ao andarilho, escutar o que tem a dizer...

Uma mesa posta com rendas. Um café sem urgência. O perfume que, no meio do caminho, devolve a infância.

Essas coisas não constroem o mundo — mas o sustentam por dentro.

Penso agora: um escritor é feito disso. De afetos bem guardados. De sentimentos que sobrevivem ao tempo. De cenas comuns, vividas com inteireza.

E Neumar, ali à mesa, era isso: "um apanhador de desperdícios" — presença inteira.

Palavra limpa. Emoção que não se exibe — apenas escorre, natural.

Quando se levantou, levou consigo a flor que o trouxera — invisível para nós, mas nítida para ele.

E talvez tu também caminhes com uma flor dessas —que não se vê, mas leva de volta ao que importa.

Mesmo sem o saber. Mesmo sem escrever.

Ainda assim, autor: do gesto, do silêncio, da presença.

Porque há luz — sim — nas coisas banais.

Nota: Esta escrita foi inspirada no escritor Neumar Silva, cuja escrita sensível valoriza as pequenas coisas que nos constroem pelo caminho. Seu livro Entre livros e viagens será lançado no dia 24 de maio de 2025, às 15h, na Biblioteca Casa da Horta, Quinta de Santa Clara – Cascais.

Apareça por lá!

GRÃOS SAGRADOS

 







Grãos Sagrados


por Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica e escritora

Sempre acreditei que café e chocolate conversam entre si — um aquece, o outro acaricia. No Mercado da Vila, falava sobre o café das matas de Minas Gerais quando Estella, apreciadora do café do Pedro tanto quanto eu, se aproximou e disse:


— Vou te apresentar o melhor chocolate do mundo.


E assim, entre o aroma do café e a promessa do cacau, começou a travessia.

No ventre fresco da loja Diogo Vaz, o aroma da torra do cacau suspira no ar — um convite à experiência inteira. Entre barras, nibs e grãos torrados, o chocolate se revela como um rito discreto: não apenas alimento, mas promessa de encontro. Uma pausa na pressa do dia para ouvir a própria alma.

Mas afinal, do que é feito o chocolate? Não é só mistura de açúcar e cacau. Cada barra guarda uma genealogia — uma terra, um clima, um cuidado — que entra pelo paladar e se espalha em sensações, sinapses, alegria.

Estella abre essa porta com naturalidade. Com a doçura que só o chocolate sabe ensinar, ela nos leva a caminhar entre cacaueiros, dedos mergulhados na terra fértil de São Tomé, deslizando por postais vivos onde o sol equatorial pinta memórias. É a estrela-guia que conecta o Mercado da Vila à ancestralidade pulsante — guardiã de uma passagem entre mundos, entre o visível e o invisível.

Entre as criações da casa, há uma que pede silêncio: a linha Ôrihanga. Preparada para rituais de conexão, ela não é apenas chocolate — é pausa e presença, convite para atravessar a si mesmo. No primeiro toque, o amargo testa o paladar; depois, cede espaço à doçura, como quem abre um caminho interno.

O chocolate Diogo Vaz, vindo dessa terra viva, traz o pulso do solo vulcânico e a umidade do trópico. É memória que ecoa o que os povos mesoamericanos chamavam de árvore sagrada plantada no coração da Terra.

São mais de 420 hectares de floresta, silenciosos guardiões dessa dádiva. A linha Ôrihanga, cujo nome evoca rito, não é só sabor: é dobra do tempo. O amargo primeiro testa o paladar para, depois, revelar sua doçura — uma lição que o corpo entende sem pressa, e a alma reconhece como reencontro.

No moinho da minha infância, as pedras moíam grãos e histórias ao mesmo tempo — camadas do passado embalando o presente. Sempre tive uma ligação silenciosa e profunda com os grãos: trigo, arroz, milho, uvas, café... Cada um é um pequeno universo, uma narrativa viva que conta a trajetória humana — dos campos antigos às mãos que colheram, das celebrações às batalhas, da fome à fartura.

O chocolate mantém viva essa travessia entre sujeito e mundo — vínculo indissolúvel, gesto que abre diálogo interno e convida a habitar o instante presente.

O Mercado da Vila acolhe essa circularidade. Cada loja é um círculo que se abre e se fecha, refletindo o outro e criando abraços invisíveis — uma dança de aromas, sabores e memórias que costuram uma tapeçaria coletiva, onde o individual ressoa no corpo do outro e no tempo compartilhado.

É luxo? Privilégio? Talvez algo maior: uma chance rara de habitar a presença. A lenda diz que, quando um pedaço de chocolate se dissolve lentamente na boca, é possível ouvir o sussurro da serpente emplumada — um eco antigo lembrando que os deuses ainda caminham entre nós.

E, se esse instante vier acompanhado do café orgânico dos Salgados, das matas brasileiras, o rito se completa — sinfonia delicada que desperta corpo, mente e alma.

Esse é o meu momento Mercado. E o seu?

 

Entre Parreirais e Memórias

 



🌍 Entre Parreirais e Memórias

Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica

Na vastidão do Planeta, a América,
no extremo do país continental, o Sul,
em seus seios, uma serra trespassada de história,
sobre ela, vinhedos,
e embaixo deles, o domingo inteiro,
entre o Planeta e o vinhedo,
balançando o passado em aroma,
repousa o olhar.
(Habitar, Katia Bonfanti, 2022)

Imagem: Vinhedo da família Giordani – Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, RS.

Dia ensolarado no Vale da Serra, início de tudo. O ambiente é vivo e cartografado pelo verde das matas, onde as falas se interpõem com as mãos. Profusão da linguagem dialetizada. Mistura da italianidade com o sulista brasileiro: uma aposta que deu certo, mas não sem muito trabalho.

