Entre o Resultado e o Processo






Há longos anos venho acompanhando treinos e jogos de voleibol. Não por acaso. Meu olhar procura o que não está explícito: observo expressões, posturas, movimentos, mudanças no ambiente e aquilo que é dito — ou silenciado — após cada jogo. É nesse intervalo entre ação e significado que o esporte revela seu potencial de desenvolvimento humano.
No jogo que assistimos no sábado, vimos um grupo com elevada organização interna e coletiva. A autonomia na tomada de decisão era visível: cada jogadora sabia o que fazer e como contribuir para a equipe. A comunicação fluía, as emoções estavam reguladas e a técnica aparecia como horizonte a ser alcançado — sequência de serviços longa, foco e confiança. Isso é resultado de treinos planejados com rigor e sensibilidade. 

O papel dos treinadores é irretocável nessa arquitetura: atentos, competentes e profundamente humanos.
Mas mesmo quando o trabalho é impecável, existem dinâmicas que escapam ao controle individual. 

Na psicologia chamamos de fenômenos grupais: movimentos emocionais que emergem quando pessoas estão juntas e que podem alterar o desempenho. Às vezes, o grupo responde mais ao clima emocional do que à intenção racional — e o jogo toma vida própria.

No dia seguinte, com o mesmo grupo e o mesmo nível de adversárias, o cenário mudou. Os movimentos perderam estabilidade, ataques saíram da quadra, a sequência de serviços se rompeu. A comunicação diminuiu e a tensão corporal foi visível.

Curiosamente, o placar foi o mesmo: 3 x 0. Ganharam mais um. 
Mas o placar não mostra o esforço emocional no jogo interno, as tentativas do treinador de estabilizar a equipe, nem o encorajamento vindo das arquibancadas.
Há uma contagem no placar e um jogo invisível acontecendo dentro de cada atleta.

Mudanças no ambiente — piso mais macio, altura do ginásio, bola diferente e torcida barulhenta — afetaram a percepção de controle das atletas. Quando a sensação de segurança diminui, surgem tensão e hiperalerta. Em situações de pressão, o cérebro prioriza sobrevivência, não performance; o corpo reage antes da técnica aparecer.

A percepção de capacidade pessoal tem papel central: quando a atleta acredita que consegue, aumenta o foco e a tomada de decisão. Além disso, o rendimento depende de autorregulação — planejar, monitorar e ajustar ao longo da ação. Quando a atenção é capturada por estímulos externos, a execução técnica perde qualidade.

Essas oscilações fazem parte do desenvolvimento: revelam fragilidades e abrem espaço para aprendizagem.

 O esporte expõe. E educa.

Vencer nunca é consequência de um único elemento. É o resultado do equilíbrio entre fatores físicos, técnicos, emocionais e ambientais. Os jogos são laboratórios de experiência: cada ponto oferece dados para autoconhecimento e maturidade esportiva.

O placar mede pontos, não mede evolução.

“Não sei como… correu mal… não encaixava… me sinto mal”, disse uma atleta.

É o relato de quem está falando do jogo interno. E o processo exige diferenciar autoestima de autoaceitação. A autoestima oscila conforme o desempenho; a autoaceitação sustenta a atleta mesmo diante do erro. 
Ela permite errar, ajustar e continuar com disciplina e foco.

O foco no processo, no aprender e no evoluir constrói autonomia emocional.

A pergunta não é “ganhamos ou perdemos?”, mas: “o que aprendemos hoje?”

É nesse pequeno intervalo entre o ontem e o hoje que se constrói o desenvolvimento.

Porque o esporte é isso: um laboratório vivo da experiência humana.

Isa e a travessia do Tejo

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 O Set Invisível — Episódio 1 

Por: Katia Bonfanti, psicóloga sistêmica 

Histórias de atletas, treinadores, equipas e famílias que aprendem a co-regular-se e crescer juntos dentro e fora do desporto.

 Isa e a travessia do Tejo

No comboio entre Lisboa e Cascais, encontrei a Isa. Uma aprendiz de Voleibol, que viaja quase todos os dias para treinar.
16 anos, mochila grande, sorriso luminoso — daqueles que iluminam o corredor do vagão. Sentou-se ao meu lado e com alegria narrou suas travessias.

Todos os dias ela "transpõe" o Tejo:
autocarro → barco → comboio → autocarro.
Duas horas até chegar ao treino.

Jogou quatro anos em um clube na suas região, onde aprendeu muito do que sabe. 

