“Somos uma vila com muito gosto. Mas somos uma vila com uma
Cidade.”
— Piteira Lopes,
Presidente da Câmara Municipal de Cascais
18 de setembro de 2026
Como
uma cidade se torna nossa
Há alguns poucos anos,
mas não tão poucos que não possam contar como uma residência de longo prazo,
moro em Cascais.
Os meses que
antecederam a mudança foram cheios de expectativas recheadas de receio. Quem já
deixou a sua terra, mesmo que seja dentro do mesmo país, sabe que, antes de
chegarmos a um novo lugar, já inventámos alguma coisa sobre ele.
No meu caso, fui
inventando enquanto pesquisava na internet.
Escolhi três lugares
para pesquisar. Cascais foi o primeiro. Coloquei o nome na barra de pesquisa e
a primeira página que apareceu foi a da Câmara de Cascais.
O que é isso?, pensei.
Quanta coisa tem em
Cascais.
Uma vila linda, pintada
pelo tempo como uma aquarela que ainda não terminou de secar.
É lá mesmo que quero
morar.
Para tirar a dúvida,
alugámos, à partida, um mês em Cascais e um mês noutra cidade. Queríamos
experimentar, sentir os lugares, ter alguma segurança antes de escolher onde
viver.
Ao fim dos dois meses,
estava decidido: era mesmo Cascais.
Na segunda semana como
residente, fui à Loja do Cidadão e, por acaso, ao sair, li, bem em frente à
porta:
Cidade das
Profissões.
Achei aquele nome um
mundo.
Eu, que acompanho
percursos profissionais, entraria numa Cidade das Profissões?
Saí de lá com a
sensação de que Cascais guardava pequenas cidades dentro da Vila. E que viver
na Vila seria também descobrir, aos poucos, algumas delas.
Foi naquele dia, quando
me sentei para saber afinal o que era aquela Cidade, que conheci a Carolina
Crispim. Na altura, estava no atendimento e foi ela quem me contou sobre o
projeto. Hoje, é chefe da Divisão de Empregabilidade.
Aquela Cidade que eu
tinha encontrado quase por acaso tinha uma história que vinha de longe. A ideia
das Cités des métiers nasceu em Paris, em 1993, e foi atravessando fronteiras
até chegar a diferentes países europeus. Cascais entrou nessa história em 2019.
Eu começava a sentir na
pele, naquele momento, que as cidades também se fazem assim: de lugares que
encontramos por acaso, de pessoas que nos recebem e de percursos que continuam
a fazer-se no tempo.
Eu, entretanto, já
tinha entrado pela porta da frente.
Meses depois, estava
integrada na Cidade das Profissões como utente de consultorias e formações e
como dinamizadora de workshops de escrita e poesia no Atelier do Bem-Estar.
Há qualquer coisa de
bonito nisso: as pessoas também fazem percursos dentro da Cidade.
Não apenas com paredes,
serviços, salas, agendas e atividades, mas com pessoas que chegam, procuram,
perguntam, participam, partilham alguma coisa e, de alguma maneira, deixam
também um pouco de si.
O intercâmbio cultural
e a energia das pessoas que fazem a Cidade acontecer são, para mim, um dos seus
grandes diferenciais.
Por vezes parece-me
muito frenética. Talvez pudesse ser mais experienciada com calma. Mas a Cidade
tem mesmo pinta de cidade grande: ágil, múltipla, diversa. E tantas outras
características eu poderia empregar à Cidade, que é minha também.
De tanto gostar — e é
sempre bom pensar no que pedimos aos nossos santos das coisas impossíveis —,
acabei por trabalhar na Cidade.
Sortuda fui eu: há
menos de quatro anos resido em Cascais e, na sexta-feira, 18 de setembro,
estive como colaboradora a comemorar o sétimo aniversário da Cidade das
Profissões.
Às vezes penso no acaso
dessa história.
Primeiro, procurei uma
cidade onde morar.
Depois, encontrei
sentido dentro dela.
E, sem perceber muito
bem quando aconteceu, passei de alguém que chegava a alguém que fazia parte.
Não apenas porque
passamos a morar nela, sabemos os caminhos, reconhecemos as ruas ou já sabemos
onde tomar um café. Um lugar torna-se nosso quando encontramos nele um espaço onde alguma coisa de nós pode acontecer.
Um trabalho.
Uma conversa.
Um projeto.
Uma pessoa.
Uma pergunta.
Um poema.
Uma possibilidade.
E encontrei, no meio da
Vila, uma Cidade onde também pude trabalhar, criar, escrever, encontrar pessoas
e continuar a pensar sobre os percursos profissionais — os dos outros e,
inevitavelmente, os meus.
Uma cidade torna-se
nossa justamente quando já não conseguimos dizer exatamente em que momento
deixámos apenas de passar por ela.
É a cidade que
começa a inventar-nos.
Katia Bonfanti
Psicóloga e escritora