A abertura do país aos italianos tinha propósitos: povoar os vazios da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e incrementar a produção de alimentos. Os italianos, que sofriam com guerras, crises econômicas e fome — que assolava até os interstícios da alma — viram no Brasil a chance de preencher também os seus próprios vazios. Vieram ao Sul com a promessa de terras agrícolas. Navegaram em busca da fortuna — sorte.

Compuseram na América as primeiras Colônias Imperiais, por volta dos anos 1870. Trazer à luz essa trajetória é reverenciar a herança cultural que pulsa na alma de tantas cidades do Sul e de outras regiões do país.

A Serra Gaúcha foi o atracadouro de sonhos de famílias recém-desembarcadas. O encontro com a terra íngreme e desconhecida exigiu força, fé e resiliência. Para os solteiros, trouxe também o encontro com o amor.

Milhares de italianos trouxeram suas tradições, povoaram colônias com famílias numerosas sustentadas pela fé. Trabalhadores incansáveis, fizeram do solo de pedregulho la vita fortunata. Há quase um século e meio, os descendentes traduzem esses sonhos em vivências e memórias. Vemos na Serra Gaúcha uma cultura única, fortalecida pela língua criada na interação: o talian.

Ao adentrar as cidades com alma italiana, percebemos a tradição nos sabores, nos gestos, nas orações. Adoramos as festas, especialmente a vindima — a colheita. O trabalho vem na medida da gratidão e do gozo. Os perfumes reconectam à vida no sem-fim entre o planeta e a plantação. Os parreirais, como terraços de esperança, frutificam e adoçam os imaginários. Ao pegar o cesto de vime, dois continentes se ligam. As uvas, em seus inúmeros sabores, pendem sobre olhares perplexos. O ontem se apaga. Só importa o agora.

Minha avó dizia que a vindima suscitava o amor — baseava-se no aumento de nascimentos nove meses depois, mas isso fazia parte do seu anedotário. Pensando bem, faz sentido. A colheita é mesmo a festa do amor.

Os italianos migraram com amor à pátria, embora fossem filhos órfãos. Recriaram seus modos de viver nas colônias: trabalhavam, rezavam, festejavam e amavam. Organizavam os talhões com sabedoria: nas partes altas, os parreirais; nas baixadas, os trigais; entremeados, as ervilhas e o milharal. A polenta era essencial.

Iniciavam no nível do chão. E a partir dele, cresciam.

Sem a coragem dos antepassados, hoje não teríamos a vista dos vinhedos. Apesar das secas, a festa da colheita está garantida. Grupos andam sob o lençol verdejante em pleno fevereiro escaldante. O frescor vai além do clima. É leveza que se sente no encontro com as raízes. Conhecer as origens dá identidade. A cultura se transmite nos gestos, aromas e modos de fazer, mesmo sem instrução formal.

O vinho é mais do que bebida. É ligação cultural. Mesmo quem não o aprecia, reconhece seu valor. Os italianos, ao chegarem, não encontraram ouro nas árvores — mas o fizeram surgir. Engarrafaram o ouro. O vinho ganhou o mundo. Apostaram no espumante — enfrentando França e Itália com o brilho próprio da Serra.

Fortuna aqui não é riqueza, mas fazer a sorte: entrelaçar trabalho com fé e perseverança.

Os ítalo-brasileiros elevaram a produção a escala global. Mas crescer exige rever os planos. Preservar tornou-se urgente. Desenvolvimento não pode custar a finitude da cultura ou da natureza. Sem fachadas históricas, sem produção artesanal, sem festividades — corremos o risco de perder a identidade. Deixar a cultura morrer é negar a ancestralidade. É ter o vazio de volta.

Todas as culturas importam. Aqui, celebro a italiana por estarmos comemorando um século e meio de história. Reafirmar valores culturais é dever de quem descende dessa tradição. Somos produtos perfeitos da nossa cultura. A italianidade que vive em mim me torna quem sou. Visitantes das cidades colonizadas por essa alma “estrangeira” são, por instantes, acolhidos por vinhedos, sonhos e ancestralidades. Trocas culturais revelam: quem é o outro? Quem sou para ele? Quem somos todos?

Viva as trocas culturais. Viva a italianidade que habita em nós — falante, barulhenta, incansável, rezadeira e amorosa.

Na sequência... uma história que iniciou com a chegada do imigrante Roberto Bonfanti, meu bisavô, à Serra Gaúcha em outubro de 1912. Permaneceu até 1931, desenvolvendo atividades na queijaria que inaugurou em Bento Gonçalves. Depois, interessado em produzir farinha e energia elétrica, migrou para outras águas no Norte do RS.

Algumas fotos abaixo incluem a primeira represa da Serra Gaúcha, em Guaporé (1920), retrato de Roberto Bonfanti e Maria Letícia Chini Bonfanti. Casarões de Bento Gonçalves e Garibaldi. O moinho e a igrejinha construídos entre 1931 e 1937, no interior de Constantina, RS. A mudança teve o objetivo de encontrar, no Rio Lajeado Grande, água capaz de gerar energia elétrica para o casarão e movimentar o moinho. Sonho que deu certo e iluminou, em 1938, o pequeno Vale Bonfanti.






Reliquias do baú da nona Maria Letícia... livro de 1911, presente trazido da Itália pelo nono Roberto



Maria Letícia Chini e Eu




Parte do altar da igreja de 1937



                                                          O velho moínho contruído em 1931

Vencer, às vezes, começa em confiar

    Juvenis Estoril Praia, Set 25 a Jan 26 Esq. p/ dir: Nuno Luís, Alíce, Vivi, Catarina, Gabriela, Ines, Sofia, Maria, Daniela, Kika e Zé A...