Isa tem convicção de que novos desafios impõem crescimento, decidiu buscar um novo clube. Poderia ter escolhido um clube mais perto.
Mas não.
Escolheu o Estoril Praia Voleibol. Horas de distância da sua casa.
Escolheu sair da zona de conforto porque algo lhe diz que isso a fará crescer. 

Estudante, Isa traz consigo os manuais e TPCs para fazer enquanto se desloca  — Acostumei-me. Disse sorrindo.

Valorizar todas as horas, saber se organizar no tempo e nas tarefas, mesmo quando está nos transportes  a faz crescer. Gestão de tempo e desenvolvimento de atitude frente a vida também é uma competência desenvolvida pelo desporto. Isa já percebeu que não basta jogar bem, precisa dedicar-se às demais dimensões da vida com empenho. Nenhum sucesso vem por acaso.

Viajar é seu plano, mas ter êxito na vida escolar também faz parte do plano. Ajudar nas tarefas da casa e dar atenção a família também fazem parte da sua carreira. Uma carreira tem muitas fazes e Isa está atenta. É ao mesmo tempo analista e trabalhadora nos pilares do seu futuro. Não que seja fácil, nem que isso não lhe custe horas de sono, momentos em família,  diversões que talvez gostasse de ir...mas o desporto é caminho, e é a partir dele que se organiza.

No início da época, fez um acordo consigo mesma:
“Se eu for, vou inteira.”

O treino dela começa antes de tocar na bola
Quando ela pega a mochila, fecha a porta de casa, e confirma, de novo, a decisão — mesmo cansada, mesmo quando o dia pesa. Sim. Há dias que tudo fica mais difícil e se chover "canivetes", Isa fica em apuros. Tem vontade de sair mas receio de nào conseguir chegar à tempo.

Há dias em que o corpo não acompanha a vontade.
O serviço não entra.
O ataque sai torto.
O silêncio entre um erro e o próximo parece enorme.

E é ali — entre o erro e a próxima tentativa — que Isa entende quem está a formar-se. Porque  o aprendizado com excelência, muitas vezes, vem sustentado por uma lista de tentativas que não deram certo. 

Ela sabe que melhorar depende de tentar. Então, respira. Ajusta o olhar.
Pergunta a si mesma: “O que posso fazer diferente agora?”
E tenta outra vez. Isso não é só persistência. É autorregulação.

O desporto nào é sobre nunca errar, pelo contrário. Evoluir passa por observar-se, ajustar-se, receber feedbacks e continuar.

Isa tem sonhos grandes à realizar e tem juventude para realiza-los. E o interessante de ter feito um dos percursos com a Isa foi perceber que ela entendeu algo maior — que muitos adultos ainda estão em busca de entender — que o esforço em fazer bem feito só pode ser dela, mas a coragem é construída com o outro. Está aberta a fazer parcerias a receber apoio de seus treinadores, de suas colegas de Clube e da vizinhança que estiver por perto. Um apoio encoraja e é sempre bem-vindo.

Claro que nada disso reduz o tempo nem a distância para chegar em no pavilhão. A força e a determinaçao precisam ser dela.

E em troca Isa ganha:

Clareza.
Coragem.
Consciência de quem está a tornar-se.

Então, todos os dias de treino, quando chega à estação de Cascais, Isa está prestes a iniciar um set que não aparece na ficha de jogo — o set do empenho e do compromisso.

Um set que não aparece no marcador.
É o Set Invisível — aquele que ela vence por dentro.























O Rito das Flores










 O Rito das Flores

Katia Bonfanti, psicóloga

Sou dessas pessoas que chegam devagar.
Antes de existir por completo no ambiente, observo. Depois comunico minha chegada.
No resto do tempo, acompanho o mundo com os olhos: esse modo silencioso de estar presente.

Naquele dia, vi um senhor sentado.
Diante dele, uma taça de sangria.
Ao lado, dois buquês de flores: um rosado, outro alaranjado.
O segundo, intenso e vibrante, era exatamente do meu gosto — embora ambos fossem lindos, dispostos com cuidado.
Nada parecia extraordinário, e talvez fosse isso o extraordinário: a naturalidade do gesto, o homem e as flores fazendo parte da cena como se sempre tivessem estado ali.

Ele havia chegado antes de mim ao Fundão — essa casa de café e salgados bem na praça do Mercado.
Estava ali, tranquilo, o copo à frente, como quem observa o movimento da manhã.
Eu apenas passei, cumpri meu ritual: um café rápido, algumas palavras com o Pedro, o dono, o costume de viver o espaço.

Quado me despedia, o homem se levantou.

Aproximou-se e, num inglês estrangeiro — acento de lugar nenhum e de todos — disse apenas:
“You deserve the flowers.”

E me estendeu o buquê alaranjado.
Aceitei.
Não por entender, mas por sentir que devia.

Atravessei a praça e depois a cidade com o buquê nos braços.
Nos olhos dos outros, os parabéns por alguma data qualquer.
Sorrisos, acenos, curiosidade.

Cada olhar inventava um motivo: flores para dizer estou aqui e fico feliz em ver-te.
Mas o verdadeiro motivo — se existia — só o homem sabia.

Ou talvez nem ele.

Imaginei depois que o senhor Cristian tem um ritual delicado, de uma bondade que lhe reduz os olhos.
Senta-se sempre no mesmo lugar, bebe devagar, observa o mundo passar.
Vai ao florista, escolhe uma a uma, monta o arranjo com paciência.
Depois, espera o instante — um olhar, um gesto, um acaso — e oferece.
Sem explicação.
Apenas porque algo, nele, reconhece algo no outro. 

Uma espécie de “Namastê” em forma de gesto.

Acho que foi isso que aconteceu.
Uma daquelas coincidências que o corpo entende antes da razão.
Um breve encontro de presenças — uma respiração de liberdade.
Não há como nomear — apenas sentir que, por um instante, o acaso escolheu dar-me flores.

Caminhei o resto do dia com o perfume me acompanhando.
E, talvez, tenha aprendido ali que alguns gestos — os mais silenciosos — são também uma forma de oração.

 



 







Pilu

Katia Bonfanti

Pilu aveva undici anni — già una buona età per un cane. Ma nei suoi occhi abitava ancora l’infanzia, e nei suoi gesti la gioia degli inizi. Giocava come se il tempo non avesse potere su di lui. A volte rubava le mie ciabatte: non per portarmele, ma per dirmi, in silenzio, che durante la mia assenza continuava a camminare accanto ai miei passi.

Era di Angelita, di Mário, Nicolò, Martina e Alessio ma, dal momento in cui entrò nelle nostre vite, fu anche nostro. Pilu era generoso di presenza: sapeva dividersi tra tutti, senza mancare mai a nessuno. Dove arrivava, la pace si diffondeva; dove restava, la gioia diventava casa. In lui c’era una tenerezza ferma — e, quando necessario, un’alterezza protettrice. Bastava un ringhio profondo per dichiarare: “Adesso, io mi prendo cura dei bambini.”

Pilu aveva quel dono raro di essere intero. E rimase intero fino all’ultimo istante. Si addormentò su nuvole di cotone, guardandoci ancora attraverso le fessure degli occhi, come chi lotta contro il sonno solo per salutare. Sembrava voler custodire in sé il ritratto della famiglia che tanto aveva amato — e, nello stesso tempo, lasciare nei nostri occhi il ricordo del suo amore.

Poi, serenamente, Pilu partì dentro le nuvole. Ci lasciò il silenzio dell’assenza, ma anche il dono invisibile che solo i cani sanno lasciare: un amore che non pretende nulla, che non si spezza, che resta eterno.

Bravo Pilu!



Pilu o bebè



Pilu rindo....


Pilu

Katia Bonfanti

Pilu tinha 11 anos — já uma boa idade para um cão. Mas em seus olhos ainda brincava a infância, e em seus gestos morava a alegria dos começos. Brincava como se o tempo não tivesse poder sobre ele. Às vezes, roubava meus chinelos: não para me oferecer, mas para me dizer, em silêncio, que na minha ausência ele seguia ao lado dos meus passos.

Era da Angelita e do Mário, mas, desde o instante em que entrou em nossas vidas, foi também nosso. Pilu era generoso de presença: repartia-se entre todos, sem jamais faltar a ninguém. Onde chegava, a paz se espalhava; onde ficava, a alegria se fazia casa. Havia nele uma ternura firme — e, quando necessário, uma altivez protetora. Bastava um rosnado grave para declarar: “Agora, eu cuido das crianças.”

Pilu tinha esse dom raro de ser inteiro. E foi inteiro até o último instante. Adormeceu sobre nuvens de algodão, ainda nos olhando pelas frestinhas dos olhos, como quem luta contra o sono só para se despedir. Parecia querer guardar em si o retrato da família que tanto amou — e, ao mesmo tempo, deixar nos nossos olhos a lembrança do seu amor.

Então, serenamente, Pilu partiu para dentro das nuvens. Ficamos com o silêncio da ausência, mas também com o presente invisível que só os cães sabem deixar: um amor que não exige nada, que não se rompe, que permanece eterno.

Pilu agora vive em nós — na memória suave como algodão, na saudade que nos acompanha como sombra, e no laço invisível que nunca, nunca se desfará.

Querido o Pilu!



Pilu o guardador de meias....



Pilu o guardião bem humorado...





Pilu cheio de pose...







Pilu atento....



Pilu no seu sono eterno...



Fotos by Alice, eterna madrinha do Pilu.

Gentileza – In Memoriam



Gentileza – In Memoriam

Entra como se fosse luz líquida.
Alisa os vincos das cortinas,
desata nós invisíveis no ar.
Seu toque não pesa: é vento que organiza a poeira,
mãos que redesenham o caos sem quebrar nada.

Ensina que a pedra se curva diante da água,
que o grito se dissolve quando encontra o colo,
que o cuidado é raiz subterrânea,
capaz de sustentar até os dias que desabam.

Vestida de gentileza, Ju
dava seu sorriso largo,
daqueles de espantar tristeza...
e perguntava por todos,
como quem desejava, de verdade,
que a vida estivesse em paz em cada coração.

Ju passava rápida, como quem carregava pressa nos passos,
mas nos olhos havia sempre repouso,
um brilho de mar, sereno e profundo.
Era assim: movimento e sossego no mesmo instante,
como vento que corre a balançar as margaridas do canteiro.

Parte de repente, mas não parte do todo:
Fica nos gestos, na palavra de carinho, no ligeiro piscar dos olhos-mar.

Desde que ela se foi, penso no
“habitar o coração” –
a casa onde memórias, cuidado e ternura encontram abrigo.

Alegrava-se em pensar que — em qualquer lugar — habitamos um lar dentro de nós

um espaço sagrado onde a gentileza e o amor
permanecerão eternamente vivos.

É lá agora sua morada:
não há paredes, nem riscos, nem distâncias.
Apenas recordações.

 Katia Bonfanti

Para Juliane Zimmermann Tamanini, querida, sempre em nossos corações, onde quer que esteja.

Palavras & azeitonas - Garrincha e Peixoto - Histórias no Mercado

 



Katia Bonfanti

Psicóloga e terapeuta Sistêmica

Havia uma voz, que silenciou há muito tempo. Dizia-me: dormir além de oito horas é encurtar a vida. Essa voz, talvez, soubesse do próprio fim. Morreu aos trinta e nove, e eu me pergunto se ela pressentia. O que me conforta é saber que esteve disposta a viver cada instante como se fosse infinito, numa vida finita e curta.

No último sábado, dormi além das oito horas. Cheguei tarde ao Mercado. Não que isso seja não viver, mas penso que poderia ter sentido mais o calor macio da manhã de outono, os vinte e dois graus abraçando o dia como quem segura algo precioso. As ruas já estavam cheias de gente, mãos carregando ramos de eucalipto, flores que lembram repolhos arroxeados, tulipas que se abrem como promessas sussurradas ao vento.

Tantas coisas escaparam entre os milésimos de segundos. Poderia ter sentido o perfume do pão saindo do forno de barro, ainda quente, seu vapor dançando no ar fresco da manhã. Talvez os dióspiros mais doces estivessem ali, esperando por mim, prontos para explodir em doçura. Mas é só uma questão de perspectiva, talvez de tempo. Porque, no fundo, tudo estava ali, de alguma forma, mesmo que eu tivesse chegado depois.

Quando os ponteiros do relógio tocaram onze horas e um quarto, entrei no Mercado. Encontrei o senhor Carlos despedindo-se de Pedro, o copo de ginjinha vazio sobre a mesa, um vestígio da manhã que lhe aquecia o peito. Seus olhos, esverdeados, embaçados pela idade, carregavam uma saudade velada. Ele comentou, quase casualmente, que a mulher já não conseguia andar sem perder o ar. Pequeno em estatura, mas com uma voz que ocupava os cantos, o senhor Carlos me esperava com expectativa, risonho e acolhedor.

Ele vem sempre ao Salgados do Fundão. É um hábito dele, agora também meu — parte dessa tentativa de ser inteira em Portugal. Não sou só eu. Há muitos de nós, imigrantes espalhados como frutas diversas nas bancas. Cada canto do Mercado da Vila carrega um pouco de quem somos.

Entre os cheiros de chocolate, leitão, pizza italiana e os queijos de cá e de lá, há sempre o Fundão. Na mesa alta improvisada, falamos de tudo e mais um pouco: comida, invernos, falta de ar, passados que nunca somem e futuros que não sabemos se virão.

O senhor Carlos fala muito de Garrincha. Jogou no Sporting, mas tem um amor fervoroso pelo Chelsea. Apesar de uma ligação quase fraterna com a Inglaterra, Portugal é sua casa. Mostra-me, com o entusiasmo de um menino, como gingava no campo. “Outros tempos, outros tempos! Um tempo em que o futebol era menos dinheiro e mais garra”, diz ele, com o brilho nos olhos de quem revive a glória de cada drible.

Inspirado pelo “Anjo das Pernas Tortas”, ele quase me faz ver Garrincha em campo: os movimentos imprevisíveis, o olhar astuto, a alegria de jogar por jogar. No fundo, há algo de Brasil no senhor Carlos — não só no futebol, mas na abertura calorosa para conversas e no jeito de transformar o ordinário em extraordinário.

Logo ele se despede, apressado. Diz que é hora de fazer carapaus grelhados para a companheira. Fala disso com a reverência de quem executa um ritual sagrado, pequeno, mas cheio de amor, tão essencial quanto o ar que ela luta para manter. Quando o vejo desaparecer na multidão do Mercado, algo em mim se desacomoda. Não era só ele quem voltava para casa, para o calor do fogão e a companhia de um respirar que já falha.

Era eu que ficava. Como as flores na banca, como o pão que já não está quente, como a marca de café desenhada na chávena. Olhando ao redor, percebo nos detalhes uma sutil nostalgia. Aqueles momentos haviam sido únicos. Estamos sujeitos a partidas únicas – instantes suspensos no meio da pressa do mundo.

Talvez fosse isso que ela quis dizer, tantos anos atrás, quando falou em encurtar a vida. Não era sobre as horas dormidas, mas sobre o que fazemos com os momentos que nos restam acordados. Que cada segundo possa ser infinito, porque, no fundo, ele pode mesmo ser o mais bonito.

Vamos ao Mercado!



A Serviência do Fado - Palavras & Azeitonas

 




A Serviência do Fado - Palavras & Azeitonas

Por Katia Bonfanti, psicóloga e terapeuta sistêmica

Um dia destes, ouvindo uma entrevista em um canal de rádio de Lisboa, fui surpreendida por uma frase do entrevistado: “O fado é música que não se dança.” Não se dança?! Tenho que saber mais sobre isso? Pensei. Nem um balanço tímido, nem uma oscilação involuntária, daquelas que nascem de um pulsar compartilhado entre música e corpo? O fado, sendo emblemático e popularmente conhecido em Portugal, seria como ouvir Chico, Elis, Caetano ou Gil... sem que o corpo respondesse, ainda que num sutil bater de pés ou num rítmo dos ombros. Será possível que o fado não mova, nem mesmo, um eco nos espaços vazios dos corpos?

Perguntei-me se haveria uma função do fado para além do movimento. Um lugar que fosse mais fundo, mais próximo às frestas onde guardamos o que não se pode dizer. Há poucos dias, enquanto tomava meu café no Mercado, conheci o Sr. Rolo, um português que, em 1960 e poucos, com apenas vinte anos, partiu para a tropa, destinado a combater os chamados terroristas na Guiné-Bissau. Ele não era apenas João Manuel da Silva Rolo. Era um artista do cotidiano, “armado” de voz. Naquela Guerra, conheceu outra arma: a G3, um equipamento de combate que o acompanhava tanto quanto o peso do cansaço e do medo. Durante três anos de combate, Rolo suportou momentos que deformaram o tempo — fragmentos que, nas palavras dele, “ainda sangram, mesmo secos.”

“A Guerra é triste... muito triste.” Sua voz encolhia. “Vi coisas que demoraram muito para sair da minha cabeça. E algumas nunca saíram.” Ele mencionou copos cheios de vinagre, onde flutuavam restos humanos: dedos, orelhas... Uma memória ácida, encarnada no detalhe cruel. “Passei anos sonhando com aquilo. Minha sorte foi que os ferimentos físicos foram pequenos, queimaduras no peito, nada demais. Mas a mente é complicada. Ela não esquece.”

Há um tipo de sono que é mais profundo que o corpo, mas ainda assim mais raso que a alma. Um estado intermediário que não é capaz de amainar a mente, muito menos apagar as imagens torrentes. Para o Sr. Rolo, os pesadelos vinham como sombras tangíveis, arrastando-o para baixo da cama. “Chamava minha mãe, e ela vinha. Eu dizia: foi um sonho. Aí eu voltava a me deitar, mas o sono demorava… muito tempo, às vezes não vinha.” O Sr. Rolo, como o Sr. Alberto que conheci outro dia – que trazia nos olhos o peso do chumbo, fazem parte do quadro de guerra. Uma herança que basta estar presente, nem precisa ser no front, para ter de carregá-la para sempre.

Entretanto, entre as tragédias, o Sr. Rolo encontrava abrigo em outra arma — não a G3, mas algo mais antigo, quase arquetípico: o fado. Essa música não era apenas um refúgio, era, talvez, uma pele secundária, uma camada de veludo sobre pólvora.

Durante os anos na caserna, ele descobriu que, enquanto os companheiros passavam o copo do Morangueiro – o vinho tinto do Norte de Portugal – de mão em mão, o fado encolhia as tristezas. As notas, ao invés de fazerem os corpos dançarem, faziam-nos flutuar ao jorrar a dor pela boca. Ainda, a melodia abafava o eco das armas e, por um instante, aliviava o peso do luto pelos companheiros mortos. Tomei meu último gole de café ciente de que, em poucos minutos de conversa, o Sr. Rolo me fez entender a função do fado como ninguém. Saudades, lamentos, modas, despedidas, o mar... movem os internos e suas profundezas... eis que "a serviência do fado" se submete ao "destino."

Quando cantava, o Sr. Rolo, um homem entre a guerra e sua canção, fazia mais do que simplesmente emitir sons. Ele moldava esperanças no ar rarefeito. Sua voz não era mais que um dom, era uma ferramenta de resistência. “Eu cantava para que os outros acreditassem que iríamos voltar. Tinha que ser forte porque, ao nosso redor, a morte também era forte.” O fado o abraçava, e ele, por sua vez, abraçava os outros com a música. Esse pacto implícito entre canção e sobrevivência atravessou os anos.

O fado fora uma experiência catártica e terapêutica na guerra. Ele criava um espaço onde as dores podiam ser expressas sem vergonha, onde o peso do que foi vivido não precisava ser silenciado. Cantá-lo não apagava as memórias, mas as transformava em algo suportável. O fado agia como um ritual coletivo de cuidado, trazendo à tona o que estavam a sentir e, ao mesmo tempo, devolvendo aos homens uma centelha de humanidade que a guerra teimava em apagar.

Enfim, em meados de 1965, o Sr. Rolo retornou para casa. Sentia-se grato por estar vivo e, da mesma forma, por ter tido o fado a operar em sua vida e na dos outros combatentes. O fado era seu coração fora do peito. Foi dessa ligação íntima com a tradição – e da descoberta de que a canção era mais do que música, era companheira vital – que ele decidiu levar o prazer para o ofício. Montou uma casa de fado em Caparide, Cascais, cujas portas permanecem abertas até hoje. Perguntei-lhe se ainda cantava. Ele sorriu, misterioso, e disse que eu teria que visitar a Casa para descobrir.

Não sei se meu corpo irá tentar dançar na Casa de Fado. Não sei. Talvez nem seja essa a intenção. Mas já sei que o fado é mais do que música. Ele é o lugar onde as dores não se escondem, mas também não nos destroem. Pelo contrário.

Talvez, na Casa, eu sinta o mesmo impulso que sempre me levou a dançar ao som de Caetano ou Gil – uma música que envolve o corpo e o convida a viver a vida em sua plenitude. Quem sabe o fado, mesmo imóvel, desperte algo em mim, assim como a MPB sempre me embalou? Quem sabe...

Sábado cedo vou ao Mercado tomar o café cheio – de crema e de brasilidades, lusitano de palavras e azeitonas. Ao fim da tarde, à Casa de Fado – escutar os mistérios da tradição portuguesa em canção e destino, e ver se o fado ainda canta no peito do Sr. Rolo.




A primavera da Vila

Há flores em Cascais. Mas não surgem como decoração. Nem parecem acidente de primavera. Há nelas qualquer coisa de estrutural, como se a ...